Não sei bem precisar quando ele apareceu no rádio, mas a noite em que ouvi sua voz anunciando uma canção que “faz a cabeça de muita gente na Europa” nunca mais saiu da minha memória. Foi quando uma porta imensa foi aberta em meu cérebro ainda juvenil para que um tsunami de novos sons invadisse o interior da minha calota craniana e se espelhasse pelo restante do meu corpo e, principalmente, na minha alma. Faço questão de render minha homenagem a ele, que está vivo e espero que bem.

Para mim, Jaques Gersgorin – ou “Jaques Kaleisdoscópio”, como o chamávamos, já que ele e seu programa Kaleisdoscópio formavam uma única entidade para nós – foi o mais importante radialista de todos os tempos, um “John Peel brasileiro”, só que muito mais “roqueiro”, um termo que se tornou pejorativo por conta da burrice de quem se autointitula de tal forma nos dias atuais. Na minha época de adolescente, pelo contrário, ser roqueiro não era apenas motivo de orgulho, mas uma espécie de distintivo que carregávamos no peito e que servia para nos diferenciar do restante da sociedade careta. Para todos nós, Jacques era o nosso mestre incontestável!

Junto com o igualmente lendário Big Boy – a respeito de quem prometo escrever em breve -, Jaques deu ao trabalho de DJ no rádio um status de brilhantismo próximo da arte. Que ele deveria ser muito pirado – no melhor sentido da palavra -, não há dúvidas. A maneira como conversava com os ouvintes, sempre com a fala mansa e com a pinta de que estava fumando “unzinho” no estúdio, explicando os sons que tocava unindo a espontaneidade de uma conversa de boteco a um compromisso de fugir completamente do esquema “parada de sucessos” que rolava até então em todas as rádios, centrada principalmente no lançamento de compactos, o transformava no irmão mais velho que nunca tive. O negócio de Jaques era tocar faixas dos LPs, muitas delas escondidas no meio daquilo que outros programadores simplesmente ignoravam.

A experiência de ouvir cada uma das edições de seu programa a partir de 1974 na Rádio América AM de São Paulo – não existia FM naqueles tempos e internet era um troço que nem era imaginado até como ficção científica – era para mim um compromisso noturno inadiável e inesquecível. Sozinho, no escuro do meu quarto, com a tampa removível da minha pequena vitrola portátil – onde era instalado o único alto-falante – próxima ao travesseiro e praticamente colada ao microfone de um gravador cassete, eu era transportado para outra dimensão sonora…

Rolavam canções de bandas das quais eu nunca havia ouvido falar e que se tornaram minhas favoritas ao longo dos anos posteriores – Bad Company, Van Der Graaf Generator, Status Quo, Jethro Tull, UFO, Uriah Heep e Aerosmith, entre centenas de outras -, faixas dos recentes discos lançados de grupos mais famosos – jamais esquecerei a audição quase na íntegra do Physical Graffiti, do Led Zeppelin, poucas semanas depois de seu lançamento oficial –, sons de grupos e artistas brasileiros simplesmente sensacionais – O Terço, Mutantes, Casa das Máquinas, Made in Brazil, Som Nosso de Cada Dia, Walter Franco, – e, principalmente, muito rock progressivo. Muito mesmo!

Foi precisamente ao ouvir o Kaleidoscópio de Jaques que me apaixonei eternamente pelo som de grupos como Genesis, Gentle Giant, Focus, Premiata Forneria Marconi e tantos outros. Aliás, foram essas bandas que forneceram materiais simplesmente antológicos para que ele capturasse a minha atenção de forma praticamente hipnotizante. Mesmo hoje, ao escrever este texto e lembrar os temas de abertura – ora “House of the King”, do Focus, ora a versão ao vivo de “Celebration”, do PFM – e do encerramento do programa, sempre com a parte final de “Tubular Bells”, do Mike Oldfield, meus olhos secretam um líquido viscoso esquisito, que muitos chamam de “lágrima”. E rolavam inúmeras outras vinhetas, sendo que as mais marcantes tinham como fundo “Talybont”, do Gentle Giant, e “Dolcissima Maria”, também do PFM.

 

Existem algumas matérias que contam melhor a vida e a trajetória de Jaques, sendo que duas delas que podem ser lidas aqui. Tenho certeza que velhos roqueiros, como o tio aqui, vão se emocionar ao tomar contato com a história de uma figura tão emblemática em nossas vidas. Foi por isso que, tempos atrás, fiz questão de enviar uma mensagem a ele em seu perfil no Facebook. Se você pensa o mesmo, deixe o seu abraço por lá também. Ele merece todas as homenagens por seu pioneirismo e por ter transformado a vida de tanta gente. Como a minha.

Obrigado Jaques!