Tem gente que envelhece realmente de acordo com a idade. Outros acabam se tornando tão carcomidos pelo tempo que custo a acreditar que são mais jovens do que eu. E existem aqueles que parecem ter congelado o tempo de suas vidas e continuam a exalar um frescor de juventude que parece não ter fim.

Ontem, feriado nacional no meio de uma pandemia que a maioria das pessoas tende a negligenciar de maneira criminosa, já levantei da cama com esse pensamento na cabeça e sem dissocia-lo de… Jeff Beck. Como pode alguém caminhar rumo às oito décadas de vida – ele tem 76 anos! – sem demonstrar um pingo de arrefecimento do impacto imenso de sua obra e de sua figura mesmo nos dias atuais. É muito mais do que simplesmente perceber que ele não aparenta a idade que tem. É prestar o máximo de atenção possível ao legado musical que ele vem deixando ao longo de sua vida. Poucos são os mestres das seis cordas que se embrenharam em carreiras em que a palavra “surpreendente” assumiu conotações mais que especiais.

Desde seus tempos de Yardbirds, passando pelo seu próprio grupo – que revelou o talento de Rod Stewart e pariu Truth, um álbum clássico e incontestável – e por seu power trio ao lado do baixista Tim Bogert e do baterista Carmine Appice, Beck desnorteou críticos e fãs, sempre redirecionando seu foco musical quando pressentia os ventos da acomodação em seu rosto.

A partir da segunda metade dos anos 70, ele enveredou por uma seara fusion, só que bem distante das loucuras supersônicas de John McLaughlin com a sua Mahavishnu Orchestra. Optando por privilegiar os grooves mais cadenciados ao invés de experimentalismos rítmicos, Beck acabou por redefinir o conceito de jazz rock, a ponto de ter influenciado todas as gerações posteriores.

Eu poderia “chover no molhado” aqui e tecer elogios infinitos e comentários redundantes a respeito do quanto é essencial que você ouça os discos antológicos que Beck gravou neste período – Blow by Blow (1975), Wired (1976) e There & Back (1980) – e de como esses álbuns certamente vão abrir o seu cérebro e orelhas para novos sons. Prefiro ilustrar a minha admiração pelo som do cara indicando uma pequena obra prima que pouquíssima gente cita ao falar de Beck e que ontem passei o dia inteiro ouvindo com fones.

Gravado ao vivo em 1977, Live é um testemunho real, cru e incontestável daquela fase fusion que marcou a carreira dele na época, uma espécie de foz onde as águas provenientes dos já citados Blow by Blow e Wired se encontraram em cima do palco e produziram um estrondo absurdo. Teoricamente, Beck iria atuar apenas como convidado especial em uns poucos shows que Jan Hammer (ex-tecladista da Mahavishnu Orchestra e parceiro de Beck em Wired) estava fazendo com sua banda. O “problema” é que o guitarrista acabou se transformando no centro das atenções, a ponto de virar uma turnê.

Reouvir esse disco não trouxe apenas a velha memória afetiva à tona. Trouxe também a sensação de que os discos “ao vivo” hoje em dia são tão fajutos quanto uma nota de R$ 33.

Para você ter uma ideia, o álbum começa com Beck e Hammer “duelando” de forma inusitada em “Freeway Jam”: cada um imitando a buzina de um automóvel em seu respectivo instrumento, uma brincadeira que precedia uma espécie de jam session, com seis minutos de total hipnose musical, na qual Beck distribuiu solos faiscantes como se fossem tijoladas nas orelhas das plateias e dos pobres ouvintes do álbum.

 

Em “Earth (Still Our Only Home)”, o suingue generalizado é tamanho que nem mesmo o exagero no uso dos sintetizadores conseguiu esfriar o arranjo. “She’s a Woman”, clássico dos Beatles, é apresentada em versão instrumental bem superior àquela presente em Blow by Blow, com um acento reggae/rocksteady muito maior e com ênfase no talkbox, enquanto que “Full Moon Boogie” é o retrato mais escandalosamente perfeito do funky boogie que notabilizou os anos 70.

 

 

 

“Darkness/Earth in Search of a Sun”, embora tenha o domínio de Hammer nos solos, é a paisagem sonora perfeita para que Beck despeje toneladas de riffs espasmódicos e extraordinários, ao passo que “Scatterbrain”, ao perder um pouco do frescor da gravação em estúdio em função de um alongamento até certo ponto desnecessário dos solos – Hammer chega a fazer slap em um bass synth -, teve acentuado o seu caráter fusion.

 

 

Como se não bastasse o verdadeiro massacre sonoro, o disco se encerra com uma pesadíssima versão de “Blue Wind”, com Beck “fritando” sua guitarra com solos e riffs que provocariam ataques cardíacos fulminantes em uma manada de búfalos enfurecidos, emendando com uma citação da versão de “Train Kept a-Rollin’”, antiga canção de Tiny Brandshaw que Beck imortalizou com o Yardbirds em 1965.

 

Esse live album é o perfeito exemplo de como discos gravados ao vivo nos anos 70 – ao contrário do que muita gente pensa – tinham em uma única faixa mais espontaneidade do que tudo o que foi produzido nesse formato dos anos 90 para cá.