Em 2018 ele fez algo impensável para a maioria de qualquer artista de ponta: soltou três discos. Um excelente álbum de estúdio – Redemption ­–, um duplo ao vivo, British Blues Explosion Live, em que presta tributo ao gênero britânico dos anos 60 e 70 com reinterpretações personalíssimas de clássicos de Jeff Beck, Eric Clapton, John Mayall, Cream e Led Zeppelin, e mais um imperdível exemplo de sua parceria com a estupenda cantora Beth Hart, Black Coffee.

É facilmente possível constatar em sua imensa discografia que Joe Bonamassa não é somente um guitarrista de primeira grandeza e excelente cantor: ele é daqueles artistas que não conseguem produzir algo que possa ser considerado apenas como “mediano”. Tudo o que faz é de sensacional para cima…

 

O disco de estúdio é matador! A começar pela homenagem explícita ao baterista John Bonham logo na introdução da estupenda primeira faixa, “Evil Mama”, com a antológica “chamada na caixa e chimbal” eternizada em “Rock and Roll” e reproduzida com perfeição pelo conhecido baterista Anton Fig. Na sequência, “King Bee Shakedown” é um rockabilly vitaminado por um naipe de metais muito bem elaborado e pela boa sacada de Bonamassa em tornar explícitas as influências de Brian Setzer e Billy Gibbons em seus licks e solos, especialmente quando faz uso do slide.

A atmosfera sônica do Led Zeppelin reaparece em “Molly O’” não apenas na timbragem da bateria de Fig, mas também pela vibe meio épica que o guitarrista pega emprestada de “Kashmir” para elaborar algumas harmonias e em seus próprios solos. Se “Deep in the Blues Again”, “The Ghost of Macon Jones” e a faixa-título são daqueles southern rocks que fazem a alegria de todo fã do Lynyrd Skynyrd e dos Allman Brothers, “Self-Inflicted Wounds” é uma balada-blues em que Bonamassa canta como se tivesse encarnado a alma de Paul Rodgers, mesmo que este último esteja vivo e ainda cantando pra caralho. É um tema perfeito para o guitarrista tascar solos faiscantes, daqueles que deixam o ouvinte com os pelos do braço eriçados. Já “Pick Up the Pieces” tem uma pegada totalmente New Orleans, que não faria feio em qualquer disco do Dr. John em qualquer época.

O guitarrista ainda tem a manha em dar uma eletrificada certeira quando envereda pelo rhythm n’ blues em “Just ‘Cos You Can Don’t Mean You Should”, com solos igualmente matadores, e entregar de bandeja dois blues que grudam na cabeça de modo instantâneo, “I’ve Got Some Mind Over What Matters” e “Love is a Gamble”.

O momento de maior delicadeza acontece em “Stronger Now in Broken Places”, quando Bonamassa, sozinho ao violão e sobre uma base harmônica/melódica quase imperceptível, canta com o sofrimento típico de quem tem certeza que vai se reerguer depois de momentos difíceis.

Ouça abaixo tudo aquilo que escrevi:

 

O álbum duplo ao vivo só comprova o que muitos dizem: Bonamassa é daqueles guitarristas que crescem ainda mais quando estão em cima de um palco.  Isso é um fato que eu mesmo presenciei em um show dele anos atrás aqui em São Paulo, quando o meu queixo passou o tempo inteiro da apresentação descansando por cima do meu coturno.

O repertório é de chorar de tão bom. Abre com uma clássica dobradinha de Beck, “Beck’s Bolero/ Rice Pudding”, resgata duas das mais lindas e subestimadas canções de Clapton, “Mainline Florida” “Motherless Children”, oferece novas abordagens para algumas pérolas da banda de Jimmy Page – “Boogie With Stu”, fazendo uma dobradinha com “Tea for One/I Can’t Quit You Baby” e desconstruindo “How Many More Times”, esta última com um solo de bateria de Fig que vale por um workshop – e também do próprio Beck, como “Let Me Love You Babe”, “Plynth (Water Down the Drain)”, “Spanish Boots”. Além disso, exibe um comprometimento com o blues mais tradicional muito acima da média ao homenagear Mayall com versões de “Double Crossing Time” e “Little Girl” que provocam reações de incredulidade no ouvinte. Quando entra em “Swlabr”, do Cream, aí já covardia… Se puder, assista em DVD/Blu-ray, que é para o massacre se tornar completo! Comprove isso no link abaixo:

 

Black Coffe é o terceiro álbum de estúdio da parceria entre Bonamassa e Beth Hart, iniciada em 2011. Desde então, ambos vem estabelecendo uma simbiose musical que também não apresenta um único ponto baixo sequer. A química do novo disco reside principalmente na interação entre peso instrumental e sensibilidade de interpretação.

A produção do requisitado Kevin Shirley – que já trabalhou tanto com o Black Crowes quanto com o Iron Maiden – privilegiou a atmosfera retrô que emana do disco inteiro, mesmo nos momentos de sons mais robustos, como na faixa de abertura, a suingada “Give It Everything You Got” (de Edgar Winter), e na sequência com “Damn Your Eyes” (celebrizada pela Etta James), uma daquelas canções capazes de trazer lágrimas aos olhos tanto pela emocionante interpretação de Hart como pelas intervenções preciosas da guitarra de Bonamassa. O mesmo vale para as canções mais delicadas, como as lindas “Lullaby of the Leaves”, “Soul on Fire” e “Come Rain or Come Shine” (faixa-bônus da edição deluxe) –, e também nas mais sexies, como “Why Don’t You Do Right” (famosa na voz da antiga cantora de blues Lil Green) , “Joy”, “Baby, I Love You” (também uma bonus track) e o quase reggae “Addicted”.

As versões de “Saved”, da cantora de soul LaVern Baker, e “Sittin’ on Top of the World”, do bluesman Howlin’ Wolf são de deixar qualquer um de joelhos e com o esqueleto sacolejando como se preso em uma rede de alta tensão. Já a faixa-título – grande hit de Ike & Tina Turner – poderia facilmente ser o ponto alto de um álbum do Black Crowes – pode apostar que isso é um elogio e tanto dentro dos meus padrões -, já que Hart canta como se o mundo fosse acabar amanhã e ela decidisse deixar um legado para futuros alienígenas que viessem a pousar em um planeta desolado. Bonamassa teve tanta consciência disso que nem gravou qualquer solo nela. Ouça o disco inteiro abaixo:

 

Depois de tudo isso, fica a constatação que Bonamassa parece se divertir em mostrar a todos que seu auge como guitarrista/cantor parece não ter fim. Chega a ser ridículo presenciar o seu altíssimo padrão de qualidade sonora a cada trabalho que lança. Se você nunca ouviu falar dele, já passou da hora de tomar contato com a obra dele. Vá por mim…