John Weathers é um de meus bateristas favoritos

Por ser baterista, sempre tive um apreço acima do normal pela parte rítmica de todas as músicas que ouvi até hoje, não importando o gênero, o estilo ou até mesmo o grau de complexidade de cada uma delas. Consigo saborear com igual prazer tanto as absurdas viradas e conduções de Neil Peart nos álbuns do Rush como a simplicidade inacreditável com que o falecido Tommy Ramone conduzia as maravilhosas canções dos Ramones.

Por conta disto, tenho imenso apreço por bateristas que conseguem colocar a sua marca individual em qualquer coisa que toquem. Como o lendário Bill Brufford (ex-Yes, ex-King Crimson), por exemplo, cujo som de caixa é reconhecido até em outra galáxia – vou escrever em breve a respeito dele aqui no blog.

Aliás, pretendo escrever ocasionalmente a respeito desta turma de bateristas geniais por aqui por dois motivos: 1) ninguém está fazendo isto; 2) quero homenagear estes caras antes que morram. Tenho a pretensão de mostrar aos meus leitores o quão geniais são esses instrumentistas.

E vou começar a fazer isto hoje com um de meus bateristas favoritos, uma inacreditável fonte de suingue dentro do som absurdamente complexo de uma de minhas bandas prediletas em TODOS os tempos. Fisicamente, já nos anos 70, ele era tão feio e desengonçado que chegava a atingir níveis estratosféricos de comicidade nas apresentações ao vivo, mas que teve a grande sacada de colocar um estilo aparentemente simples – o grifo é meu, porque de simples aquilo não tinha nada – no meio de composições tão complicadas que até hoje fazem o Dream Theater soar como o AC/DC. Seu nome é John Weathers e a banda era o Gentle Giant.

A mudança que ocasionou um redirecionamento na vida do então adolescente feioso ocorreu quando ele foi morar com uma tia em Londres no início dos anos 60. A cidade estava mergulhada na onda do “Mersey beat”, um movimento de bandas de Liverpool que misturavam o então emergente rock and roll com r&bsoul e doo wop. O garoto, que já era um baterista iniciante, encontrou o cenário perfeito para oferecer seus serviços a quem quer que desejasse tocar em bares.

As coisas realmente ficaram sérias em 1966, quando Weathers e o seu grupo The Eyes of Blue ganharam um prêmio oferecido pela então renomada revista inglesa Melody Maker. Com um contrato na mão, eles gravaram um compacto duplo com as músicas “Heart Trouble” e “Up and Down” de um lado, e “Supermarket Full of Cans” e “Don’t Ask Me to Mend Your Broken Heart” do outro.

 

 

 

 

Como o disquinho não vendeu nada, resolveram mudar de gravadora e lançaram dois LPs – Crossroads of Time em 1968 e In Fields of Ardath no ano seguinte -, além de participarem como banda de apoio de um desconhecido cantor americano chamado Buzzy Linhart, cujos ótimos álbuns eu só descobri de uns anos para cá.

 

 

 

Vendo que as coisas não andavam bem para o seu lado, Weathers tentou se transformar em produtor, insistindo para que uma banda chamada Strawberry Dust fosse agenciada pelo produtor/empresário Lou Reizner, conhecido por ter dado forma ao primeiro disco de Rod Stewart e por ter arranjado um contrato com uma gravadora americana para David Bowie. Weathers trabalhou duro, produzindo e compondo seis canções para o álbum Women & Children First, mas foi enganado pelo trapaceiro Reizner, que não só mudou o nome da banda para Ancient Grease antes do lançamento, como também apagou o nome de Weathers dos créditos e assumiu a autoria da produção do disco. Detalhe curioso: Reizner foi o mesmo cara que produziu o terceiro álbum de Caetano Veloso, batizado com o nome do cantor e lançado em 1971, gravado em Londres quando ele estava no exílio. É aquele que contém “London, London” e “Maria Bethânia”, lembra?

Puto da vida, o batera ainda encontrou ânimo para lançar mais um disco com o The Eyes of Blue – sabe-se por quê, sob o pseudônimo de “Big Sleep” -, Bluebell Wood, mas foi vencido por mais um fracasso. Depois de ingressar e sair rapidamente do grupo Wild Turkey – do ex-baixista do Jethro Tull, Glenn Cornick, já falecido -, Weathers aceitou o convite para entrar no Graham Bond’s Magick, com quem gravou em 1971 o disco We Put Our Magick on You, e mais tarde foi para o The Grease Band.

 

 

Tudo mudou quando, em 1972, Weathers foi contratado para substituir temporariamente o batera do Gentle Giant, Malcolm Mortimore, que tinha se arrebentado em um acidente de moto, já que a banda tinha shows agendados e, em seguida, entraria em estúdio para gravar seu quarto álbum, Octopus. Impressionados com a potência com que ele socava a bateria e sua múltipla musicalidade – ele ainda tocava bem qualquer coisa em que pudesse batucar, de xilofone a instrumentos de percussão absurdos -, os caras do grupo resolveram efetivá-lo depois de algumas poucas apresentações pela Inglaterra.

 

Não foi à toa que a entrada do batera fez com que a banda entrasse em seu período mais criativo, mais roqueiro e, consequentemente, mais famoso. Seu estilo, mais duro e pesado do que se poderia esperar, ofereceu um contraponto esplêndido aos arranjos intrincados do grupo. Durante os anos seguintes, Weathers colocou seus potentes grooves a serviço de canções brilhantes em álbuns sublimes, como In a Glass House (1973), Free Hand (1975) e Interview (76).

 

 

 

Sua inquietação musical era tamanha que ele chegou a gravar em 1974 um disco com o grupo The Neutrons, Black Hole Star, durante os intervalos da gravação do genial – e meu álbum favorito do Gentle Giant -, The Power and the Glory.

 

 

O batera sequer amansou a sua energia quando a banda, erroneamente, tentou enveredar por um lado mais pop e radiofônico com os irregulares The Missing Piece (1977), Giant for a Day (1978) e Civilian (1979), uma decisão que acabou acarretando o fim da banda.

 

 

 

Depois que o Gentle Giant encerrou suas atividades em 1980, Weathers tornou-se integrante do grupo Man, com quem tocou até 1996, quando saiu iludido por uma fracassada tentativa de reviver o seu ex-grupo.  Ele chegou a abandonar a bateria em 2001 por conta de um problema de artrite nos pés, mas voltou a tocar em 2006 na nova formação do Wild Turkey, com quem chegou a gravar um disco, You & Me in the Jungle, naquele mesmo ano.

Hoje, Weathers mora no País de Gales e é um apaixonado ornitologista e, vez por outra, coloca seus serviços rítmicos à disposição para trilhas sonoras de programas de TV e para algumas bandas locais.

Veja e ouça abaixo porque este cara é um de meus bateras favoritos. Assista a cada um dos vídeos até o final. Você não vai se arrepender:

 

 

 

2018-12-03T12:33:45+00:00

3 Comments

  1. Luis Felipe Torres 3 de dezembro de 2018 at 15:31 - Reply

    Meu tio me mostrou essa banda e eu gostei muito, não sabia desses detalhes e vou ouvir outros discos agora!

  2. marcos 3 de dezembro de 2018 at 17:48 - Reply

    como bem disse o z1bi do mato hi jonh weathers.

  3. Ademar 3 de dezembro de 2018 at 20:06 - Reply

    Parabéns pela matéria, sou fã do GG e quando ouvi Time to Kill e Interview com suas entradas de bateria precisas e potentes, logo pensei “pô, esse baterista não é um qualquer”. E Bill Bruford é meu baterista predileto, realmente ninguém tem um estilo tão pessoal como ele, além de ser extremamente criativo. Sorte do King Crimson quando ele saiu do Yes. Aliás, ele deixa Allan White a quilômetros de distância, este um baterista pouco mais que mediano, na minha opinião.

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