Ele foi a face do mal da música eletrônica, no melhor e mais cortante sentido da expressão. Sua figura representava o perigo e a ameaça que a música pode proporcionar na ruptura de regras sociais estabelecidas por governos tão frágeis quanto autoritários. Quando as raves se tornaram uma febre quase incontrolável na Europa, a simbologia sonora de uma revolução que estava em seu estado embrionário era o som da banda em que era um dos vocalistas, mas foi o personagem exibido nos palcos e em clipes espetaculares e provocadores que deram a cara do que significavam aqueles tempos. Durante alguns anos, Keith Flint, seu parceiro de microfone Maxim e o real comandante musical, o multiinstrumentista Liam Howlet, transformaram o Prodigy em uma arma letal.

Ora parecendo um cientista maluco, ora representando a demoníaca e insana face da juventude europeia entupida de ecstasy, ora encarnando tudo isso ao mesmo tempo, Flint acabou preso dentro da própria imagem que criou. Governado pelo tsunami de cocaína, álcool e mais um monte de tralhas que só fazem mal ao corpo e a mente, era um ricaço que interpretava na vida real a doideira que exalava em cima dos palcos.

A trama que poderia ser montada para ilustrar a meteórica ascensão do Prodigy a partir do estouro de Fat of the the Land em 1997 seria apenas uma desculpa para mostrar como a engrenagem do show business põe em um moedor de carne tudo o que se destaca em um determinado momento da música pop como movimento cultural e social. Algum escritor no futuro ainda vai colocar no papel a real dimensão que a música eletrônica exerceu em pelo menos duas gerações.

Flint foi capturado pela adulação entupida de “balinhas” e “pó”. Seu cérebro e, principalmente, sua alma passaram anos destruídos, sem responder a qualquer sopro de algum vento fresco de sanidade. Dizem que sua mulher, uma modelo japonesa, foi a responsável por tirá-lo de um verdadeiro inferno e trazê-lo para uma vida saudável no campo.

Ainda não temos a tecnologia necessária para lidar com uma cultura pop cada vez mais bunda mole, submetida a uma correção política que chega às raias da insanidade. Flint ascendeu a um mundo rodeado de (muito) sexo, (muitas) drogas e (muito) álcool e terminou cercado por uma realidade de patrulhamento contra tudo o que viveu. Mesmo que realmente andasse limpo antes de cometer o suicídio, como afirmam todas as pessoas próximas, Flint seria tudo, menos dono de uma loja de artigos orgânicos.

Não dá para fazer piadas a respeito de quem perde a batalha contra a depressão. Alguns tabloides ingleses afirmam que Flint deu fim à própria vida deprimido com o divórcio tumultuadíssimo da japa que salvou sua vida e pelo fato de ter que vender sua adorada e cara residência de campo em Essex, no interior da Inglaterra, para pagar dívidas da separação. Aos 49 anos, ele não encontrou forças para lutar contra essas perdas.

Esse talvez seja um dos motivos pelos quais Fat of the Land ainda é hoje é um de meus discos favoritos em todos os gêneros. Não demora menos que alguns segundos para que seus órgãos sejam chacoalhados e nunca mais voltem ao lugar. Era o que o mundo precisava na época. É o que mundo precisa hoje.