Queria ter feito uma homenagem a ele ainda envida. Não foi possível. Queria ter retribuído a ele e a tantos outros músicos que me ajudaram a entender mais profundamente tudo o que representou a sonoridade da Jovem Guarda para a alma roqueira do Brasil, que mostraram para o país afora que tínhamos excelentes instrumentistas no meio daquele mercado consumidor histérico da década de 60. Seja qual for a lista contendo os melhores músicos da história do Brasil como nação sonora, certamente vamos encontrar o nome de Lafayette nela.

Ele era um daqueles instrumentistas que não traziam aquela típica exuberância carioca – e ele nasceu no Rio – e nem o virtuosismo racional dos paulistas em sua maneira de tocar. Havia algo no som dele que se insinuava por esses dois universos distintos como uma serpente escorregadia, espalhando harmonias e melodias com ritmos que caíam perfeitamente naquilo que cada música necessitava. Uma sutil e maravilhosa abordagem de seu órgão Hammond B3 que se transformou na sonoridade-símbolo da Jovem Guarda.

A amizade com Roberto e Erasmo Carlos desde que eram adolescentes metidos a rebeldes fez com que este último o chamasse para tocar em um de seus discos nos tempos em que estava na RGE. Ao descobrir um órgão encostado no estúdio e coberto com uma capa para não pegar poeira, Lafayette sentou, tocou e nunca mais parou. Gravou com Erasmo, Roberto e mais centenas de artistas diferentes, sempre tendo à frente seu Hammond B3 e com um estilo completamente diferente de outros tecladistas brasileiros da época, como Ed Lincoln e Eumir Deodato. Seu som era inconfundível:

 

De 1966 em diante, passou a gravar seus próprios discos instrumentais, na linha “Lafayette Apresenta os Sucessos”, Foram mais trinta LPs pela CBS – alguns disputados a tapa por colecionadores europeus e japoneses -, onde ficou até a década de 80.

O período em que passou no ostracismo foi um crime imperdoável por conta da classe artística esnobe. Foi preciso que uma nova geração de músicos – encabeçada pelo talentoso e incansável Gabriel Thomaz, do não menos ótimo grupo Autoramas, que o (re)descobriu em 2004 tocando em na praça de alimentação de um shopping para ouvidos indignos de sua exuberante musicalidade  – resgatasse o tecladista desse limbo odioso e propiciasse a ele o reconhecimento merecido com um novo grupo, Os Tremendões, com quem Lafayette gravou dois divertidos discos, As 15 Super Quentes de Lafayette e os Tremendões (2009) e a A Nova Guarda de Lafayette & os Tremendões (2015, só músicas novinhas).

Lafayette morreu na madrugada da quarta-feira passada, aos 78 anos, vitimado pela pneumonia que tanto sofrimento lhe causou nos últimos anos, juntamente com uma insuficiência renal. Que sua alma encontre a paz de quem sabe que conseguiu cumprir a sua missão…