Larry Williams foi genial e “barra pesada” ao mesmo tempo

Ninguém ficou surpreso quando descobriram o corpo dele no meio de uma poça de sangue no chão da garagem de sua casa na mítica Laurel Canyon, em Los Angeles, no início de janeiro de 1980. Para quem o conheceu e, principalmente, conviveu com ele durante as duas décadas anteriores, mais cedo ou mais tarde Larry Williams iria acabar desse jeito. Para a polícia, foi suicídio e fim de papo. Para os amigos, alguém se cansou da quantidade de merda que ele fazia com todos à sua volta.

Foi uma pena que a carreira e a vida de um dos grandes cantores da história da música tenha terminado daquele jeito. A obra musical que ele deixou pode ser comprovada pela série de hits que emplacou nos anos 50. “Bony Moronie”, “Slow Down” e “Dizzy Miss Lizzy” foram regravadas por gente tão díspar e igualmente genial como os Beatles – John Lennon era fanático por ele -, Rolling Stones, The Who e Johnny Winter, entre tantos outros.

 

 

 

Talento ele tinha aos montes, mas jamais alcançou a fama, fortuna e reconhecimento de seus pares que, assim como ele, ajudaram a criar um negócio chamado “rock and roll”. Talvez porque desde o início de sua carreira ele tenha se mostrado um dos sujeitos mais “barra pesada” da história do show business. Havia uma escuridão nos olhos e na alma de Williams que jamais se apagou, mesmo quando ele esbanjava dinheiro em cocaína, mulheres de caráter igualmente duvidoso e ele mesmo exercendo uma cafetinagem incrivelmente violenta.

Não importava quem estivesse ao seu lado naqueles shows que o lendário DJ Alan Freed organizava na segunda metade dos anos 50 com um monte de artistas – Buddy Holly, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Screamin’ Jay Hawkins e mais dezenas de outros grupos – em turnês itinerantes por todos os Estados Unidos. Williams roubava as atenções dos eventos com uma performance simplesmente hipnotizante de tão elétrica. Quem o viu no final da adolescência, trabalhando em New Orleans como motorista do já famoso Fats Domino e tentando seguir os passos do primo Lloyd Price – que já tinha emplacado um hit nas paradas de sucesso da época, “Lawdy Miss Clawdy”, que chegou a ser regravada por Elvis Presley – não poderia imaginar que ele se tornaria uma figura tão carismática e cativante em cima de um palco.

Talvez tenha sido o ambiente absolutamente decadente, promíscuo e corrupto que imperava na cidade e no Estado da Lousiana naqueles tempos o responsável por moldar o caráter de Williams fora dos palcos. O próprio governador Earl Long tinha um caso público e notório com uma stripper chamada Blaze Starr – que virou até um filme em 1989, Blaze, estrelado por Paul Newman -, um escândalo inacreditável para os padrões daqueles tempos.

Nos anos 60, Williams estabeleceu uma parceria com o não menos maluco Johnny “Guitar” Watson, embora tenham lançado apenas dois álbuns durante a década, The Larry Williams Show Featuring Johnny “Guitar” Watson (1965) e Two for the Price of One (1967):

 

 

 

 

Com uma discografia pequena e não muito afeito a fazer shows, Williams viveu a década seguinte inteira torrando uma grana inacreditável em drogas, putarias, carrões de luxo, casacos de peles. Traficante da pesada que consumia seus próprios “produtos”, Williams passou também a amedrontar quem estivesse à sua volta com uma dupla personalidade que jamais avisava quando mudava. Ele poderia se transformar do mais gentil amigo para um aterrorizante gangster armado em um piscar de olhos.

No final da vida, afundado em dívidas, deprimido pelo fracasso de sua carreira e completamente paranóico com os amigos, Williams não tinha mais o que fazer em termos artísticos. Muita gente garante que seu antigo parceiro Watson foi uma das testemunhas de seu momento final, seja lá o que quer que tenha realmente acontecido.

Se você assistir ao filme Boogie Nights, de 1998, dirigido por Paul Thomas Anderson e estrelado por Mark Wahlberg, Julianne Moore e Burt Reynolds, preste atenção ao personagem chamado Jefferson, um traficante paranoico e maluco interpretado por Alfred Molina. Não tenha dúvida: é uma ‘homenagem’ do diretor a Larry Williams.

Hoje só nos resta ouvir suas incríveis canções e pensar como ele teria se tornado um grande artista. Infelizmente, seus demônios internos venceram…

 

2019-01-10T13:58:43+00:00

8 Comments

  1. Ivan Souza de Abreu 10 de janeiro de 2019 at 14:11 - Reply

    Muito bom texto. Conheço pouco sobre o artista e irei pesquisar mais a seu respeito.
    E particularmente fiquei impressionado com “For Your Love” que você postou no corpo do texto. Bem à frente do seu tempo. Realmente ele era um cara extremamente talentoso.

    • Regis Tadeu 10 de janeiro de 2019 at 14:56 - Reply

      Obrigado pelo elogio, Ivan. Vale a pena ouvir a discografia dele.

  2. Sandro Rafael da Silva 10 de janeiro de 2019 at 17:43 - Reply

    Esses rappers de hoje se acham gangsters… perto de gente como Larry Williams, Ike Turner e Jerry Lee Lewis esses caras são bebês. Belo texto, Régis.

    • Regis Tadeu 10 de janeiro de 2019 at 19:00 - Reply

      É verdade, Sandro. E grato pelo elogio.

  3. Cleber Rozolen 10 de janeiro de 2019 at 19:45 - Reply

    For your love ganhou versao dos Yardbirds. Parabens pelo texto, mais um artista q descubro gracas a vc. Obrigado.

    • Regis Tadeu 10 de janeiro de 2019 at 23:24 - Reply

      Valeu!

  4. Myke 16 de janeiro de 2019 at 15:06 - Reply

    Ótimo artigo. Você citou um cara interessante que é o Screamin’ Jay Hawkins, você poderia fazer um artigo sobre ele futuramente? Outro cara que merece um artigo é o Gil Scott-Heron.

    • Regis Tadeu 16 de janeiro de 2019 at 23:31 - Reply

      Concordo. Vou pensar nisso….

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