Lee Kerslake está morrendo. Triste e dolorida realidade. Seu câncer de próstata deu metástase – está se espalhando para outros órgãos e até para os seus ossos – e também tem psoríase, artrite psoriásica e dois “sopros cardíacos”, o que lhe dá alguns meses de vida. Assim dizem os médicos que o atendem. Falido e desenganado pela medicina, ele luta em uma batalha que já está perdida e sabe disso. Vai ser assim até o fim.

Por que escrevo isso? Você não faria essa pergunta se soubesse quem é Lee Kerslake. Para o velho roqueiro que ainda habita o corpo e a alma do tio aqui, ele foi o baterista de uma de minhas bandas mais queridas na adolescência, o subestimadíssimo Uriah Heep, e foi aquele que deu um contorno rítmico mais consistente aos dois primeiros – e antológicos – álbuns da carreira solo de Ozzy Osbourne, Blizzard of Ozz (1980) e Diary of a Madman (1981). Com Kerslake, aprendi como um baterista pode tocar de maneira pesada e sutil ao mesmo tempo dentro do universo do rock.

Em 1972, eu era apenas um garoto que estava iniciando meu mergulho dentro das águas profundas do rock, mas já conhecia o som do Uriah Heep por conta do irmão mais velho de um amigo da vizinhança, que me mostrava os discos que importados que comprava. Já sacava que a banda soava diferente de tudo o que eu conhecia até então por causa de seus três primeiros álbuns e suas capas maravilhosas: o cadáver envolvido em teias de aranha em …Very ‘Eavy, Very ‘Umble (1970), o tanque de guerra envolto em napalm em Salisbury (1971) e o espelho em Look at Yourself (também de 1971).

Só que tomei um susto quando vi a edição importada do disco de 1972, Demons and Wizards. Logo de cara, pela capa espetacular, que trazia um desenho de um feiticeiro no meio de uma cachoeira, que logo identifiquei o autor, o mesmo que fazia as capas do Yes, o artista gráfico Roger Dean. Um espanto ainda maior veio quando ouvi o disco: tudo soava mais alto, cristalino e pesado. Eu, que já era fascinado pela bateria, fiquei de queixo caído com o que havia feito o novo integrante. Seu nome? Lee Kerslake.

 

Em uma época em que internet era coisa de ficção científica e revista de música era mais difícil de encontrar que um elefante albino, eu não tinha a menor ideia de quem era Kerslake – muitos anos depois descobri que ele havia tocado com o líder do Uriah Heep, o tecladista/guitarrista/vocalista Ken Hensley, em todas as bandas anteriores dele -, mas saquei que foi ele quem deu uma encorpada no som do grupo. Suas levadas pesadas e sutis ao mesmo tempo viraram meu cérebro de cabeça para baixo. Seu shuffle esquisitíssimo em “Easy Livin’”, impossível de copiar, e seus grooves potentes em “Circle of Hands”, “Traveller in Time”, “Rainbow Demon”, “Poet’s Justice” e até mesmo na espetacular balada “The Wizard” contaminaram a cabeça de um menino já fascinado por John Bonham, Ian Paice e Bill Ward.

 

 

 

 

 

 

O disco marcou tanto a minha vida – passei fome na escola, mas juntei toda a graninha que minha mãe me dava para comprar lanches e comprei o LP importado – que até hoje me pego em lágrimas toda vez que ele volta ao meu toca-discos. Dele em diante, nunca mais deixei de adquirir a discografia da banda. A cada disco lançado – The Magician’s Birthday (1972), Sweet Freedom (1973) e Wonderworld (1974) – lá estava Kerslake e seu estilo inconfundível, formando com o estupendo baixista Gary Thain uma “cozinha rítmica” que por si só era uma aula de interação entre baixo e bateria. Junto com o igualmente extraordinário guitarrista Mick Box, era um troço mortal de tão bom:

 

 

 

 

 

O duplo Live, de 1973, com seu livreto interno espetacular, com fotos autografadas de cada integrante, é até hoje um dos meus discos ao vivo favoritos em todos os tempos e em todos os gêneros.

 

 

Quando Thain morreu em consequência de um choque tomado em cima do palco, Kerslake superou a perda do amigo formando outra “cozinha” com o não menos cultuado John Wetton (ex-King Crimson), gravando dois ótimos discos: Return to Fantasy (1975) e um de meus favoritos, High and Mighty (1976).

 

 

Foi então que Kerslake, em 1980 e no ano seguinte, ajudou Ozzy a formatar sua carreira, gravando com ele os dois discos que você já conhece e excursionando, sendo descartado no ano seguinte para os shows por conta de seu compromisso com o Uriah Heep, com quem vinha gravando álbuns cada vez mais “radiofônicos”: Firefly e Innocent Victim (1977, já com o ex-vocalista do Lucifer’s Friends, John Lawton) e Fallen Angel (1978).

 

 

 

 

Continuou nessa toada até 1998, quando teve que sair da banda para enfrentar Ozzy e Sharon Osbourne na justiça – ele e o baixista Bob Daisley reclamaram royalties e créditos de composição pelas contribuições de ambos nos citados álbuns de Ozzy.  Foi vítima de uma das maiores sacanagens que já vi acontecer no show business: os dois discos foram relançados e as partes de bateria e baixo foram apagadas e substituídas por outras, regravadas respectivamente por Mike Bordin (do Faith No More) e Robert Trujillo (hoje no Metallica), que na época faziam parte da banda de Ozzy. No final do processo, perdeu a causa, teve que vender sua própria casa para pagar a dívida das custas do processo que chegou a centenas de milhares de dólares, e quebrou, faliu. Não tenho dúvida que foi isso que desencadeou suas terríveis doenças.

Ele está programando um disco solo, Eleventeen, e um documentário a respeito de sua carreira para o ano que vem. Não acredito que tenha tempo de assistir ao lançamento de ambos. Se conseguir, será um milagre da medicina. Uma de suas últimas aparições foi justamente este ano, ao lado de sua ex-banda:

 

Torço por um milagre e que ele ainda consiga viver por muitos anos. De qualquer forma, minha homenagem – em vida! – está aqui.