Não conheço a história pregressa de Marcelo Yuka como baterista antes do surgimento do Rappa. Sei por conta do amigo Sergio Martins, da Veja, que ele tinha uma boa banda de reggae – o que eu sinceramente duvido – chamada KMD5, cujo som era eclético o suficiente para fazer um amálgama que ia da vertente roots até o Ilê Ayê, o mais antigo bloco afro do carnaval de Salvador, e que depois montou outra chamada Conexão Xangô. De minha parte, tomei conhecimento de Yuka exatamente quando o Rappa surgiu, muito menos pelo som e mais pelas letras, que eram muito acima da média na metade dos anos 90.

Sua demissão em 2001, quase um ano depois da saraivada de tiros que tomou durante uma tentativa de fuga de assalto – e não por defender uma garota que estava sendo roubada, um boato que se transformou em lenda urbana e foi desmentido por ele mesmo em várias entrevistas – até hoje é uma história muito nebulosa, mas arrisco a dizer que há nela fortes elementos de ganância, desrespeito, ruptura de amizades e distribuição de grana de direitos autorais. Isso não importa mais. Yuka morreu sexta passada.

Muito mais que ter sido o principal compositor do grupo e um engajado ativista muito antes de o cenário político brasileiro ter se transformado em um patético Gre-Nal, Yuka tem que ser lembrado pelo pensamento lúcido e pela coragem de emitir suas opiniões, muitas delas ofensivas para quem tem a capacidade cerebral de uma lesma do mar.

O fato de estar preso a uma cadeira de rodas nunca foi um obstáculo intransponível para que reconstruísse sua vida. Continuou a compor e fazer shows com seu novo grupo, F.Ur.To e, principalmente, a se indignar com aquilo que considerava “uma nova onda de fascismo” invadindo nosso cotidiano como um tsunami de violência e ódio contra a liberdade de pensamento.

Embora nunca tenha curtido o som do Rappa com sequer 1% do entusiasmo messiânico de seus fãs, algumas canções realmente me tocaram muito mais pela profundidade do pensamento poético das letras de Yuka. Não dá para passar em branco depois de ouvir canções como “Minha Alma (a Paz que Eu Não Quero)”, “Me Deixa”, “O Que Sobrou do Céu”, “Pescador de Ilusões”, “Tribunal de Rua”, “Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro” e “Cristo e Oxalá”.

 

 

 

 

 

 

 

Foram essas canções que, ao lado de outras extraídas de discos hoje considerados fundamentais para a história da música brasileira – como Sobrevivendo no Inferno (1997), dos Racionais, e Da Lama ao Caos (1994), do Nação Zumbi -, formaram uma forte linha de resistência contra a ditadura imposta pela massificação midiática do pagode, sertanejo e axé music. Mesmo o Rappa tem em seu álbum Lado B Lado A (1999), totalmente comandado pelas ideias musicais e poéticas de Yuka, um poderoso aliado que poderia figurar em tal “trincheira cultural”, na qual não havia espaço para o romantismo babaca e acéfalo daqueles tempos.

 

Assim como acontece em meu cotidiano, pouco me importa a tendência política de alguém. O que me interessa são suas ideias e sua capacidade de argumentação. E Yuka sempre foi uma figura fascinante justamente por essas duas qualidades, sem jamais deixar que seu explícito ativismo fosse desviado do caminho em prol da arte como guerrilha contra a estupidez. Vou lembrar dele dessa forma.

Assista abaixo o documentário No Caminho das Setas, dirigido por Daniela Broitman, e tente não se emocionar…