Em qualquer lugar no mundo civilizado que não está às voltas com um retrocesso a um passado medieval, as livrarias formam um centro de distribuição de cultura, assim como os sebos especializados. Nas grandes capitais e cidades, são centros de inteligência no que se refere ao convívio social, onde se respira letras, palavras, frases, capítulos e obras capazes de transformar nossas vidas para melhor.

Em tudo lugar é assim, menos no Brasil. Como sempre, estamos na liderança de tudo o que é ruim para o desenvolvimento do ser humano enquanto animal pensante. A cada dia, leitores vorazes de livros são tratados como alienígenas dentro de uma manada social cada vez mais retardada e pouco afeita à compreensão de textos e até mesmo conversas. As recentes manifestações de ódio no período eleitoral só demonstraram que raciocínio é uma característica cada vez mais rara em nossa sociedade.

Eu, como leitor viciado em livros, revistas e o que mais puder ser lido e absorvido pelo meu cérebro cada vez mais pulsante em detrimento ao meu envelhecimento físico, me sinto muito entristecido ao ver grandes livrarias no Brasil fecharem as portas ou praticamente decretarem falência. O encerramento das atividades da FNAC, o fechamento da maioria das lojas da Saraiva e o pedido de recuperação judicial feito pela Livraria Cultura – que tempos atrás comprou a própria FNAC para fechá-la quase que imediatamente – só demonstram que todas elas, incluindo as editoras, estão em apuros financeiros que não vão ser solucionados. As dívidas acumuladas são de várias centenas de milhões de reais, as livrarias não pagam seus fornecedores, as editoras se desesperam, ninguém paga ninguém e assim a coisa toda escoa pelo ralo do fracasso.

O mercado editorial está em crise por uma série de fatores, dentre os quais os desafios econômicos em um País que joga contra o empreendedorismo o tempo todo com impostos altíssimos e as operações de mercado completamente equivocadas, mas o principal, para mim, é o total desinteresse que o brasileiro demonstra em adquirir cultura em tempos de xingamentos e futilidades disseminadas pelas redes sociais. Isso propiciou uma drástica mudança na dinâmica do varejo.

Ninguém mais se interessa por biografias, biografados, pesquisadores e pela História em si. Tentar convencer um adolescente a ler algo que não sejam suas mensagens de “zap zap” é o mesmo que pedir a um monge budista do Nepal que participe de uma suruba. Nas redações de jornais e revistas voltadas ao meio artístico, por exemplo, uma entrevista é conduzida de tal maneira a não dificultar o pensamento do leitor médio, cuja capacidade de compreensão é a mesma de um jumento. A imensa maioria dos brasileiros não consegue entender o significado de qualquer parágrafo que tenha mais que três frases.  Com isso, a garantia de qualquer sinal de vida inteligente é simplesmente pulverizada…

O pior é que não dá mais para iniciar uma cruzada contra o emburrecimento coletivo. De minha parte, eu continuo na batalha, mas sei que a guerra está perdida…