Ele ajudou a espalhar um dos mais terríveis legados que se tem notícia: o “roqueiro sensível”, aquele ser completamente insípido que gosta de guitarras distorcidas e baladas medíocres com a mesmíssima intensidade, um biotipo que a mulherada compra com a mesma rapidez com que troca seus absorventes íntimos. Além disso, popularizou uma irritante maneira de cantar, cheia de maneirismos, falsetes e agudos indesejáveis, que acabou criando um padrão de referência para calouros e participantes dos “The Voices da vida”. Basta lembrar de abominações como “Oh Sherrie” e “Open Arms” para se ter a dimensão desse tipo de desgraça disseminada por Steve Perry, ex-vocalista do Journey.

 

A tal história de sua pretensa ‘aposentadoria’ todo mundo conhece: vinte anos atrás, exausto, doente e de saco cheio de seus colegas de banda, Perry virou as costas para o sucesso mundial da banda e simplesmente abandonou qualquer contato com o show business.

Claro que as pessoas de pouquíssima memória – 99,9% da população mundial – caíram no conto do ‘coitadismo’ de Perry, como se ele fosse vítima da engrenagem da indústria fonográfica da época. Ninguém pensa que tudo teria sido diferente se ele tivesse alcançado boas vendagens com a sua desejada – e fracassada – carreira solo, que rendeu dois discos pavorosos, Street Talk (1984) e For the Love of Strange Medicine (1994). Como a empreitada não deu em nada, o cara aceitou gravar um “disco de volta ao grupo”, o medíocre Trial by Fire (1998), mas dizendo-se pressionado pelos integrantes do grupo e empresários a fazer uma turnê quando preferia ser submetido uma cirurgia nos quadris para corrigir uma queda de bicicleta, Perry deu adeus a tudo e tratou de se isolar. Uma boa assessoria de imprensa, em parceria com jornalistas loucos para criar uma boa história, abraçaram a farsa.

Mantendo-se ‘recluso’, Perry alimentou diversas lendas urbanas. De vez em quando aparecia nos telões em jogos de baseball fazendo micagens enquanto a insuportável “Don’t Stop Believin’” era tocada nos alto-falantes dos estádios:

 

Voltou a surgir perante os holofotes da mídia em 2014 quando se autoconvidou para participar de um show do bom grupo Eels, que obviamente não recusou tal tipo de publicidade. Ao justificar o retorno depois de tantos anos por conta de uma promessa feita a uma mulher amada que acabou morrendo de câncer em 2012, Perry acabou criando uma grande expectativa em relação ao disco que marcaria tal retorno. E ela é absolutamente frustrante: Traces é um lixo vergonhoso.

Cada canção é envolta em uma espécie de “dramalhão sônico”, em que a nostalgia tem o mesmo efeito de um espeto de churrasco sendo enfiado nas orelhas do ouvinte. A música de abertura – e escolhida para ser o primeiro single – “No Erasin’” é um troço abominável que não entraria sequer em qualquer álbum de sua ex-banda. Ao lado da péssima “Sun Shines Gray”, é uma tentativa tão absurda de Perry em se mostra um “roqueiro épico” que faz o Bon Jovi soar como o Testament.

 

Se em uma canção tão insípida quanto irrelevante para os ouvidos como “We’re Still Here” ele canta como um Sting gripado, nas baladas “Most of All”, e “In the Rain” Perry tenta transmitir algum tipo de emoção, mas só consegue induzir ao sono ou, no máximo, uma ida ao banheiro antes de um cochilo. Já “You Belong to Me” e “I Need You” são daquelas ‘melações’ que logo estarão na trilha sonora de algum filme ‘água-com-açúcar’, enquanto que “We Fly” tem destino certo como tema de um desenho da Disney.

 

O clima nostálgico pontuado por um órgão Hammond em “No More Cryin’” e “Easy to Love” poderia ter sido um dos raros bons momentos do álbum se não fosse embalado por letras pieguíssimas e uma interpretação vocal de Perry que regurgitou todos os cacoetes terríveis de sensibilidade que ele tinha no passado, como se fosse um boneco de cera que repentinamente ganhou vida.

 

Você pode dizer “pô, mas Perry fez o que se esperava dele”. Sim, concordo com relação à sonoridade, mas mesmo para quem está com quase 70 anos de idade, com a voz intacta e quase os mesmos timbres – sem aqueles agudos insuportáveis em seus tempos de Journey -, ele poderia ter entregado um álbum com canções melhores e arranjos não tão previsíveis e preguiçosos.