Poucos sons definiram tão bem a alta qualidade musical dos anos 80 como Talk Talk. Com tantas canções lindas e partindo de uma sonoridade synth pop muito acima da media, o grupo chegou a uma espécie de pós-rock introspectivo, dotado de um experimentalismo quase minimalista, por intermédio de uma trajetória confusa e misteriosa. Afinal de contas, não havia um “grupo” propriamente dito e sim um único mentor: Mark Hollis.

Pouco se sabia a respeito dele quando foi lançado em 1982 The Party’s Over, o primeiro álbum do então quarteto que tinha ainda o baixista Paul Webb, o baterista Lee Harris e o tecladista Simon Brenner. Sua voz estranha e anasalada caiu como uma luva em canções que grudavam nos ouvidos como um chiclete de piche:

 

 

Tudo ficou ainda melhor com o estouro do segundo álbum em 1984, o excelente It’s My Life, puxado pelo esquisito e belo clipe da faixa-título – que acabou levando a música para as rádios de todo o planeta – e com canções que eram de chorar de tão boas:

 

 

 

 

Quando lançaram o plácido The Colour of Spring em 1986, já dava para sacar que algo está mudando. Sua parceria com o compositor/produtor Tim Friese-Greene, um antigo colaborador de outro astro sumido, Thomas Dolby, o levou a construir as canções de um modo diferente, mais introspectivo e “orgânico em relação aos trabalhos anteriores, com canções igualmente belas:

 

 

 

Foi então que Hollis passou a envolver seu trabalho em um grande mistério. No final da década, tudo já soava diferente no álbum Spirit of Eden, de 1988, e se tornou ainda mais enigmático três anos depois, quando saiu Laughing Stock. Os discos começaram a soar como quebra-cabeças musicais, nos quais cada composição era meticulosamente construída, todas com uma carga emocional desconfortável e quase silenciosa, como se cada nota tocada de maneira esparsa tivesse uma abrasividade hipnótica.

 

 

Um engenheiro de som que trabalhou no Spirit of Eden relatou que trabalhar com ele era uma doideira muito grande. O estúdio ficava sempre às escuras, com estranhas imagens sendo projetadas nas paredes por intermédio de um projetor de óleo, luzes estroboscópicas piscando em intervalos irregulares e cinco gravadores de 24 pistas interligados. Hollis quase não conversava com os músicos. Tudo isso em períodos diários de doze horas durante oito meses, que resultaram em seis canções totalmente anticomerciais, que levaram o pessoal da gravadora EMI ao desespero, a ponto de terem rescindido o contrato com ele.

As vendas foram pífias na época, mas ambos os discos se tornaram peças fundamentais na cabeça de muitos músicos da nova geração. Pergunte a respeito disso para Bon Iver e para o pessoal do Arcade Fire, Death Cab for Cutie, Tortoise e do Elbow. Não tenha dúvida: Hollis e o Tal Talk foram a inspiração perfeita para a guinada radical que o Radiohead deu antes de soltar o clássico OK Computer.
Hollis sempre um “antiastro”. Não fazia turnês, seus shows eram agendados de modo absurdamente esparso em termos de datas. Chegou a processor sua ex-gravadora quando foi lançado em 1991 o álbum de remixes History Revisited. Reapareceu timidamente sete anos depois para lançar um autointitulado disco solo e depois desapareceu do meio musical. De lá para cá, nenhuma notícia. Como se tivessem selado um pacto de silêncio, músicos que tocaram com Hollis também desapareceram dos holofotes da mídia.

O ex-tecladista do Depeche Mode, Alan Wilder, é tão fanático pelo som do grupo que organizou e lançou em 2012 um tributo, Spirit of Talk Talk, com a participação de gente tão díspar quanto os grupos White Lies, Zero 7 e a própria banda de Wilder, o Recoil, ao lado do grande astro do reggae Linton Kwesi Johnson e do incensado Duncan Sheik.

 

 

Depois de décadas praticamente sumido do planeta, surgiu a notícia que Hollis morreu na segunda-feira passada, aos 64 anos. Para muitos, foi um exemplo de artista que não ficou de joelhos para o conformismo e a zona de conforto que assolava a maioria de seus colegas. Não havia espaço para qualquer concessão comercial em sua carreira. Foi um idealista no meio de um monte de gente mais preocupada em ganhar dinheiro fácil. Que agora descanse em paz…