Confesso que nunca tinha ouvido esse disco até que o incansável Charles Gavin o recuperou de uma zona de trevas da música brasileira em 2001. Foi relançado em CD, com som caprichado, e me deixou de queixo caído. Como pude “passar batido” por um disco tão absurdamente sensacional como esse Som, Sangue e Raça? O fato de o LP original ainda hoje ser um item raríssimo para qualquer colecionador sério é uma boa desculpa para o meu desconhecimento. Não tive a menor dúvida em incluir essa preciosidade em um vídeo lá em meu Canal no YouTube, justamente quando o tema foi o VERDADEIRO funk brasileiro – você pode assistir aqui .

Não foi à toa que pianista paulista Salvador Silva Filho recebeu o título de “Dom”. De suas teclas emanava uma aristocracia tão sublime que mal pude acreditar quando ouvi o amálgama de funk, jazz, bossa nova, samba e até rhythm & blues do álbum em questão. A malemolência funk não era necessariamente uma novidade, já que Tim Maia já tinha estourado com seus dois primeiros e autointitulados álbuns, mas o que se ouve aqui beira o inacreditável.

A começar pela própria Banda Abolição, um noneto de craques: do saxofonista Oberdan Magalhães ao baterista Luiz Carlos “Batera” (ambos, mais tarde, formaram a lendária Banda Black Rio), do extraordinário baixista Rubão Sabino ao trompetista Darcy – que na gravação substituiu o então titular Barrosinho, que não conseguiu comparecer no estúdio por estar momentaneamente excursionando com outro artista e também seria integrante da Black Rio -, tudo comandado pelo próprio Dom Salvador e seu piano elétrico, acostumado a liderar desde os tempos de seu Copa Trio, ao lado do baixista Gusmão e do lendário baterista Dom Um Romão, e do Rio 65 Trio, no qual dividia a atenção com o mitológico Edison Machado na bateria.

Algumas músicas espetaculares – “Uma Vida”, “O Rio”, “Guanabara”, “Moeda, Reza e Cor”, “Tio Macrô” e a faixa-título – ainda hoje soam como se Stevie Wonder e James Brown passassem um bom tempo no Brasil fazendo um som com músicos brasucas. E tenho certeza que ambos ficariam chapados ao ouvir pepitas do samba-rock como o quase baião “Hei! Você”, “Number One”, “Samba do Malandrinho”. Isso sem contar o engajamento racial maravilhosamente bem arranjado de “Evo”, a subversão do choro tradicional em “Tema Pro Gaguinho” e o divertido e suingado regionalismo de “Folia de Reis”.

Depois desse disco, Salvador e sua turma se tornaram por um tempo a banda de apoio de Elis Regina e do (ainda) Jorge Bem, influenciando os dois de uma maneira inquestionável.

Não se sabe em que mês de 1971 Som, Sangue e Raça foi lançado. Não importa. Meio século depois, o disco ainda mantém o poder de nos deixar embasbacados. Comprove isso ouvindo abaixo o álbum na íntegra: