Confesso que fazia muito tempo que eu o ouvi pela última vez. Nem lembro quando foi. É tanta coisa para ouvir – “nova” ou “velha” – que muitas vezes passo anos sem ouvir determinados discos. Tem um lado positivo nisso: aquele frescor revigorante de tomar contato novamente com uma obra-prima em um contexto diferente de maturidade.

Um grande amigo meu, quase um irmão, Boris Grilo, me alertou: “porra, não vá esquecer que o Blue vai fazer 50 anos de seu lançamento esta semana”. Caramba, é verdade. 1971 foi um ano tão sensacional em termos de discos e eu nem sequer escrevi a respeito da maioria deles. Tinha esquecido do quarto disco de estúdio de uma de minhas cantoras favoritas, Joni Mitchell. Memória de velho é um troço traiçoeiro…

Acabei de reouvir o disco antes de começar a escrever este texto. Senti o mesmíssimo deleite que tive quando o ouvi pela primeira vez, sei lá quando, provavelmente muitos anos depois de seu lançamento original em 1971.

Ela teve coragem suficiente não para compor todas as canções, mas para produzir o disco inteiro. Principalmente para uma canadense na Califórnia, tão jovem – nem tinha completado trinta anos de idade – e já considerada uma veterana no meio artístico, tendo estourado com a clássica canção “Woodstock”.

Na época, a cabeça dela em termos emocionais deveria estar uma loucura: tinha acabado de se separar de Graham Nash e já estava enrolada com o problemático – e já viciadaço em heroína – James Taylor. Essa confusão aparece bem nas letras do álbum, principalmente nas belíssimas “A Case of You”, a faixa-título, “All I Want” (reparou que ela tem uma batida rítmica próxima ao samba?) e “This Flight Tonight” – esta última conheci primeiro com a ótima versão que o Nazareth incluiu no subestimado Loud ‘n’ Proud (1973).

 

 

 

 

 

Havia insegurança sentimental rondando o disco todo. Violões com afinações malucas, harmonias inesperadas e pianos caudalosos foram usados para que Mitchell cantasse suas dores e incertezas, principalmente depois que resolveu dar um tempo dos shows e da relação com Nash para passar um tempo viajando sozinha pela Europa como uma simples turista.

Foi justamente durante uma parada para ficar uns dias na Grécia tomando sol e bebendo vinho que Mitchell compôs várias canções do disco, como “Carey” e “California”, ambas tendo como personagem um sujeito com quem ela transou por lá, Cary Raditz e, não por acaso, as canções mais “animadas” do disco. E de lá mesmo mandou uma carta para Nash e comunicou que não queria mais vê-lo. O término dessa relação foi inspiração para outras maravilhosas canções do disco, como “River” (cuja introdução traz uma variação da tradicional “Dingle Bells”) e “My Old Man”.

 

 

 

 

Quando voltou ao batente, usou tudo o que aconteceu e mais o pé na bunda que tomou de Taylor quando ele alcançou o sucesso para, arrasada, burilar um disco sublime e tristíssimo ao mesmo tempo, não sem antes retirar duas canções de sua autoria não aproveitadas em seus discos anteriores que estavam escaladas para entrar em Blue: “Urge for Going”, que foi sucesso com a regravação por parte do cantor country George Hamilton IV, e lançada por ela anos depois como lado B do compacto de “You Turn Me on, I’m a Radio”; e “Hunter (The Good Samaritan)”. Só a bela “Little Green”, de 1967, foi mantida.

 

 

 

 

Em “The Last Time I Saw Richard”, ela explicita a maneira como se sentia totalmente indefesa emocionalmente, incapaz de esconder um milímetro sequer de sua complexa fragilidade, com seus nervos totalmente expostos.

 

Não é à toa que muita gente graúda da crítica musical diz que Blue é o maior álbum já feito por uma mulher em todos os tempos. É meio exagerado, mas tem horas que eu quase concordo com isso.