“O que é que tem nessas caixas”. A três dias do Natal, a pergunta de Renata pegou Geraldo de surpresa. Era a primeira vez que ambos se viam sozinhos – e casados – na sala da nova casa. Entre caixas de papelão e objetos embrulhados em jornal, ele pensou em dizer qualquer coisa, mas decidiu falar a verdade. “Ahn, acho que são os meus discos de vinil…”

Renata olhou para o recém-marido com espanto. Durante todo o namoro e o noivado, ela jamais havia ouvido Geraldo cantar uma única música – até porque ele dizia ser muito desafinado. E ele jamais havia tocado em assuntos musicais com ela desde que soube que sua então noiva era fã de Anitta e da dupla Bruno & Marrone. Geraldo sentia certo temor de confessar que seu maior ídolo era um cara cabeludo e bronco chamado Zakk Wylde. Imagine o que sua noiva pensaria se descobrisse que seu noivo admirava o guitarrista que havia tocado com Ozzy Osbourne, o tal “comedor de morcegos e pintinhos”, segundo a própria Renata.

“Por que você nunca me disse que guardava essas tralhas?”, disse a esposa com uma voz nada amigável, um misto de censura e surpresa. “Bom, o que você pretende fazer com isso?”, acrescentou. Geraldo logo sentiu seu rosto começar a queimar, como se sua pele tivesse sido borrifada com uma espécie de suco de urtiga. “Eu não sei… Talvez guardar num canto ou no armário, ou…” Ele nem chegou a completar o pensamento. Renata tratou rapidamente de dar o veredicto e a sentença. “Olha, querido, isso é uma coleção de velharias que só vai ocupar espaço. Por que você não joga isso fora?”

Tais palavras atingiram os ouvidos de Geraldo como uma saraivada de agulhas incandescentes. Sua esposa, tão pacata e solícita, estava pedindo para que ele se desfizesse de uma parte de sua juventude, de lembranças de um tempo em que não havia nenhum tipo de responsabilidade sobre seus ombros. Quando decidiu reagir e tentar convencer a mulher de que aquilo deveria continuar a ser guardado como relíquias de um passado feliz, sua mulher arrematou. “Nem pense em guardar isso aqui em casa. Imagine o que a mamãe vai pensar ao ver que não temos espaço para colocar a cristaleira que ela nos deu de presente porque você simplesmente não quis jogar esse monte de lixo fora”.

Geraldo ficou por vários minutos parado no centro da sala, segurando uma caixa de papelão com o ânimo de quem guarda em seus braços o cadáver de uma criança. Olhando para um ponto distante no infinito, ele tentava entender o que estava acontecendo. Sua adorável esposa, aquela que ele conhecera em uma quermesse da paróquia do bairro, aquela que capturara o seu coração com o sorriso meigo e envergonhado que só as jovens puras de espírito exibem, havia acabado de lhe fazer não um pedido, mas lhe dado uma ordem. Não de maneira autoritária e ríspida. Muito pior: com aquele mesmo sorriso angelical, contra o qual o pobre Geraldo jamais se rebelou.

Ele desceu as escadas do prédio sem mesmo pensar que havia um elevador para levá-lo até a calçada. Inconscientemente, ele procurava ficar o maior tempo possível com seus discos, como se buscasse perpetuar aquele momento. Tudo o que ele queria é que sua doce mulher esquecesse que o tempo anda para frente. Por um instante, ele acreditou que, se desse meia-volta e retornasse ao apartamento, Renata o receberia com outro sorriso, dessa vez de tolerância, igual àquele que sua mãe lhe dava quando fazia uma traquinagem divertida. Mas logo a realidade lhe esbofeteou a cara com a violência de um soco. Não, Renata não toleraria ser contrariada, ainda mais se tratando de algo que se relacionasse diretamente com a decoração do que ela chamava de “ninho de amor”.

Com olhos marejados, Geraldo pensou em driblar o destino e deixar os discos na casa de algum amigo. Mas quem? Desde que começou a namorar Renata, ele havia se distanciado de seus companheiros de farra, de seus cúmplices de noitadas e putarias. Geraldo se sentiu o mais solitário dos homens. Por que ele havia se isolado? Por que o amor faz com que, às vezes, você abra mão de sua individualidade e passe a viver a vida de outra pessoa?

Ao chegar à calçada, Geraldo não teve coragem de colocar a caixa de papelão repleta de discos na lixeira. Em vez disso, ele rumou até uma praça próxima e sentou-se no banco, com o olhar ainda perdido em um ponto tridimensional da paisagem à sua frente. Foi quando viu um mendigo todo esfarrapado se aproximar e pedir um cigarro. Geraldo disse que não fumava, mas que podia lhe dar outra coisa: uma caixa cheia de discos. Para seu espanto, os olhos do sujeito todo rasgado e mal-cheiroso à sua frente brilharam como duas pepitas de ouro. Ele pegou a caixa, olhou atentamente o conteúdo, agradeceu e saiu dançando, como se ouvisse uma sinfonia imaginária.

Geraldo viu o mendigo se afastar até sumir na escuridão da noite. Foi então que ele chorou, chorou, chorou…