Michael Jackson, Sony e fraude

A indústria musical é uma das maiores fontes de falcatruas, farsas, mentiras e outras presepadas do universo cultural do planeta. São inúmeros os casos de atitudes condenáveis ao longo de sua história – de artistas exigindo créditos em canções em que não compuseram absolutamente nada a shows feitos completamente em playbacks, incluindo vozes e até instrumentos, de vendas de discos tão astronômicas quanto mentirosas a “likes” comprados aos milhões para ‘bombar’ novos hits -, a maioria deles ainda não desmascarados perante o grande público. Pelo menos por enquanto…

Foi justamente por ter a exata noção de como as coisas funcionam nos bastidores que não fiquei surpreso com a notícia de que algumas faixas de Michael, o álbum póstumo de Michael Jackson lançado pela Sony no final de 2010, na verdade contêm os vocais de um imitador, Jason Malachi, contratado pelo produtor Eddie Cascio para ludibriar os fãs e em total acordo com a gravadora Sony.

São acusações gravíssimas, mas não surpreendentes. Eu mesmo “cantei essa bola” em um artigo que escrevi no Yahoo nos primeiros dias de janeiro de 2011, duas semanas depois do lançamento mundial, cujo título é “Disco medíocre profana o espírito musical de Michael Jackson” – leia abaixo o texto na íntegra e aproveite os vídeos para fazer suas comparações.

O processo que corre agora nos tribunais americanos se refere a três canções específicas do disco – “Keep Your Head Up”, “Breaking News” e a horrenda parceria com 50 Cent, “Monster”, o que é uma bondade de quem move a ação, já que, para mim, o disco inteiro foi gravado pelo imitador. Sim, o disco INTEIRO!

Abaixo, você pode ler o que escrevi na época e pode comparar o que escrevi e o áudio das canções. Leia e ouça tudo com atenção e tire suas conclusões…

“Adoraria adentrar ao ano de 2011 escrevendo com esperança a respeito dos rumos do universo musical deste planeta. Afinal de contas, como venho salientando há tempos, nunca na história da Humanidade se ouviu tanta música ao mesmo tempo. Sim, é claro que tem muitas coisas boas e ruins rolando, mas se existe algo que me tira do sério é a picaretagem, a trapaça, a exploração da ingenuidade alheia visando obter uns trocados e, assim, perpetuar a ignorância e a mediocridade.

Escrevo isto no momento imediatamente posterior a algumas audições atentas de uma das maiores trapaças musicais que já tive o desprazer de ouvir em meio século de vida. Sim, estou me referindo a Michael, o suposto “álbum póstumo” de Michael Jackson.

Ok, o cara morreu e ainda tem gente tentando faturar em cima? Bem, então vamos ao que interessa: este disco inteiro é uma vergonha que nem mesmo o cadáver do Michael Jackson aprovaria se tivesse a oportunidade de opinar.

De cara, não vou conseguir descrever em palavras a sensação de ouvir um disco do Michael Jackson sem o Michael Jackson. Não entendeu? Vou repetir: eu simplesmente duvido que os vocais que se ouvem em cada faixa do disco sejam realmente do cara! Em todas elas há modulações de voz muito esquisitas, vários efeitos que disfarçam os timbres originais – como o Auto Tune – e o uso de divisões de frases que Jackson jamais usou em seus trabalhos anteriores. A impressão que tenho é a de ouvir um ótimo imitador de Jackson – o próprio irmão de Michael, Randy, declarou que um impostor foi usado e teve que ficar quieto quando um advogado da família soltou uma nota oficial desmentindo a declaração.

A coisa já começa a desandar logo na primeira faixa, “Hold My Hand”, um dueto com um dos maiores picaretas do show business, Akon, que soa como se o Backstreet Boys fosse uma “black boy band”. “Hollywood Tonight” é a canção que mais faz por merecer a desconfiança se os vocais presentes no disco são mesmo de Jackson. A voz é bem diferente e a maneira de cantar e dividir as frases parece ter sido feita por outra pessoa imitando a voz do cantor. A mesma sensação voltou a atingir os meus ouvidos em cheio quando uma voz trêmula e com um esquisito vibrato surgiu na pavorosa balada “Keep Your Head Up”.

 

Os parcos sinais de dignidade soul que aparecem em “(I Like) The Way You Love Me” e em “Best of Joy” são rapidamente dispersados pela pasteurizada produção da faixa, que vai desde os timbres dos instrumentos até os vocais excessivamente adocicados, transformando tudo em torturante experiência sonora.

 

Se “Breaking News” é uma patética tentativa de recriar o clima dançante da boa “Jam”, do disco Dangerous – muito provavelmente pela presença do produtor Teddy Riley -, a coisa ainda fica pior com a presença de outro emérito trambiqueiro sem talento, 50 Cent, na insossa malemolência dançante de “Monster”, que só contribuiu para o enfraquecimento de uma faixa que já nasceu ruim.

https://www.youtube.com/watch?v=NR-8ZSrwRr4

 

As únicas coisas que se salvam neste verdadeiro tsunami de lixo são “(I Can’t Make It) Another Day”, que traz a participação de Lenny Kravitz e exibe uma correta simbiose entre uma base dançante e roqueira com harmonias e melodias não mais que razoáveis, mas muito acima do nível do restante do álbum (atualização: segundo os créditos do encarte, a bateria da música foi gravada por Dave Grohl, o que negado pelo próprio líder do Foo Fighters no final de 2011, ou seja, rolou mais uma trapaça por parte dos produtores e da gravadora) e “Behind the Mask”, uma canção que não faria feio se tivesse sido incluída no já citado Dangerous. Em contrapartida, o encerramento do disco com o bundamolismo de “Much Too Soon” é bastante coerente com o que se ouve no restante do disco.

 

Que a alma do falecido tenha pelo menos um pouco de descanso depois desta presepada mercantilista.

E aí? Ouviu? O que você achou?

 

 

24 respostas

  1. Caro Régis, tudo bem ? Mais uma vez um texto coerente .Imagino o que você já viu e ouviu estando no ” olho do furacão” do Show Business. Esse disco me cheirou mal desde o início, quando comecei a ver participações “especiais” destes dito artistas, que você descreveu no texto. Seu texto de 2011, e a atual confirmação da Sony, só mostram que realmente foi escrito por alguém que entende do assunto. Enfim, este disco parece aquela marmita que fazemos na segunda -feira, com o que sobrou do fim -de -semana . Mistura um pouco do Akon, um pouco do 50cent, um pouco do imitador do Michael, mente que tem um tempero de Dave Grohl, fala que é um “prato” novo, e dá pra galera engolir .

  2. Posso concordar com cada impressão sua sobre este disco. A ideia de um “disco póstumo” já fede para mim.
    A princípio, pretende escrever algo acerca da discografia de Jackson um dia? Acho que li um texto antigo seu, uma vez, onde falava sobre seus primeiros discos solo, e sobre o Jackson 5; mas os The Jacksons e sua carreira pós Off The Wall foram ignorados. Não acredito que seja um grande fã de Jackson – o que eu realmente não entendo – mas adoraria saber sua opinião, como um crítico musical que é, acerca de suas contribuições artísticas. E saber, também, como o definiria num total.
    Para mim ele foi um gênio – para o Prince também, e tantos outros grandes. E se você me disser que “gênios não cometem erros”, está aí a maior prova de que cometem.
    Grande abraço, Régis!

    1. Sim, pretendo escrever a respeito disso no futuro.
      Não sou fã do Michael Jackson e nem de ninguém. Admiro quando o artista faz bons trabalhos e desço a lenha quando faz merda. E Jackson fez muita merda depois do “Thriller”, um disco por sinal bastante superestimado em minha opinião.
      O termo “gênio” vem sendo empregado há décadas de modo insano e totalmente sem sentido. Michael Jackson jamais foi “gênio”. Gênios foram os compositores eruditos, como Bach, Beethoven – que era surdo! – e Mozart. Jackson foi um excelente artista, muito bem produzido e cercado dos parceiros corretos – como Quincy Jones, por exemplo -, mas cometeu atrocidades musicais pavorosas. Quem sabe um dia eu escreva a respeito disso…
      Abraço!

      1. Eu acredito em gênios contemporâneos. Há muitas maneiras de se ser genial; ele não foi um multi-instrumentista talentoso, mas seu instrumento era sua voz – e que voz, não? Não se pode nem calcular o quanto esse cara influenciou a cultura contemporânea! – e é claro que sabe disso, todos sabem. Não consigo pensar em maior performer… James Brown vem à cabeça, ele foi incrível, mas o que era Michael Jackson?! O frenesi que ele causava nas pessoas, que desmaiavam aos montes em seus concertos, era completamente compreensível; ele era como uma bomba de energia explodindo num palco.
        Para mim ele foi genial no que fez. Errou, musicalmente, em várias coisas, mas não dá simplesmente para subestimá-lo por isso. É desconsiderar todos os seus acertos – que foram muito maiores.
        Sobre Thriller ser um disco “superestimado”, sei que deixou claro que é a sua opinião, mas não vejo como superestimado um disco muito bom, que simplesmente agrada a todos os ouvidos; desde a crítica a um leigo. Off The Wall é espetacular, mas nem todos podem saber disso.
        Aguardando pela resenha. 🙂

  3. Nunca tinha ouvido essas bomba, mas li a matéria e fui assistir o vídeo dessa “Hollywood Tonight”. Não acredito que alguém caiu nessa de que aquela era a voz do Michael?!?!?!?!?!?! Sério? Kkkkkkkkk. E nem precisa ter o ouvido do Régis pra sacar….patético e descarado!

  4. Achei engraçado a resposta cretina do advogado da Sony: Foi mais ou menos assim: “Olha, a voz é do Michael, mas, mesmo que a voz não seja do Michael, a Sony tem o direito de lançar o disco.” É semelhante ao marido que, ao ser perguntando se já traiu a mulher, responde: “Olha, meu amor, eu nunca te traí, mas mesmo que tivesse te traído, eu continuaria te amando da mesma maneira…” Ou seja, é confessar sem confessar…rs

  5. Você cantou a pedra!!! Lembrei de você na hora, quando vi esta notícia!! Dona Sony é f… e se tu publica um vídeo no Facebook, lá vai ela pedir pra retirar pois é a detentora dos direitos. Picaretas!!!

  6. Eu acompanhei com afinco a carreira do Michael Jackson na época do lançamento de “Thriller” e, por conta de toda a exposição e frenesi em torno dele, acabei adquirindo coletâneas do Jackson 5 bem como o álbum “Victory” de 1984. Mesmo assim, não fiz questão do álbum USA For Africa “We Are The World”. Depois de comprar o LP BAD acabei perdendo o interesse em MJ principalmente do hiato de 4 anos para o LP Dangerous. Enfim, quando ouvi hoje pela primeira vez as músicas deste álbum póstumo, tive a sensação de que algo estava muito estranho. Não fosse você, Régis, para desmiuçar tudo de estranho neste álbum, acho que acabaria tomando essa fraude por um verdadeiro álbum do MJ. Parabéns pela análise.

  7. Gostaria de ver um texto seu comentando sobre Thriller e os álbuns que vieram depois. Sei por acompanhar algumas de suas postagens, vc diz que Bad, Dangerous e History são fracos/irregulares e Invincible (inclusive vi um video no youtube sobre isso) é simplesmente pavoroso, mas obviamente se vc especificar isso melhor seria muito interessante.
    E sobre a falcatrua da Sony, a própria família já apontou isso na época em que Breaking news saiu. É uma vergonha literalmente para o legado do Michael e que eles tentaram apagar com XSCAPE, mas não surtiu o efeito esperado. Algumas faixas do disco Michael, porém, foram realmente gravadas pelo Michael e se sabe disso por conta das versões demos que vazaram depois, mas foram tantos efeitos nas versões finais que parecem ser um imitador em quase todas.

    A demo de Hollywood tonight por exemplo https://www.youtube.com/watch?v=ZBB86m3cM7o
    e The way you love me tb https://www.youtube.com/watch?v=DvHI-cyBx1Y

  8. Regis, parabéns pelo texto e por elucidar aos leigos a podridão da indústria musical. Assim como outros que comentaram, eu nunca tinha ouvido esta porcaria na minha vida, mas o pouco que ouvi aí, meu Deus… Um lixo total, picaretagem pura. Não sei como ainda não lançaram aquela farsa de holograma do Michael Jackson ainda, aí a picaretagem estaria completa. E concordo quando você diz sobre o álbum Thriller, um bom disco, porém super estimado. Acredito que o grande trabalho da carreira dele tenha sido o “Off the Wall”. Abraços, Regis!

  9. O Régis é engraçado… vi uma entrevista dele no “Todo Seu” onde ele disse q é contra o streaming, mas nos seus textos, o mesmo coloca vídeos/canções do Youtube (muitos não oficiais, não pertencem a conta do artista/gravadora) para os leitores rs

    1. EU não emprego os serviços de “streaming” para USO PESSOAL, mas coloco os vídeos para meus leitores conhecerem os sons e os shows. Você é bem burrinho assim mesmo ou só está fazendo tipo, Rafael?

  10. O q vc acha das canções da Janet Jackson Régis? Eu nunca tinha prestado muita atenção nela, mas li um blog homenageando o álbum “Velvet Rope”… Achei muito bom !!!

  11. Complicada essa história. Outro boato, semelhante à participação de Dave Grohl na bateria da faixa mencionada, é o de que a música “(I Like) The Way You Love Me” foi composta por Michael para o grupo Hanson… versão essa não confirmada pela trio (que chegou a gravar uma parceria com Michael em outra música). Difícil ver esse tipo de trapaça caça-níquel em meio a uma carreira como a de Michael e tantos outros.

  12. Perfeito, Régis.
    E que bom que vc não conte mais a fundo desses tais bastidores do xoubisnez; podemos, assim, manter alguma crença, justificada em inocência, de que quase tudo não é podridão.
    Lembro de não ter esperado nada desse disco, e depois de ouvido, esquecido-o cedo – duas faixas, indignas de carregarem o nome do cara, me grudaram por algum tempo… pobre fã (mesmo reconhecendo o desgaste e o mau uso do termo) que sempre fui. Mas ao ler seu texto, à época, considerei certo “conspiracionismo” afirmar que a voz não seria do MJ; lembro-me bem do pequeno susto ao ouvir 2.000 Watts, quando do lançamento do anêmico e plastificado Invencible: aquela voz não era a mesma!, logo, MJ poderia ter redistribuído efeitos noutras gravações que ficaram sem acabamento final. O que só agora percebi é que n’algumas faixas de MICHAEL a diferença é tão gritante – dos timbres, drives, falsetes, divisões de frases e até em pronúncia – que me sinto, além de estúpido (por não ter levado em consideração as tretas históricas entre a Sony e o artista, e a mesquinhez, por vezes comprovada da gravadora), violado, enquanto apreciador da obra.
    Mais uma vez, obrigado por seu digníssimo trabalho. Saudações!

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