Minha alegria é a tristeza de outros

loja de discos

Sou aquilo que as pessoas denominam “rato de sebo”. Um dos grandes prazeres de minha miserável existência é percorrer, aos sábados, inúmeras lojas de discos, à procura de vinis raros com preços módicos. Sempre sou extremamente feliz nessas “peregrinações”, pois o tempo todo encontro verdadeiras raridades com custo bastante próximo ao insignificante.

Foi pensando nisso que veio a lembrança de uma ocasião, muitos anos atrás, adquiri em uma única tarde uma fornada de LPs importados simplesmente inacreditável: todos os discos do Gentle Giant em suas originais inglesas, dois raros álbuns do Herman’s Hermits, quase todos os discos do Jackson 5 e o famoso Yessongs,  o triplo ao vivo do Yes com o raríssimo livreto de fotos da turnê. Qualquer pessoa voltaria para casa em êxtase! Eu não consegui…

No caminho de volta para o meu apartamento, notei que havia algo em comum entre tais aquisições. A justificativa dos vendedores dos diferentes sebos para explicar os motivos de tais preciosidades estarem à venda para o papai aqui era uma só: “Meu, o cara deixou esses discos aí porque a mulher dele não queria ‘tranqueira’ no apartamento deles”. Quando percebi isso, tive uma sensação dúbia, que misturava alegria e tristeza. Foi como sair como a maravilhosa Peta Wilson – se você não sabe quem é ela, vá pesquisar, seu preguiçoso! – e levá-la ao estádio do Morumbi para ver o meu São Paulo perder um jogo. Ou como levar a Luana Piovani para a minha casa e ela só querer comer pipoca e assistir ao horário político da TV. Alguma coisa me incomodou naquela história…

A “ficha caiu” somente alguns dias depois, quando cheguei em casa após um cansativo dia de trabalho, tomei um banho, jantei e finalmente sentei em uma poltrona confortável para ouvir o que havia comprado na semana anterior. Aquela sensação incômoda era uma espécie de “solidariedade” para com aqueles que se desfizeram de preciosidades que talvez tivessem consumido uma vida inteira até que fossem adquiridas por mim.

De uma hora para outra, comecei a imaginar os rostos tristes e conformados dos antigos proprietários daqueles discos, com suas entranhas sendo corroídas pelo arrependimento. Vi os sorrisos amarelados de satisfação nas bocas de esposas mal-amadas, orgulhosas por finalmente conseguirem espaço para um berço, uma estante, um sofá-cama amarelo e marrom que vai servir para acomodar suas mães quando estas resolverem fazer uma visita surpresa, ou para uma linda cristaleira dos anos 60, repleta de xícaras e copos que ninguém jamais irá usar. Um arrepio percorreu a minha espinha ao pensar que aquele cenário de hecatombe nuclear poderia ter acontecido…… comigo.

Odeio sentir isso, mas tive pena daqueles coitados porque uma enorme fatia de suas juventudes havia sido substituída pela convivência medíocre e sem poesia dentro de casamentos insípidos. Sofri porque aqueles caras, provavelmente, embarcaram dentro de precárias e poéticas promessas de felicidade e, com o passar de poucos anos, se viram em um beco sem saída, esfomeados em busca do pão da liberdade, mas atemorizados por mulheres que abominam o ato de trepar dentro do carro, por mães de família que nem se preocupam mais com suas varizes semelhantes ao mapa hidrográfico da Amazônia, com suas celulites monumentais.

Lembrei quando eu era apenas um garoto cabeludo, que costumava reunir os amigos em casa para ouvirmos discos a tarde inteira, devorando cada sulco desvirginado por agulhas ninfomaníacas. Depois, fazíamos uma espécie de “rodízio”, variando de casa e de discos, principalmente os importados, impregnados com um cheiro estranho e inebriante que vinha do interior de suas capas. Por breves momentos, aqueles locais eram o centro de nossos mundos. Muitas vezes, em nossa inocência tínhamos os olhos marejados de lágrimas de felicidade por estarmos compartilhando momentos únicos, descobrindo que a música podia, sim, mudar as nossas vidas. Talvez eu tenha aprendido tudo de errado para quem não se importava com discos do Black Sabbath, Captain Beyond, Uriah Heep, Armageddom, Slade, mas foi isso que me salvou.

Parei para pensar e reparei que já não conseguia encontrar a goiabada cascão ou o verdadeiro catupiry, mas que tinha aprendido a conversar diretamente com as pessoas, olho no olho. Por isso, tive a sensação de olhar para cada um dos rostos daqueles que, um dia, foram donos dos discos que eu tinha comprado e que provavelmente compartilharam da mesma alegria e das mesmas lágrimas de cumplicidade musical que eu tive, sem o fingimento de uma elegância fajuta, que tachava a todos nós como “vagabundos roqueiros”. Vi muita tristeza naquelas imagens tão turvas quanto as de um filme de fantasma de baixo orçamento. Senti em meu coração que o fato de não ter me casado, de não querer ser pai, de resistir bravamente a qualquer tentativa de cerceamento de minha liberdade individual era uma vitória, mas que alguns companheiros haviam sucumbido nessa batalha. O que era errado acabou salvando a minha vida.

Naquela noite, desisti de ouvir meus discos. Naquela noite, fui dormir um pouco mais triste…

 

32 respostas

    1. Muito legal o texto, Régis, me identifiquei bastante!
      Pra mim, a idéia de estar o resto da vida com a mesma pessoa do lado todos os dias é simplesmente aterrorizadora. (Eu sou o tipo do cara que adora ficar horas e horas sozinho ouvindo música… Esse tipo de coisa é uma das que me fazem sentir que sou verdadeiramente livre, saca?) Porém, apesar de tanto “terror”, devo confessar que eu acho hilário os olhares das pessoas quando eu digo que não quero me casar ou ter filhos. (Apesar de entende-los perfeitamente,afinal, eu só tenho dezenove anos de idade!) Ultimamente, ando vendo muitos amigos (principalmente os que são um pouco mais velhos do que eu) deixando a sua real essência por causa de suas “companheiras”…
      É realmente muito triste!

      1. Eu também não tenho a mínima vontade de casar e ter filhos. E digo mais, Só de pensar nisto me dá um arrepio. Gosto de ter minha liberdade, e com casamento isto muda, e se tiver filhos então esqueça. E outra, esta parada da música é outro motivo pelo qual eu provavelmente nunca vou me casar. Imagina você ouvindo algo e sua esposa diz: “Abaixa isto amor, tá muito alto.” Digo novamente, só de pensar nisto me dá arrepios.

        1. Eu morei 16 anos com o pai dos meus filhos hoje şou casada ha25 anos com outra pessoa e nao me arrependo porem quando somos jovem ə uma coisa quando envelhecemos a historia muda entäo vale a pena casar ter filhos ə dividir com o outro os nossos momentos

  1. Legal saber que você também curte os Herman’s Hermits. É o grupo dos Anos 60 que eu mais gosto depois, obviamente, dos Beatles. Extremamente subestimados, acho que eles mereciam ser redescobertos. Caso ainda não tenha comprado, indico a coletânea “50th Anniversary”, da fantástica Bear Family Records, que traz todos os singles da banda pela primeira vez em true stereo. Abraços.

  2. Bonita e triste história. Por essas é que dizem que as mulheres trepam de olhos fechados, por não suportarem ver os homens se divertindo.

  3. Rapaz, teve um dia aqui em casa que a minha esposa começou a ouvir o tal do Pablo, o rei da sofrência, o dia inteirinho…meu, senti vontade de largar tudo, sumir no mundo e virar andarilho.

    1. Mas isto pode acontecer com mulher também! Por exemplo, eu ouvia Bauhaus e meu marido dizia que era coisa do demônio! Cheguei ao ponto de deixar de ouvir meus LPs para não ficar ouvindo críticas e ter briga em casa. Ainda bem que me livrei e hoje com meu novo marido continuo a desbravar o mundo do rock!

  4. Posso me considerar então um homem feliz, uma exceção, pois estou em um casamento nada insípido, com uma companheira que me compreende, me dá todo o apoio e vai nos shows comigo! Fica curiosa quando coloco uma música de alguma banda dos anos 70. E que não mexe e nem reclama da minha coleção de vinis que guardo desde a adolescência. Acho que tirei a sorte grande pois esse era meu medo antes de casar.

  5. Sou um cara de sorte, assim como o Deonildes… minha esposa é minha melhor amiga, gata e trepa deliciosamente, ainda por cima ouve discos comigo e o meu gurizinho de 4 anos, adora ACDC e Kiss… tenho um casamento ótimo. Sou um cara abençoado.

  6. Pra mim não é uma questão da patroa reclamar, mas sim de espaço. Se tivesse espaço naquele apto onde eu vivo talvez eu tivesse mais LPs. Ultimamente tenho me desfeito dos cds e comprado música digital e boxes de cds ( dvds também ) pois ocupam menos espaço. Faço o mesmo com quadrinhos e livros, onde coleciono apenas os meus autores favoritos e compro as versões digitais. Outro problema é o preço.

  7. Como quem achava que nunca ia se casar, mas acabou se casando, posso falar que para levar um casamento, os dois lados tem que ceder um pouco. Mas também tem que saber no que não podem ceder . Vou falar que uma das coisas que menos tinha vontade de ver na vida era um show do Roberto Carlos, uma apresentação de Balé Clássico ou um musical da Broadway, como Chicago ou O Fantasma da Ópera (esses últimos porque não conhecia mesmo).

    Os dois primeiros eu consigo tolerar, e dos musicais, aprendi a gostar. Mas minha esposa me acompanhou em shows do Iron Maiden, Aerosmith , Slayer, Scorpions e Ozzy.

  8. Caramba, texto tocante, sensível, verdadeiro. Guardada a estratosférica diferença de conhecimento musical (se comparar, posso dizer que não tenho quase nenhum), senti-me alcançado por este texto. Só posso te dizer obrigado.

  9. Belo texto Régis, uma crônica roqueira da melhor qualidade, mas já que vc abriu a janela, eu te pergunto, Régis Tadeu:
    Você, em nenhum momento, nunca teve vontade casar, ou de formar uma família?
    E mesmo com toda a fama de aparecer na TV, no rádio e na Internet, não teve nenhuma guria persuasiva o suficiente para te fazer mudar de opinião sobre o assuno casamento?
    P.S. E como era maravilhosa a Peta Wilson, concordo contigo e mesmo a Luana Piovani ainda dá um belo caldo, só o nosso São Paulo continua horrível…

    Abraços de um feliz recém-casado!!!!

  10. Na verdade os escravocetas são os que se orgulham de serem assim, sabendo ou não que isso é vergonhoso.

    Uma das frases mais marcantes e que definem bem o que é um relacionamento (e ao mesmo tempo explica o tanto de “o que essa mulher viu nesse cara?” que vemos por aí) eu li numa Playboy, numa matéria onde celebridades – todos homens – falavam sobre sexo, dinheiro e esportes.

    “Uma mulher é capaz de desistir de tudo nessa vida, menos de mudar um homem.”

    E descobri, após uma série de relacionamentos rápidos, que os homens que elas percebem que não conseguirão mudar acabam ficando pelo caminho – e os homens que elas conseguem mudar, também ficam pelo caminho.

  11. De fato, há uma propaganda muito romantizada sobre a formação da família, da criação dos filhos, como se esse devesse ser o objetivo principal de cada ser humano na Terra, que casar com seu amor irá te trazer a felicidade plena e que um filho é a resolução de todos os sonhos do ser humano: “uau, você vai se tornar mãe/pai, isso é uma dádiva, um amor inenarrável” e por aí vão as frases clichês se perpetuando e fazendo a cabeça de muita gente e essa visão sabemos que é muito unilateral de como os relacionamentos são, como se fossem as mil maravilhas, como se ignorassem as dores e dificuldades da gravidez, das lutas da convivência diária com outro ser, etc.
    Por outro lado, acredito que existe sim, digamos, uma “felicidade legítima”, não inventada, em várias relações onde o respeito prevalece. No exemplo que você dá de seres frustrados, esposas mal-amadas, orgulhosas por finalmente conseguirem espaço para um berço… essa também me parece uma visão muito unilateral do que os relacionamentos são e como funcionam, como se toda comunhão fosse essa ilustração que você descreve dos relacionamento e, bem, obviamente que exemplos não faltam de relacionamentos mal sucedidos, mas será que são a regra? A gente bem sabe que todas as relações humanas possuem relações de troca, de ceder e persistir, elas precisam ser cuidadas, pois assim elas vão se aprofundando, cada vez mais, e no ato de desculpar uma mancada, de ceder algo, isso também ajuda a desinflar o ego, a ser mais tolerante, pois, não fosse assim, não sei se existiria alguma amizade que perdurasse por mais de alguns anos. Será que ao se desfazer de alguns discos para poder criar um espaço, a suposta esposa também não teve que se livrar de algumas coisas dela? Será que não foram “desfeitas” conscientes e por que não, felizes, por saber que estão cedendo algo para conseguirem outra coisa que lhes trará uma felicidade conjunta? Ele vende seus discos, ela vende, sei lá, suas roupas, para terem um lar? Para conseguirem ter um filho? Porque sim, é uma visão clichê e romantizada, mas ainda vejo muito amor legítimo de muitos pais para os seus filhos e vice-versa; e nos relacionamentos em que o respeito prevalece, há também muito amor, por isso que, embora seja vendido de uma maneira deturpada, o sonho de estabelecer uma família ainda me parece válido em diversos casos onde o respeito e o amor prevalecem.

  12. Boa Noite.

    Texto excelente, Tio Regis, mostrou como pessoas trocam a liberdade por relacionamentos infelizes.

    Assim como vc, fujo de casamento assim como o diabo foge da cruz, aliança é pior que um par de algemas.

    É bom sair e dar uns pegas numas gatinhas, mas casar, never, never, never!

    Se alguém me mandar desfazer dos meus livros e das minhas coleções de brinquedos e miniaturas que trato-os como bebês, mando pastar. Trato-os com carinho assim como vcs e seus LPs.

    Um grande abraço!

    PS: Parabéns pelos 100K no seu canal no YT.

  13. Vivi fugindo de poucas candidatas, como se nada merecesse, ou por desejarem ter filho, ou por te-los, principalmente pequenos, ou por terem péssimo gosto como o vigente, sertanejo, axé, pagode, forró. Vivo muitas vezes amargurado, furioso, revoltado por me sentir tão sozinho e querer tanto uma companheira, mas consigo ser feliz algumas vezes e sinto que essa companheira, para mim, não existe. Então, minha solução é o 5 X1, ou a casa da luz vermelha, quando desejar demais uma mulher. Me isolei e o convívio com conceitos diferentes ao meu é simplesmente inadmissível. Que bom que existam pessoas como você para me espelhar e não me sentir isolado.

  14. Juro que no final do texto vc terminaria com um ” Sucumbi aos pesadelos e mau agouro diários a mim lançados pelos Deuses da música de possuir aquela coleção de um homem condenado. Peguei uma sacola surrada,coloquei as raridades dentro sem não antes cheirá-las e beijá-las e enfiei-me no metrô adentro. Fui devolver ao dono original as raras e indefectíveis bolachas, em que constava o nome do antigo e de direito dono es lá, escrito a mão e de caneta azul na orelha de um a das capas( Marco Aurélio Garcia Ribeiro ,1973), logo na do Yessongs, fato que me fez exercitar meu lado Sherlock Holmes e descobrir seu paradeiro em 4.3segundos após digitar seu nome no Google. Encomenda entregue, abraço recebido, choro presenciado, alma limpa retorno para meu apartamento, o de número 501, sem não antes descer em um sebo que paquero há anos e que minha intuição me diz esconder em suas entranhas outras raridades que comprarei, nem sem antes perguntar se foi deixada lá de livre e espontãnea vontade…).

  15. Escravocetas são os capachos de mulher até conseguir sua “deusa”. Com união estável, viram os capachos master – provedores, submissos, cucks (cornos) etc.

  16. Caro parceiro Regis, seu canal é o único que acompanho, você está representando uma geração que está a perder no tempo. Parabéns. Peço somente a gentileza de não balançar os discos que comprei nosmostra. Repare, vc diz “vejam essa capa…” e dana de sacudir veementemente o produto. Já tenho certa idade, 76, e meus cansados olhos não tem a velocidade de suas mãos. Afora isso forte abraço de velhinho que vc remoção. Vai fundo menino RT.
    ROMEU TONINI

  17. Na verdade conviver com você deve ser insuportável, e todo homem que defende a solidão tem plena consciência disso. É aquele famoso “Aceita que dói menos”.

    1. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

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