O LP já estava ao meu lado há alguns dias. Nada de edição em CD, edição “deluxe” ou o raio que o parta. Em LP original da época, importado, comprado por mim em 1977, meio por acaso, muito por causa da capa, com uma foto espetacular que chamou a minha atenção na loja de discos importados que eu frequentava no centro de São Paulo, onde eu gastava quase toda a (pouca) grana que recebia. Sabia que tinha que escrever a respeito dele esta semana.

Era o terceiro disco dele, mas a gente aqui no Brasil não fazia a menor ideia disto. Muito menos que, no exato momento do lançamento desta obra-prima chamada Born to Run, em agosto de 1975, um poeta/cantor/ guitarrista americano meio mulambento deixava de ser um “marginal do rock” para assumir uma posição emergente dentro do cenário mainstream americano.

Dentro do álbum havia um LP que convidava o ouvinte atento, daqueles que ficava com um dicionário nas mãos, traduzindo as letras, a fazer uma viagem pelos Estados Unidos. Não pelo paraíso capitalista que o marketing bem bolado vendia para outros países, mas por uma terra desconhecida da grande mídia, repleta de gente devastada pela falta de perspectiva na vida, por perdedores que jamais sentiram sequer a possibilidade de ganhar algo que fizesse suas vidas medíocres valerem a pena. O anfitrião era um sujeito chamado Bruce Springsteen.

Com um elenco formado por músicos extraordinários – com destaque para o estupendo pianista/tecladista Roy Bittan e para o grande amigo e parceiro de Bruce, o saxofonista Clarence Clemons, o negão da capa-, ele abandonou o som direto de seus dois trabalhos anteriores, Greetings From Asbury Park, N.J. () e The Wild, the Innocent and the E Street Shuffle e buscou uma produção claramente reforçada para reproduzir, na medida do possível, aquele “wall of sound” do lendário Phil Spector. Para tal empreitada, ele deixou de lado o trabalho com o produtor Mike Appel – que trabalho apenas na lendária faixa que dá título ao disco – e iniciou aquela que se transformaria em uma longa parceria com o produtor John Landau. Ambos trataram de dirigir seus “comparsas” como atores durante as cenas abertas que se tornaram cada uma de suas canções. Isso era necessário para combater os prenúncios de autoindulgentes pseudohiperproduções que já começavam a despontar naquela época imitando o Pink Floyd e o Queen.

Quem ouviu ao disco conseguiu enxergar de imediato o talento daquele sujeito por trás da imagem meio bagaceira e das dificuldades causadas pela incompreensão poética da língua inglesa. Ao ler e traduzir cada uma das letras, era como se você pagasse ingresso para entrar em uma sala lotada, escolhesse um lugar e fosse levado para um rito de passagem da juventude para a idade adulta de personagens que já sentiam a solidão, a dor e a noite como companheira de uma existência miserável. Tampouco ele usou a religião para justificar os infortúnios do americano classe média. Na verdade, Springsteen sempre teve conteúdo poético suficiente para desafiar Deus a enfrentá-lo. Naquela época, como ouvintes, éramos meros amadores, alunos de alguma escolinha de interpretação de textos poéticos em formas de letras de canções. Quando comecei a decifrar o que ele cantava, muitos anos depois, o álbum inteiro levou minha alma para uma terra muito, muito distante…

O som era grandioso, épico e emocionante. A faixa título, “Thunder Road” e “Backstreets” soavam como algumas das obras mais arrepiantes da galáxia, daquelas impossíveis de segurar as lágrimas, enquanto que “She’s the One” soava como se Bo Diddley tivesse resolvido fazer rock progressivo. Já “Jungleland” parecia ter sido extraída de alguma ópera rock épica do The Who. Um negócio inacreditável de tão lindo! E tinha ainda “Tenth Avenue Freeze-Out”, “Night”, a soturna “Meeting Across the River”… Era uma canção mais incrível que a outra!

 

 

 

 

Hoje eu encontrei um documentário inteiramente realizado para ‘destrichar’ a confecção do álbum. Infelizmente, não encontrei um vídeo legendado em português, mas dá para sacar tudo se você tem um razoável conhecimento da língua inglesa:

 

 

Na verdade, em todo álbum que lançou na carreira Springsteen entregou canções de altíssima qualidade. E quem presenciou os shows do “Boss” no Brasil sabe bem como é a dimensão gigantesca que ele e suas músicas assumem quando estão no palco. Só que Born to Run ainda hoje é capaz de fazer os mortos a voltar do Além só para tentarem acompanhar cada linha das letras deste álbum extraordinário. É um dos grandes momentos da história da música em todos os tempos e em todos os gêneros.

Hoje o meu LP está com a capa um pouco gasta, quase amarelada. O vinil em si traz alguns pequenos chiados, frutos de anos e anos em que as agulhas de meus toca-discos percorreram todas as faixas, de ponta a ponta, sem interrupções. Só que ouvi-lo hoje foi uma experiência que transcendeu qualquer resquício de memória afetiva. Foi como voltar a ler algumas histórias de um velho e querido livro, daqueles que se tornam companheiros de uma jornada sem retorno.

Bem vindo de volta à minha alma, Born to Run.