Já fiz isso antes com Lemmy e B.B.King: escrever um texto em homenagem a eles antes que morressem , celebrando suas respectivas obras enquanto ainda respirassem em cima de um planeta cada vez mais miserável e refém da estupidez. Volto a fazer meu tributo agora, no exato momento em que leio relatos de que Aretha Franklin está se despedindo de amigos e parentes, completamente debilitada na cama de sua casa em Detroit por conta de um câncer pancreático sem cura.

Logo de cara, é preciso dizer que ela está em um panteão de cantoras mitológicas tendo como companhia pouquíssimas colegas. Só consigo lembrar de Ella Fitzgerald e Etta James no exato momento em que escrevo  estas mal traçadas linhas. Aretha construiu uma carreira incrivelmente digna e corajosa, mesmo em tempos em que uma cantora era um pouco melhor considerada que uma prostituta.

Não estou dizendo que grandes cantoras não erram. Erram sim, e muito, especialmente em épocas de em que, sabe-se lá por qual motivo, tentam agradar as novas gerações com escolhas artísticas pra lá de duvidosas. Como a própria Aretha, já com a voz abatida pela doença, fez em 2014 ao soltar Aretha Franklin Sings the Great Diva Classics um disco contendo versões cambaleantes para canções de Adele, Barbara Streisand, Alicia Keys e uma horrível tentativa de recriar “Nothing Compares 2 U”, canção que Prince deu para Sinead O’Connor tornar um sucesso mundial. Sim, ela cometeu vários outros equívocos, mas não será por conta deles que para sempre será lembrada. Nunca esqueceremos Aretha por conta de álbuns magistrais e pela busca incessante de reinventar sua própria carreira.

É óbvio que não irei contar a história dela neste texto. Para isso existem as “wikipedias da vida”. Minha intenção é apenas deixar claro que se houve uma espécie de “encolhimento” de sua carreira a partir dos anos 80, ele teve muito a ver com a necessidade de Aretha buscar justamente a aproximação com o que era novo, uma tática artística perigosa para uma artista já veterana naqueles tempos e da qual pouca gente saiu ilesa. E ela nunca teve medo de errar, uma postura que hoje em dia é confundida com “suicídio comercial”.

Para sempre ela será lembrada pela voz fantástica, que beirava o inacreditável nos anos 60 e 70, período em que gravou álbuns antológicos e fez shows não menos que memoráveis – para quem é sócio do meu “Grupo Secreto no Facebook”, montei um guia minucioso para se conhecer os melhores discos que ela lançou e assistir vídeos de suas fantásticas apresentações ao vivo (saiba mais aqui mesmo no meu site). Um verdadeiro exemplo de como construir uma carreira brilhante, sem perder a credibilidade e muito menos a popularidade, mesmo nos momentos de menor retorno comercial. Pena que algumas de suas “seguidoras” – Whitney Houston e Maria Carey, só para citar as mais famosas que não passaram de “subdivas de araque” – se tornaram meras “gritadoras” e não aprenderam nada com a sua “mestra”

Aretha está próxima de obter um descanso eterno. Que ela vá em paz…