Ontem passei o dia inteiro ouvindo Devo. Sei lá, tive vontade de colocar para tocar aqui em casa algo que estabelecesse um contraponto ao clima de “confinamento compulsório” que vivemos hoje por conta da pandemia do coronavírus. Bem, “contraponto” em termos, já que a banda sempre acreditou que a Humanidade estava fadada ao fracasso e que isso levaria a nossa longevidade a ser cortada, no mínimo, pela metade.

Confesso que não tenho mais paciência para explicar aos mais jovens a importância absurda que o Devo teve na vida de todo mundo que já não batia bem da cabeça na segunda metade dos anos 70. O punk já tinha começado a fazer o seu estrago nos conceitos sonoros até então estabelecidos e a grandiloquência dos roqueiros da época era coisa de gente rica e cafona. Só que o Devo transgrediu ainda mais estes padrões ao questionar até mesmo a validade filosófica e estética do então emergente punk rock.

Os irmãos Casale – Bob na guitarra, Gerald no baixo e nos vocais – encontraram outros dois irmãos igualmente malucaços e inteligentíssimos: o vocalista/tecladista Mark Mothersbaugh e seu irmão guitarrista Bob. Desta parceria surgiu não apenas um grupo, mas todo um conceito filosófico/social/comportamental/político/sonoro: a “de-evolution”, que pregava a teoria de que a Humanidade não estava se desenvolvendo e sim regredindo a níveis mongoloides.

A cada álbum e subsequente turnê, o Devo provou com argumentos musicais e estéticos amplamente irrefutáveis de que estávamos todos caminhando para um mundo em que a banalidade seria elevada ao status de arte – que é exatamente o que acontece nos dias atuais -, tudo atiçado por canções sensacionais e uma presença de palco antológica.

Lembro que a morte de Bob em 2014 por causa de um ataque cardíaco foi recebida com indiferença pela molecada na época, que não deu a menor bola. Apenas quem tinha mais de 35 anos e acompanhado a música de maneira séria nas últimas décadas sentiu com pesar aquele sentimento de “outro que se foi”. Ele foi uma peça importantíssima dentro da engrenagem sônica do grupo pela perfeita colocação de seus teclados e guitarras na construção de canções memoráveis.

Aproveite que você está em casa com seus filhos e mostre a eles as canções que selecionei delas abaixo para que você relembre – e eles passem a conhecer – o trabalho de um grupo espetacular que nunca se cansou de mostrar como somos todos uns idiotas: