O ano foi 1975. O local foi uma das duas lojas de discos que havia em um bairro próximo da minha casa. O choque foi intenso. Muito negativo.

Que raio de capa era aquela? Como uma de minhas bandas favoritas ousava estampar em seu novo álbum uma foto horrorosa daquela? Onde os caras estavam com a cabeça? Sim, eu sabia que, com exceções da mítica imagem da bruxa esverdeada naquela paisagem lúgubre estampada no álbum de estreia e na belíssima imagem demoníaca presente no maravilhoso Sabbath Bloody Sabbath, o Black Sabbath não era um dos grupos que primavam pela ousadia e beleza em suas capas – a capa de Paranoid era incompreensível, a do Master of Reality era de chorar de tão ruim e a do Vol.4 pelo menos tinha as imagens dos caras tocando dentro da capa dupla e no encarte em forma de pôster para compensar a pobreza da capa propriamente dita -, mas o que estampava o Sabotage era de fazer o c.. cair da bunda!

Comprei o disco com a relutância de quem, aos 15 anos de idade, ainda se deixava influenciar pela arte gráfica de um LP. Nem quis saber de pegar o ônibus de volta para casa. Fui andando, pensando se deveria ter esperado um de meus amigos comprar o LP para sacar se eu mesmo deveria ter um disco com uma capa horrenda daquelas. Porra, o Bill Ward parecia aquela irmã mocréia do seu melhor amigo que todo mundo sentia nojo só em pensar em ganhar um beijo do “trubufú”.

Ao chegar em casa, ganhei o sempre bem vindo e caloroso beijo de minha mãezinha – a inesquecível “Dona Irene” – e subi rapidamente para o meu quarto para, ansiosamente, descobrir se eu não tinha gasto à toa o meu suado dinheirinho. Fechei a porta, pus o LP na vitrola e…  Juro por Deus: por um momento, achei que toda a luz do Universo havia sido tragada para dentro dos sulcos do LP. Quando a banda entrou de sopetão, sem aviso, em uma descarga sônica chamada “Hole in te Sky”, não pude deixar de abrir um grande sorriso por ter percebido que meu dinheiro não havia sido gasto em vão. Mesmo que as outras faixas fossem uma merda – o que eu duvidava -, só aquela canção valeria a aquisição do LP. Seu final abrupto me causou certa surpresa, assim como a entrada de um violão, tocado em um volume quase inaudível, cujo tema tinha o título de “Don’t Start (Too Late)”, um sozinho tranquilo e relaxante, novamente interrompido de modo abrupto por… por…

 

Olha, até hoje não consegui entender o que senti quando Tony Iommi entrou com o inacreditável riff de “Sympton of the Universe”. Se antes havia a escuridão em meu quarto, naquele momento toda a Via Láctea parecia ter sido consumida para o interior de buraco negro. Eu sequer conseguia respirar! Meu cérebro começou a escorrer pelas orelhas com a consistência de um milkshake enquanto eu sacudia o meu corpo como se fosse um diabo da Tasmânia epilético. Só parei quando a canção, em sua porção final, mergulhou em uma “planície” acústica, quase jazzy, deixando-me tão desconcertado quanto um evangélico jogado subitamente no meio de uma suruba.

 

A sensação lúgubre surgiu novamente com a longa e assustadora “Megalomania”, até que uns três minutos depois de seu início, surge um daqueles riffs magistrais de Iommi, seguido pelo “gorduroso” baixo de Geezer Butler e da bateria sempre trovejante de Ward, tudo para oferecer suporte a uma das mais espetaculares linhas vocais de todos os tempos. Assim como havia acontecido no álbum anterior, Sabbath Bloody Sabbath, Ozzy estava cantando melhor do que nunca, em uma tonalidade bem mais alta do que aquela gravada nos trabalhos anteriores – não foi à toa que na triunfal volta do grupo na turnê do álbum 13 nenhuma canção destes dois discos foi incluída no repertório.

 

Ainda sem qualquer domínio sobre a minha própria excitação, virei o disco e pus para tocar o lado B. Todos os poucos pelos de meu corpo adolescente levantaram como plataformas marítimas assim que “The Thrill of It All” começou a tocar. Quando a canção pára de repente para entrar novamente um daqueles riffs inacreditáveis de Iommi e Ozzy solta o “yeah” mais tenebroso de todos os tempos, tive a sensação de caminhar com o corpo curvado para trás e subir desta forma pelas paredes, anos antes de Linda Blair fazer o mesmo no filme O Exorcista. Só cai dali quando a música mudou para uma estrutura hard rock quase “feliz”, desconcertando ainda mais o pouco que restava de meu cérebro.

 

Na sequência veio a igualmente assustadora e lírica “Supertzar”, sem Ozzy, pontuada por um coral magistral e imponente, um tema que parecia ter sido composto por Rick Wakeman para o seu Journey to the Center of the Earth, seguida por “Am I Going Insane (Radio)”, uma canção que Ozzy começou cantando com uma influência hispânica na melodia de voz, desaguando então em um refrão que ficou meses grudado na minha cabeça. Demorei décadas para descobrir que o “radio” do subtítulo era uma gíria inglesa endereçada a quem era meio débil mental e que as risadas e choros macabros no final eram, respectivamente, de um amigo australiano da banda e da filha de Ozzy, Jessica. Tudo gravado em velocidade reduzida para provocar calafrios no ouvinte e prepará-los para a tenebrosa e última faixa do álbum…

 

 

Os mais de oito minutos de “The Writ” começavam com a insinuação de que a canção era uma prima mais agressiva de “Hand of Doom”, do Paranoid, só que esbanjando variações de dinâmicas e melodias de uma maneira brilhante e explicitamente sofrida, principalmente na letra, que retratava os inesgotáveis problemas jurídicos e administrativos da banda naqueles tempos, algo que nenhum de nós imaginava.

 

Quatro décadas depois, ouço o disco mais uma vez para escrever este artigo e me surpreendo ao sentir as mesmas sensações do passado. Que beleza é ser um velho e ainda se emocionar com uma obra prima como se o tempo não significasse nada. E se isso ainda acontece comigo, imagine com seus filhos…