Museu em chamas, Brasil derretido

Acabou de vez. Agora não tem mais volta. Nosso fracasso como nação – sim, em minúsculas mesmo – foi sacramentado ontem com o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Criado em D. João VI em 1818 na Quinta da Boa Vista, na zona norte no Rio, o Museu – sim, com maiúsculas mesmo – reunia mais de 26 mil fósseis, 130 mil peças antropológicas; 550 mil amostras de plantas, 6,5 milhões de exemplares animais, mais de 15 mil peças geológicas, coleções egípcias… Tudo queimado e destruído.

Muita gente alertou que as instalações elétricas do Museu estavam em estado deplorável, com fiações expostas e mal conservadas, alas inteiras com infiltrações… Era a típica situação de irresponsabilidade total com o patrimônio histórico. Há suspeitas que até mesmo o combate às chamas foi um fracasso por conta da ausência de equipamentos condizentes com a proporção do incêndio, que os hidrantes não funcionaram como deveriam… O fato de um lugar como aquele não ter um sistema eficiente contra fogo diz muito a respeito do descaso com que o museu era tratado.

Como vamos reescrever nossa história perdida no meio das labaredas? Como as futuras gerações terão noção da trajetória que poderia ter tornado nosso país – sim, em minúsculas mesmo – um exemplo cultural não apenas para a América Latina, mas para o mundo todo? A resposta é simples: não vai rolar.

Como bem lembra Fernanda Mena, amiga e jornalista extremamente competente da Folha de São Paulo, o orçamento do museu era simplesmente uma piada: R$ 520 mil por ano, que jamais foram endereçados em sua totalidade, o que fez com que falta de pagamento de pessoal de limpeza e segurança se tornassem uma constante. Quando penso que gastamos R$ 41 bilhões para fazer Olimpíadas e que a maior parte dessa dinheirama foi parar na carteira de políticos e empresários do alto escalão da vida pública nacional, minha vontade é de fazer justiça com as próprias mãos. Sério.

Duvido que uma única autoridade tenha participado de algum tipo de comemoração pelo bicentenário do museu, que aconteceu justamente neste ano, por mais modesta e/ou silenciosa que tenha sido. É óbvio: isso não rende votos, né? Em uma terra em que ler um livro provoca dor de cabeça em 85,4% da população, nada mais natural que picaretas políticos em busca da oficialização da falta de escrúpulos nem cogitassem participar de qualquer coisa referente ao “prédio cheio de velharias”.

Para piorar, não são apenas os governantes que desprezam a memória da História do Brasil. O ‘povaréu’ é igualmente culpado. Nossas instituições culturais são constantemente agredidas com um festival de burrice explícita, em que profissionais que dedicam suas vidas a pesquisar e preservar o que quer que seja são achincalhados por uma turba de ignorantes que tratam tudo como “trabalho de intelectual”, como se isso fosse uma ofensa. Os monumentos são alvo de pichações o tempo inteiro e seus entornos se transformaram em depósitos de lixo por conta da falta de educação generalizada. Há museus importantíssimos, como o Ipiranga (SP) fechado ao público há anos por conta disso! É impressionante como, ao contrário de outras nações desenvolvidas, a situação do Brasil vem sendo piorada há décadas – sim, DÉCADAS! – por nós mesmos. Absurdo total!

Pode apostar: a ‘comoção popular’ vai durar uma semana apenas. Em dez dias, ninguém mais vai se importar com o que aconteceu. Exatamente como rolou no caso da boate Kiss, lembra? Muito choro, promessas de fiscalização mais rigorosa e tudo continua como sempre foi. Assim é o brasileiro.

Ver aquele colosso cultural arder foi muito mais que uma tragédia inaceitável. Foi, é e ainda será triste demais perceber que, junto com aquele material histórico de valor incalculável, o Brasil também derreteu.

13 respostas

  1. Caro Régis , permita-me explanar algo semelhante ao seu texto, que vi ontem , nos meus passeios dominicais na Avenida Paulista. Como de costume, vou com minha esposa andando e entrando nas livrarias Martins Fontes ,FNAC e Livraria Cultura, respectivamente . A cada Domingo, vejo menos pessoas nestes lugares. Os que sobram , são pessoas acima dos 40, que ainda tem o hábito de comprar livros . Ironicamente, do outro lado da Av. Paulista, exatamente no Vão Livre do MASP, eu e minha esposa vimos jovens e até crianças bebendo e se drogando à vontade, ao som do tão “consagrado” Funk , mesmo com uma base da Polícia Militar do outro lado . Minha esposa, ingenuamente, me perguntou : ” Será que essa molecada sabe o tipo de arte que tem sobre suas cabeças ? ” Obviamente , vi um triste retrato do que você escreveu em seu texto, e peço permissão para parafraseá-lo : ” Acabou de vez. Agora não tem mais volta”……..

    1. Amigo, sou do Rio e fui visitar um amigo aí em Sampa agora em Agosto e fui visitar o MASP. Tive a mesma reação que vc ao ver essa exata cena que vc descreveu. E, óbvio, acham que estão fazendo “cultura”. Eu vi o que essa porcaria fez ao Rio e deu no que vcs estão vendo, não tem volta. A cultura do “povo” se resumiu a palavrões e “senta senta na piroca”…. lamentável. Espero que defenestrem daí esse lixo, mas acho que vcs irão sofrer um bocado tbm com essa imbecilização em massa…. Tempos tenebrosos…. e depois ficam apavorados com essa debandada de gente pro exterior (principalmente Portugal). Só vai sobrar os cacos….

  2. Comentar o que depois de um texto tão verdadeiro como esse ?
    Nos países de primeiro mundo, ciências , tecnologia e desenvolvimento são considerados necessidades “básicas” para o crescimento bem como a história e a cultura que o povo apresenta ao mundo. No Brasil tudo isso é supérfluo , intelectual e blasé demais. Para que gastar dinheiro com preservação histórica, pesquisas científicas e tecnológicas ? O povo precisa de saúde ,comida e emprego , SÓ ISSO ! (wth ??? da ironia) A falta de cultura e educação de base não deixa o povão enxergar que tudo está interligado.
    Certíssimo cada observação sua ! Uma semana de comoção e um futuro de esquecimento do nosso passado e de toda história contida ali.

  3. Caro Régis.
    Gostaria do fundo do meu coração que isso pudesse ser um estopim para uma grande virada em nosso país, pois além da perda inestimável, é revoltante a forma como é tratado tudo que se refere a cultura em nosso país.
    Mas parece que é pedir demais que uma mudança para um Brasil melhor realmente aconteça, vide a quantidade de políticos que agora posam de defensores da cultura, usando esse fato lamentável para se promover.
    Mas você está correto há muito tempo, cantando a bola da nossa involução cultural quando todo mundo estava mais preocupado em pagar de bom moço do que colocar a boca no trombone.
    Está aí o resultado.

  4. Regis vc sempre brilhante,hj foi um dia extremamente triste pra nós q valorizamos nossa Cultura.Nao consegui rir de nada hj,como se houvesse perdido alguém muito querido.Muitas vezes fui,levei meus filhos,minhas duas netas chegaram a conhecer ,mas o pequenininho de dois anos só vai ouvir falar um dia.

  5. Bom dia, Regis,

    Além do acervo preciosíssimo e insubstituível, o que poderia simbolizar melhor a decadência moral e intelectual que vivemos do que o fato de termos visto queimar o prédio onde foi assinada a independência do Brasil? Nós simplesmente deixamos queimar.

  6. O que mais me irritou foi ouvir de uma certa candidata à presidente: “Vamos socorrer os museus brasileiros”. Ora, vá plantar batatas! Nesse momento triste a pessoa ainda se aproveita para falar justamente o que os incautos querem ouvir. Todos nós sabemos que se for eleita, não vai fazer nada de diferente de seus antecessores. Não somos trouxas!!!

  7. Acredito que os incêndios nos museus brasileiros não vão parar por aí

    Até aposto na próxima vítima: MASP, (ibirapuera/paulista/ou os 2), e em seguida a PINACOTECA de sp

    A melhor solução é passar TUDO pros gringos preservarem, terceirizar isso pra eles!

    Ainda jogo minhas fichas que competências em museus francesas, inglesas, americanas, portuguesas pensaram por instantes que poderiam possuir todo aquele acervo bem antes, (considerando a incompetência ja conhecida dos BRA), pra não acabar tudo daquele jeito

    Talvez tenha batido um arrependimento nos gringos de não terem tentado barganhar, comprar, pegar emprestado pra evitar aquele triste fim

    Afinal agente somos inútel!

  8. Chorei ao ler seu artigo, meu amigo. Não sou bom com as palavras como você, e você conseguiu traduzir tudo o que estou sentindo nesse momento também!! Parabéns!!!!

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