Memória afetiva é um troço esquisito. Ela permite que você mantenha uma espécie de conexão com seu ídolo por conta da importância que o mesmo teve em sua infância e/ou adolescência, propiciando experiências decisivas para a moldagem de sua personalidade musical e, por que não dizer, do grau de sensibilidade que você vai exibir ao longo de sua vida nas mais diferentes áreas – emocionais, sociais, políticas, profissionais, sexuais e o raio o parta.

Talvez seja justamente por conta disso que, mesmo nos dias atuais, eu consiga ouvir com o mesmo prazer de outrora todos os sons que permearam os tempos em que fui apenas um moleque metido a besta, fingindo ser o ”sabidão” da turma, só que com as mesmas dúvidas que todo adolescente tem em relação a seu futuro.

É por isso que sempre lamento a morte de “velhos companheiros” de minha jornada musical que desaguou naquilo que sou hoje: um velho metido a besta que finge ser o “sabidão” da turma. É, algumas coisas não mudam mesmo, não?

Tive essa sensação ao reouvir recentemente vários LPs do já George Duke que ainda tenho em minha coleção. Tecladista e pianista de primeira grandeza, ele capturou a minha atenção assim que coloquei meus ouvidos a serviço dos álbuns de Frank Zappa.  Sob as ordens do mestre bigodudo, Duke exibiu um brilhantismo musical responsável pela mudança da referência musical de milhões de moleques como eu nos anos 70, participando ativamente de uma série de álbuns não menos que antológicos: Over-Nite Sensation (1973), Apostrophe (1974), o sensacional Roxy& Elsewhere  (de 1974, gravado ao vivo) e o mítico One Size Fits All (1975), o disco que Deus costuma botar para tocar quando está a fim de fumar “unzinho”. Foi ouvindo caras como Duke que a gente sacou que jazz poderia muito soar como rock e vice-versa.

Nunca deixei de comprar os discos dele. Da parceria deliciosamente picareta com o monstruoso baixista Stanley Clarke – tente ouvir a versão repleta de sacanagem que eles fizeram de “Louie, Louie”, do The Kingsmen, sem sacudir o esqueleto e ateste a sua condição de vegetal que respira – aos discos estritamente jazzísticos, do duo com o extraordinário baterista Billy Cobham aos discos desavergonhadamente lambuzados de ‘açúcar pop’, tudo o que ele lançou tinha uma centelha de preciosismo e qualidade que transformava em pó 78,4% da produção musical do planeta. Dê uma olhada com atenção nos vídeos que coloquei abaixo:

 

 

 

 

Sacou o lance dele? Então, está esperando o quê para ir atrás da discografia do cara?