O cara não era brincadeira. O que ele manjava da arte de gravar sons em qualquer circunstância –foi o principal responsável por dar forma ao caótico Concerto Para Bangladesh, organizado por George Harrison em 1971 – certamente o levou a ser admirado por todo mundo que trabalhou com ele, principalmente John Lennon, com quem gravou a maioria dos seus álbuns em carreira solo. Inclusive, estava justamente trabalhando com o ex-Beatle na produção de um álbum do beberrão e malucaço Harry Nilsson quando, de repente, Paul McCartney chegou por lá, acompanhado de Stevie Wonder. Foi ele quem armou uma jam session no local e que se tornou a única ocasião em que Lennon e McCartney tocaram juntos após o fim melancólico dos Beatles – quem quiser ouvir isto pode procurar o bootleg batizado como A Toot and a Snore in 74’.

Roy Cicala trabalhou como produtor e engenheiro de som em praticamente dezenas de álbuns que eu adoro – do Frampton Comes Alive, do Peter Frampton, ao Watertown, do Frank Sinatra; do Electric Ladyland, do Jimi Hendrix, ao Lodger, do David Bowie; do Born to Run, do Bruce Springsteen, ao Toys in the Attic, do Aerosmith – e serviu de referência para todas as gerações de pessoas que passaram a trabalhar com gravação, seja em estúdio ou em shows.

A parceria com Lennon em estúdio funcionou tão bem que se estendeu à vida pessoal de ambos: Roy se tornou seu amigo pessoal, daqueles que aparecem na casa do outro sem avisar, até o dia em que algumas balas ceifaram a vida do marido da Yoko Ono.

E era no lendário estúdio Record Plant, do qual era um dos sócios, que Roy se sentia em casa. Só que ele largou tudo para trás quando veio visitar a filha no Brasil em 2006. Por razões que nem ele conseguia explicar direito, se apaixonou por São Paulo e resolveu montar uma “filial” do Record Plant por aqui, junto com o produtor Apollo Nove. Um dos discos da banda brasileira Forgotten Boys, Louva-a-Deus, foi inteiramente manuseado pelas mãos mágicas e ouvidos absolutos do velho Roy, além de ter trabalhado em discos do Eduardo Araújo e Nasi.

Roy morreu em 2014, com 73 anos de idade. Desde então, Deus contratou o velho produtor/engenheiro para gravar diversos álbuns triplo ao vivo com uma moçada boa que anda fazendo umas jam sessions do capeta (epa!) lá no Paraíso Celestial Hall. Só não sei quando isso será lançado, mas pode apostar que vai ter um sonzão…