Nas letras de Aldir Blanc estava a escrotidão brasileira

aldir blanc

Ele era tarado por jazz. A história de seu encontro com o lendário baixista Ron Carter depois de um show deste no Rio – quando perguntou a ele, logo de cara, se tinha mandado fazer a sua dentadura com um famoso protético lá na sua Tijuca, que Carter respondeu com uma sonora gargalhada – já faz parte do anedotário musical da cidade. Nada incomum para quem conheceu Aldir Blanc na intimidade de uma mesa de bar, lotada de garrafas de cerveja. Em quase todas as conversas e cantorias boêmias, seu papo era temperado com frases que deixavam seus amigos em um estado intermediário entre o estupefato e reflexivo.

Ele se mantinha longe de tudo e de todos, desconfiadíssimo a respeito das benesses de uma cidade que destrói carreiras na mesma velocidade em que a propulsiona. Só poderia ter morado na Tijuca, bairro do Rio de Janeiro conhecido por abrigar artistas tão geniais quanto estranhos no que se refere ao convívio cotidiano. Nas ocasiões em que recebia os amigos em seu apartamento entupido de livros, Blanc costumava coroar as “saideiras” alcoólicas já nas madrugadas com arremessos de livros de sua imensa biblioteca em direção a um dos convidados, depois de analisar a personalidade da pessoa.

Como poucos, Blanc colocou em suas letras brilhantes uma faceta do carioca – e, por extensão, do brasileiro médio – que o brilho da imagem marqueteira sempre insistiu em vender em qualquer canto do planeta. Em cada uma delas, injetava uma poesia ardida e incômoda, desnudando a imundice física e espiritual que vivia tanto nos subúrbios quanto nos apartamentos de centenas de metros quadrados das regiões mais nobres da cidade. Principalmente em sua parceria com outra lenda da música brasileira, João Bosco, que tinha sempre que rebolar na sua incrível técnica no violão para musicar um quase “mapa astral da escrotidão” de todo cidadão brasileiro que Blanc escrevia.

É uma pena que ele não tenha conseguiu realizar o sonho de publicar as centenas de textos escritos em cadernos amarfanhados que fatalmente se transformariam em uma espécie de romance policial carioca. Blanc morreu dias atrás, vitimado pelo coronavírus. Para a grande maioria da população ignorante, infelizmente, foi apenas mais um nome. Para quem gosta de verdade da música brasileira e sua vertente mais poética, foi o final triste de uma vida e obra quase inigualáveis.

Espero que a alma de Blanc esteja nesse exato momento tomando uma cerveja ao lado de seus velhos amigos, como Betinho e Henfil. Se você não sabe do que estou escrevendo, então eu sinto pena de você…

12 respostas

  1. Menos um gênio neste mundo.
    Hoje de madrugada, outro artista nos deixou: Ciro Pessoa. E, dias atrás, o tecladista do Stranglers!!

  2. E o material do Blanc tem nada?

    Esse lance filosófico em relação ao brasileiro é interessante, abordar a dinâmica de como funciona o povo Br no “modo falcatrua”.

    E com certeza eu acredito que ele morou no RJ, o carioca é muito expressivo, logo não conseguiria dissimular muito as falcatruagens.

  3. Texto sublime como as composições dele. Tantas e tão belas…. o final então, uma referência aos amigos que ele tanto amou e foram tão grandes quanto ele, coroou com chave de ouro! Parabéns, Régis!

    E pensar que mais um, entre tantos, que esse vírus levou….

  4. O Brasil perdeu um grande compositor.

    Eu saquei de cara a parte onde fala “Espero que a alma de Blanc esteja nesse exato momento tomando uma cerveja ao lado de seus velhos amigos, como Betinho e Henfil.”

    Faltou convidar a Pimentinha nesta resenha celestial.

  5. Ótimo texto, falou muito bem sobre esse grande compositor.
    Aproveitando esse comentário, queria que você falasse um pouco sobre o subgênero “Trap”, com suas letras extremamente transgressoras. Creio que daria uma ótima matéria.

  6. Prezado Regis, boa tarde. Parabéns pelo ótimo texto, sem dúvidas um belo tributo. Uma sugestão: escreva artigos recomendando livros que você já leu e gostou! Certamente um indivíduo com uma percepção tão afiada em relação à música e outros diversos assuntos como você teria ótimas sugestões. Um grande abraço e continue com o excelente trabalho.

    1. Obrigado pelas palavras gentis, Pedro. Já escrevi a respeito de vários livros a respeito de música por aqui, mas vou pensar mais profundamente em sua sugestão. Abraço e saúde!

  7. Tenho a impressão que a humanidade já acabou, e que estamos apenas esvaziando as gavetas para que outro ser vivente possa se instalar no mundo. Para aqueles que estão esvaziando suas gavetas enquanto esperam sua vez, mas que possuem algum tutano, temos o refrigério dos textos de Regis Tadeu. Eles nos fazem lembrar que já fomos melhores.

  8. Um grande nome… Todos nós morreremos, mas poucos serão eternizados. Blanc é um dos poucos que conseguiu entrar para a história. Não é um artista de ralé, foi um homem brilhante que viverá para sempre na memória de quem importa.

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