De uns tempos para, ele não estava nada bem. Tinha sofrido uma queda durante uma caminhada em 2019 que lhe rendeu uma cirurgia no ombro e, desde então, nunca mais foi o mesmo. Agravada pela pandemia, surgiu a temida depressão, a ponto de ter cancelado, meses atrás, sua participação como jurado do renomado Concurso Chopin de Varsóvia. Só que eu jamais poderia esperar que ele morresse na madrugada desta segunda-feira, em sua casa no Rio, sem que até o momento em que escrevo este texto a causa tenha sido confirmada.

Espero que você não seja mais um dos ignorantes a soltar um “quem foi esse cara?” ao se perguntar porque escrevi esse texto a respeito de Nelson Freire. Ficaria muito triste em saber que sou lido por quem não tem a menor noção de que ele foi, mesmo que o universo da música erudita seja como outra galáxia para seus neurônios. É por isso que o que você vai ler abaixo tem a intenção de realçar a gigantesca importância dele para a história da música universal.

Para quem não sabe, ele foi um dos maiores artistas brasileiros em todos os tempos, daqueles que teve sim uma carreira internacional monumental, ao contrário de um monte de gente embusteira espalhada pelo Brasil. Dentro do universo erudito, ele esteve em todos os principais palcos do planeta, arrancando aplausos que sempre duravam uma eternidade. E com Justiça!

Seu talento precoce ao piano durante a infância não passou despercebido da família e de todos os professores de quem ele foi aluno, que nunca deixavam de se espantar com seu talento e destreza em um instrumento absurdamente complexo. Como ignorar alguém que deu seu primeiro concerto aos… cinco anos de idade? E que venceu o concorridíssimo Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro aos doze, no meio de um monte de pianistas do mundo inteiro e adultos? Foi isso que levou o garoto a ir para Viena, estudar com o renomado professor Bruno Seidlhofer e ganhar quase todos os concursos internacionais nos quais se inscrevia. Daí para se tornar um dos maiores pianistas de sua geração foi um pulo…

Freire não se fazia de rogado. Tocava como se estivesse passando manteiga no pão inúmeras peças complicadíssimas de Bach, Beethoven, Chopin, Liszt, Schumann, Schubert, Mozart, Grieg, Rachmaninov, Villa-Lobos, Debussy e quem mais aparecesse em forma de partitura na sua frente. Seus recitais passaram a ser tão concorridos que diretores das maiores orquestras do planeta só faltavam se estapear para terem o privilégio de suas teclas.

Muita gente fora do mundo erudito passou a conhecê-lo a partir de duas décadas atrás, quando ele foi o personagem de um documentário, Nelson Freire, dirigido/produzido por João Moreira Salles. Foi nele que eu e todo mundo que assistiu tomou contato com uma pessoa muito tímida, que evitava dar entrevistas a todo custo, que adorava jazz e era fã de carteirinha de outra pianista brasileira extraordinária, Guiomar Novaes. Tinha uma simbiose tão grande com o piano que dizia: “sei quando alguns deles não vão com a minha cara”. Foi o sucesso do filme que o fez despertar o prazer por gravar em estúdio, algo que até então sempre detestava. Foi a maneira que encontrou para deixar de viajar tanto – o que ele também odiava – e deixar que a música falasse por ele ao redor do mundo.

Se você quer conhecer a obra dele e não sabe por onde começar, recomendo que ouça TUDO o que foi lançado dele pela famosa gravadora Decca. Lá estão todos os momentos de lirismo, sensibilidade e delicadeza divinos, aliados a uma técnica esplendorosa, com os quais ele transformou o mundo em um lugar menos miserável para se viver.