Toda vez que o Rush lançava um disco de estúdio, era a mesma coisa: fãs ortodoxos disfarçavam a sua indignação pelo fato de a banda não retomar o som que fazia nos anos 70; fãs mais moderados aceitavam o som mais “comum” e sem carisma que a banda vinha fazendo há tempos, sempre com ressalvas; e os fãs mais benevolentes, que “babavam ovo” para qualquer coisa que o trio canadense toque, ficavam ouriçadíssimos. Foi por isso que tanta gente sempre pediu para que eu escrevesse a respeito do último álbum de estúdio dos caras, Clockwork Angels. Cada “corrente de fãs” queria trazer todas as sardinhas possíveis para os seus respectivos lados. Só que ninguém imaginava que seria o último álbum de estúdio do trio…

De minha parte, percebi que esse disco reafirmou com clareza que ninguém conseguiu deixar o mofado rock progressivo tão reluzente e moderno quanto Geddy Lee, Alex Lifeson e o recentemente falecido Neil Peart. Os três continuavam ‘destruindo’ em seus respectivos instrumentos — como se isso fosse uma novidade — e, na hora de trabalhar a técnica em favor da canção em si, os caras eram os primeiros da turma e jamais ficavam babando na gravata.

Só que “novidade” é algo que você NÃO vai encontrar nesse disco caso o ouça pela primeira vez. Não que isso seja traduzido como “acomodação artística”, “monotonia musical” e “preguiça sônica”, entre outras bobagens que costumam acontecer um pouco antes dos integrantes de um grupo começarem a cheirar mal. O que acontece é que o Rush conseguiu soar “novo” mesmo soando “velho”. Não entendeu? Eu explico…

Duas das canções do disco — que é conceitual, já que foi baseado no livro Candide, escrito por Voltaire em 1759 – já eram bem conhecidas do público brasileiro, pois foram apresentadas aqui durante a turnê que a banda fez em 2010 – e que estão presentes no espetacular DVD Time Machine -, mas no álbum estão um pouco diferentes. “BU2B” tem uma “intro” com voz e violão e um novo andamento rítmico, que acabou deixando a música mais concisa e menos ‘bagunçada’. Já “Caravan” traz um arranjo mais seco e uma cadência vocal levemente modificada, com a voz de Lee soando mais grave e profunda. Tem umas matadoras linhas de baixo e uma daquelas quebradeiras “entorta cangote” no meio da canção que a deixam com cara de “La Villa Strangiato”, do álbum Hemispheres, de 1978.

 

 

Os sons do baixo de Lee em “Seven Cities of Gold” e “Headlong Flight” – esta com uma pequena citação de uma antiga canção do grupo, “Bastille Day” (do disco Caress of Steel, de 1975), em seu riff principal – deveriam ser tese de mestrado. E são essas as faixas que deixam mais evidente a ‘pegada’ do novo disco como um todo, a mesma empregada no subestimadíssimo Counterparts, de 1993: guitarra musculosa, baixo explodindo na nossa cara e a bateria de Peart soando mais pesada do que meticulosa em suas viradas, privilegiando mais os grooves de cada canção.

 

 

A faixa-título, com mais de sete minutos, é daquelas que vão dar saudades em quem adora o Power Windows (de 1985), não porque Peart usou qualquer traquitana eletrônica, mas porque os efeitos das guitarras de Lifeson e a melodia vocal de Lee evocam aquela época. A consistência sonora enxuta de “The Anarchist”, “Wish Them Well” e “Carnies” é sim uma das surpresas do disco, pois ambas conseguem evocar a sonoridade que a banda tinha nos anos 70 e 80 sem resvalar para a autoparódia, e ainda por cima dá pistas de possíveis influências do Led Zeppelin e, principalmente, do Yes.

 

 

 

 

Só que nem tudo soa maravilhosamente bem em Clockwork Angels. “The Wreckers” é fraca, soando como uma tentativa de equilibrar timbres de guitarras que parecem o The Edge, do U2, prestando tributo ao The Who, com uma vocalização na linha do Marillion. Ela parece um corpo estranho dentro do disco, como uma espinha no rosto de uma linda adolescente, ainda mais porque vem embrulhada em uma colcha de teclados que deixa tudo meio embolado.

 

Há menos violões que nos álbuns anteriores, que só aparecem de maneira mais efetiva na bela “Halo Effect” e na mediana “The Garden”, que encerra o disco e tem como diferencial a presença de uma orquestra, mas a canção não se destaca como algo a ser lembrado por futuras gerações. O mesmo vale para a produção de Nick Raskulinecz, o mesmo do disco anterior, o irregular Snakes & Arrows, de 2007.

 

 

É óbvio que tocar Clockwork Angels no carro nunca vai deixar de ser uma tentativa fajuta — e infrutífera, diga-se de passagem – de pegar mulher. Na verdade, o disco, ao transformar o ‘velho’ em ‘novo’, nada mais é que um abraço emocionado no fã que acompanha a banda desde os tempos em que se amarrava cachorro com linguiça. Este sim é o verdadeiro beneficiário aqui. Só que ninguém poderia imaginar que seria a última vez que ouviríamos a banda em estúdio…