Foi em um dia nublado como ontem. Um mesmo 7 de abril, só que em 1915. Naquele momento, o mundo recebia mais um bebê, mas não uma criança qualquer. Ela estava destinada a sofrer – e muito!

Estranhamente, todas as inenarráveis agruras que aquela criança estava destinada a encarar acabaram influenciando a sua maneira de cantar, que era o único ato de sua vida miserável que lhe trazia algum alívio. Foi uma pena que isso a tenha tornado a maior cantora de todos os tempos somente depois que ela morreu, aos 44 anos, deitada em uma cama de hospital em Nova Iorque, em um estado deplorável e terrivelmente agonizante, causado pela ingestão de uma babilônica quantidade de todas as drogas que você possa imaginar que existiam na época. Na porta do quarto, dois policiais estavam postados para impedir que ela fugisse ou que recebesse mais drogas de algum “visitante” e não tinham a menor consciência que estavam guardando o corpo e a alma de uma lenda…

Quem conhece a história de vida daquela menina sabe quem que ela poderia ter sido a personagem principal de uma série de livros que cada um dos maiores romancistas da história da Literatura poderia ter escrito. Até mesmo para a imaginação deles era improvável que a menina que mal conheceu o pai que a abandonou, que foi estuprada com onze anos de idade, que aos treze já se prostituía nas ruas e em boates de última categoria, que aos 17 mergulhou fundo no mundo das drogas – de onde nunca saiu – e que começou a cantar em espeluncas miseráveis em troca de um prato de comida pudesse lembrada como a voz mais inacreditável que este planeta já testemunhou.

A sorte deitou suas luzes na vida da menina quando um produtor, o futuramente lendário John Hammond, casualmente a viu cantando em uma espelunca e ficou fascinado com sua voz. Ele a tirou de lá e a apresentou ao clarinetista e band leader Benny Goodman. Igualmente espantado, ele a colocou para gravar um disco em 1933, com apenas duas faixas. A partir dali, ela nunca mais parou de cantar.

Sua magnitude como cantora extrapolou – e muito! – o universo do jazz e até mesmo do mitológico repertório de grandes clássicos do cancioneiro americano. Basta ter um mínimo de sensibilidade e algum sangue correndo nas veias para sentir o imenso leque de sensações que Billie Holiday passava em cada canção que gravou. Mesmo em seus últimos tempos, quando sua voz era apenas um frouxo suspiro daquilo que foi em seu auge, ela conseguia transmitir em suas interpretações uma dor contida e exasperante, o que torna a audição de suas últimas gravações uma experiência desconcertante para quem pensa que o universo das cantoras é um paraíso eterno.

Em um dia como ontem, que marcou o 105º aniversário de seu nascimento, a grande Billie deveria ter sido mais uma reverenciada por todos aqueles que encaram a Música como uma arte a ser perpetuada até o fim de nossa existência neste planeta lindo e miserável ao mesmo tempo, os mesmos adjetivos que marcaram o curto caminho dela por aqui.

Esperei alguém da chamada “grande imprensa” tocar no assunto. Nada. Todo mundo só quer saber de BBB, marquinha de biquíni da Anitta na quarentena ou se inteirar das últimas ‘notícias’ dos ‘médicos de WhatsApp’  Por isso, tomo a liberdade de fazer isso agora…