Uma das coisas que mais me fascinam na hora de escrever a respeito de música são as contextualizações que envolvem o surgimento de um artista, de um álbum clássico ou de uma canção mitológica. Gosto de entender que nada surge por acaso, que aquilo que muitas vezes parece ser obra do destino foi, na verdade, um processo com diversas etapas que acabou resultando em algo que mudou a cabeça das pessoas, sejam elas integrantes de bandas ou simples ouvintes como eu e você.

Tal pensamento voltou à minha cabeça durante uma discussão com um grupo de amigos a respeito do que é capaz de mudar a percepção musical de uma geração. Depois de ouvir e debater “teses” interessantes e outras estapafúrdias – tudo regado a boas doses de bourbon -, consegui uma ampla maioria de aceitação quando expliquei porque acredito que o encontro de Bob Dylan com os Beatles em agosto de 1964 e a gravação que o primeiro fez de “Like a Rolling Stone” foram alguns dos divisores de águas no entendimento do rock e da música pop em geral como ferramentas de compreensão musical e comportamental de uma época. Dylan acabou influenciando a música dos Beatles e vice-versa. Depois disto, nunca mais as pessoas ouviram música da mesma maneira…

A história do encontro já é bem conhecida. Apresentados pelo jornalista Al Aeronowitz, a banda e Dylan se encontraram em uma festa no hotel Delmonico, em Nova Iorque. O cantor ofereceu um pouco de maconha aos ingleses – que nunca haviam experimentado a erva – e, a partir daquela ocasião, o quarteto de Liverpool passou a compor sob efeito dos baseados, o que acarretou mudanças profundas em seu som – compare o álbum gravado em seguida, Help (1965), com os anteriores e você notará uma diferença tremenda, principalmente pela inclusão de canções como “Yesterday” e, principalmente, “You’ve Got to Hide Your Love Away”, explicitamente influenciada por Dylan.

Em contrapartida, Dylan passou a ser influenciado pelos Beatles, o que veio a ser comprovado com a eletrificação de seu som, celebrada com uma vaia imensa quando ele se apresentou no tradicional festival de música folk em Newport em julho de 1965. Só que a real transformação ocorreu um mês antes, dentro do estúdio A da gravadora Columbia em Nova York, quando ele gravou a canção que representou a entrada da música pop em outro patamar.

Primeiro porque rompeu definitivamente com o padrão de duração de uma canção a ser lançada em compacto para tocar nas rádios. Até então, nenhuma ultrapassava os três minutos e “Like a Rolling Stone” tinha exatos seis minutos e seis segundos. A gravadora chegou até a diminuir o tempo de duração da canção na impressão da contracapa do compacto para “5:59”, na esperança de diminuir a inevitável rejeição dos programadores das rádios na época. Depois, pelo conteúdo de sua letra.

Só que para criar a música, Dylan e o produtor Tom Wilson tiveram muito trabalho e um pouco de sorte para gravar o take perfeito para a canção em 16 de junho de 1965. No dia anterior, a dupla tinha tentado gravar essa e mais duas canções, “Sitting on a Barbed Wire Fence” e “Phantom Engineer” – que mais tarde se transformou em “It Tales a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry” – com diversos músicos de estúdio, dentre os quais o cultuado guitarrista Mike Bloomfield, mas com resultados quase canhestros. Para se ter uma ideia de como ambos estavam perdidos, sem saber bem como a canção deveria soar, eles chegaram a gravar mais de dez takes diferentes de “Like a Rolling Stone”, sendo que um deles foi em um compasso ¾, semelhante a uma… valsa!

Foi então que no dia seguinte surgiu um personagem essencial nesta história: Al Kooper, um jovem guitarrista de 21 anos. Fã de Dylan, ele tinha aparecido por lá a convite do produtor apenas para assistir as gravações. Vendo que Dylan e Wilson continuavam a não encontrar os elementos certos para a canção, Kooper aproveitou uma pausa e disse que tinha uma ideia que poderia ser usada no órgão Hammond que estava encostado no estúdio. Wilson se negou a ouvi-lo e avisou que ele estava lá apenas como “espectador”. Quando o produtor teve que sair da sala de controle para atender a uma ligação telefônica, Kooper, armado da maior cara de pau do planeta, entrou no estúdio, ligou o Hammond e começou a tocar a sua ideia para canção assim que o produtor retornou. Tanto Wilson como Dylan ficaram boquiabertos: Kooper tocou uma sequência de acordes no órgão que era justamente o que eles estavam procurando.

Definido o arranjo, então foi a vez de Dylan colocar a sua famosa voz, recitando a letra que era um resumo de uma história de vinte páginas escrita por ele meses antes em uma cabana em Woodstock – onde rolaria o mítico festival anos depois – que pertencia à mãe de Peter Yarrow, do famoso trio folk Peter, Paul & Mary. Cheia de imagens surrealistas, personagens enigmáticos e referências indecifráveis, a letra se encaixou no arranjo e finalmente surgiu a canção que fez com que o rock and roll finalmente se transformasse em algo para adultos.

Não foi à toa que a canção derreteu o cérebro de inúmeros futuros artistas quando foi lançada. Frank Zappa chegou a dizer que pensou seriamente em desistir de fazer música quando ouviu a canção pela primeira vez. Bruce Springsteen afirmou certa vez que “se Elvis havia liberado o corpo para as pessoas dançarem, Dylan nesta canção liberou o cérebro para as pessoas pensarem”. Ótima definição!

A canção tem uma importância tão absurda que o genial e famoso crítico musical Greil Marcus escreveu um livro inteiro – Like a Rolling Stone: Bob Dylan at the Crossroads ­– abordando apenas esta canção e seus desdobramentos no mundo musical. Quanto aos Beatles, ouça o que eles fizeram em Rubber Soul e nos álbuns posteriores. Não preciso explicar mais nada, certo?