Como hoje é dia do aniversário do Tony Iommi, resolvi republicar o texto abaixo, que escrevi logo depois de ter assistido ao show do Black Sabbath em outubro de 2013 aqui em São Paulo. Leia com atenção, principalmente se você esteve presente…

E aí, Deus? Beleza! Tudo em cima…

Muito legal ter Te encontrado no show do Black Sabbath na sexta passada aqui em São Paulo. Confesso que fiquei um pouco surpreso em Vê-lo ali, pois sempre achei que Você tinha coisas mais importantes a fazer pelo mundo do que estar em um mero show. Ainda mais sendo uma apresentação de um grupo que muita gente retardada chama de “demoníaco”, essas baboseiras todas. Foi bacana Te ver por lá.

É claro que também fiquei um pouco confuso ao vê-Lo disfarçado de tantas pessoas e coisas diferentes. Depois até que me acostumei, mas no começo foi duro acompanhar cada um de seus disfarces: o fã ansioso pelo show, o pai orgulhoso acompanhado do filho adolescente, a menina de cabelos vermelhos com a camiseta do Megadeth, o vendedor de cerveja que parou alguns minutos para assistir ao show e como qualquer integrante de uma das inúmeras caravanas vindas de todas as cidades do País. Ficou ainda difícil de reconhecê-Lo quando Você assumiu a forma de objetos aparentemente inanimados, como guitarras, baixos, baterias e microfones. Até mesmo a linda noite que Você propiciou, na esplendorosa iluminação e nos painéis de imagens em alta definição de palco eu consegui Te ver.  Foi difícil Te enxergar, mas eu sei que você estava lá…

Tá certo que achei que Você deu uma mancada na hora de ajustar o som da banda de abertura, que foi justamente o Megadeth, que sempre precisa de uma boa ‘equalizada’ para mostrar as nuances de sua fórmula sonora, cheia de solos e riffs complicados, e, principalmente, para tornar a voz do Dave Mustaine mais audível, já que ele insiste em cantar como um Pato Donald raivoso. O som estava muito embolado no começo da apresentação e não melhorou muito ao longo do curto show que os caras fizeram. Porra, Deus! Tinha hora que a apresentação parecia workshop de bumbo de bateria, pois era isto que soava mais nítido ali.

Ainda bem que a banda escolheu canções certeiras para o curto set list – “Hangar 18”, “Sweating Bullets”, “Symphony of Destruction” e até mesmo a nova “Kingmaker”. Mesmo assim, ouvi e li muitas reclamações das pessoas que ficaram na pista mais afastada do palco que o som estava muito, mas muito baixo, inclusive no show do Black Sabbath. Pô, marcar show em local aberto em que venta muito é sacanagem, né? Ok, foi apenas uma reclamação, mas eu tenho que fazê-lo, já que tenho uma “má fama” a zelar… Ah, e por falar nisto, trate de punir exemplarmente os “bandidos” que invadiram a área dos deficientes físicos, que tiveram que ser resgatados pelos bombeiros presentes, já que não havia um único segurança no local. Muita gente me procurou ao final do show para reclamar desse ato calhorda e covarde de inúmeros cretinos. Pau nesta turma, Deus!

E então veio o Sabbath…

Mais do que nunca, tive a certeza de que o grupo realmente criou aquilo que até hoje chamamos de “heavy metal”. E criou porque VOCÊ quis, é claro. Não dá para descrever em palavras a sensação de ver Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler juntos, lado a lado, secundados pelo extraordinário baterista Tommy Clufetos (ex-Ted Nugent, ex-Rob Zombie, ex-Alice Cooper). Quando as sirenes anunciam a primeira canção do show, “War Pigs”, o meu cérebro começou a escorrer pelas orelhas. Do meu lado, vi gente em estado quase catatônico, sem acreditar naquilo que estava vendo e ouvindo. Creio que as quase 80 mil pessoas não conseguiriam deixar de pular nem que fossem todas sedadas com calmante para búfalos…

Foi uma cacetada atrás da outra – “Into the Void”, “Snowblind”, “Under the Sun”, “Fairies Wear Boots”, a dobradinha “Behind the Wall of Sleep/N.I.B.” – com Butler extraindo sons inacreditáveis de seu baixo -, “Iron Man”, a subestimada “Dirty Women”, “Children of the Grave”… As músicas do mais recente disco, 13“Age of Reason”, “End of the Beginning” e “God is Dead” -, soaram muito bem ao vivo, o que prova o quanto esse álbum vai sobreviver à prova do tempo.

Vi que Você também esteve presente na “pegadinha do Malandro” que a banda pregou no público ao ameaçar tocar “Sabbath Bloody Sabbath”, mas emendar na antológica “Paranoid”. Sempre soube que Você é dono de saudável bom humor. Meio esquisito, às vezes, mas ainda assim engraçado, a ponto de ter transformado um troço quase sempre muito chato – solo de bateria – em algo absolutamente empolgante. É, o Clufetos mandou bem no meio da “Rat Salad”… Até mesmo o Ozzy estava cantando melhor do que vem fazendo. Tudo bem, ele desafina bastante em algumas canções, mas… Quem liga para isto em um show como esse?

Quando veio a inacreditável “Black Sabbath”, não pude deixar de lembrar o quanto fiquei assustado quando a ouvi pela primeira vez, aos dez anos de idade, na vitrolinha que ficava no meu quarto, a ponto de ter passado uma semana inteira dormindo com a luz acesa, morrendo de medo do barulho da chuva, dos trovões, do sino ao longe e DAQUELE riff de guitarra do Iommi. Ver este cara em cima de um palco, tocando absurdamente bem e sorrindo – pelo astral do show e pelas caretas e dancinhas ridículas que o Ozzy fazia olhando diretamente para ele – mesmo estando no meio de um tratamento de quimioterapia por conta de um linfoma é uma lição de vida para popstars cheio de “mimimis” e frescuras.

Não vou mais tomar o Seu tempo. Posso só dar um toque para alguns de seus “discípulos”? Alô, católicos e evangélicos ‘botocudos’! Como chamar os caras do Black Sabbath de “demoníacos” se a todo instante o divertidamente lesado Ozzy manda um “Deus abençoe vocês todos”? Vocês já leram e interpretaram corretamente as letras das canções do grupo? Que raios de “enviados de Satã” seriam eles? Vamos parar com esse papo uma vez por todas, né? Isto já encheu o saco… Desculpe pelo desabafo, Deus, mas esta turma que Você arregimentou é muito burra…

Enfim, foi muito legal perceber que Você esteve ali o tempo todo. Apareça mais vezes! Se estiver no pique, avise antes e eu armo um “pós-show” bacana em algum bar com uma turma de amigos, para bebermos algumas cervejas e darmos algumas gargalhadas com as Suas histórias. Você deve ter muitas, né? Liga aí. Você tem meu telefone… Abração!