O futuro da música não está nos serviços de “streaming”

Já reparou na quantidade de pessoas que cruzam com você nas ruas que estão absortas em seu mundinho com fones de ouvidos socados dentro das orelhas? Sim, é isso mesmo o que você está pensando: vivemos em uma época inédita na história da Humanidade, pois nunca tanta gente ouviu tanta música como nos dias atuais. Tudo bem que no Brasil a grande maioria das pessoas só ouve merda, mas aí é outra história. O ponto que eu gostaria de tocar com as minhas palavras e pensamentos é simples: até quando isto irá durar?

A questão surgiu como palavras virtuais diante de meus olhos quando terminei de ler uma série de matérias a respeito dos serviços de streaming no Brasil, principalmente em relação às estratégias que as empresas responsáveis pelo Deezer, Spotify, Google Play, Apple Music e Tidal estão encarando um mercado completamente diferenciado – e não necessariamente melhor – como é o nosso Brasil varonil.

Uma pesquisa mostrou que 73% dos brasileiros que têm acesso à internet usam o You Tube para ouvir música, comprovando o que todos nós já sabemos: usar a internet para ter acesso a qualquer tipo de música se tornou um comportamento social. Se por um lado isso levou a pirataria de CDs ser algo tão recompensador em termos financeiros quanto montar uma assistência técnica para consertar aparelhos de fax e pager, ainda falta encontrar uma maneira de remunerar o artista de uma maneira justa. Por enquanto, ele só se beneficia de quem ainda tem grana para comprar ingressos para os seus shows depois de ouvir os seus sons pela internet. Não acredito que tenha um só deles satisfeito com tal situação. Bem, cada um com seus problemas…

Não tenho dúvida de que o Brasil possa ser considerado como um mercado promissor para os serviços de streaming, mas daí a ser considerado como um produto de massa, popular, vai uma distancia muito grande. Duvido que as empresas consigam fazer um trabalho de “evangelização” para um público acostumado a dar ‘migué’ na hora de pagar por algum tipo de serviço. De maneira endêmica, somos o “país do gato”, da “gambiarra”. Triste, mas é a real…

Escrevo isto já sabendo que a coisa toda está por um fio, já que os serviços de streaming estão muito distantes de dar lucros para as empresas quer os controlam. Veja o caso do Spotify, que mesmo tendo um faturamento mundial de 1,1 bilhão de euros em levantamento recente, amargou um prejuízo de 165 milhões de euros. Ou mesmo do Rdio, um dos pioneiros deste sistema, que simplesmente deixou de existir de uma hora para outra porque não conseguiu obter qualquer tipo de lucro. Tempos atrás, o Deezer tentou arrecadar 300 milhões de euros com a venda de ações na Bolsa, mas teve que desistir assim que percebeu a hesitação dos investidores perante o valor de mercado da empresa.

Acredite: não há nada de animador neste tipo de mercado, por mais que muita gente diga que ele representa o “futuro”. Diga o nome de uma empresa que continua a trabalhar apostando em um mercado que só dá prejuízo? Pois é, o papinho “o mercado vai continuar a crescer, mas sem dar lucros” é coisa de quem acredita em elfos trocadores de moedas vivendo no fim do arco-íris…

Evidentemente, o que restou das gravadoras aqui no Brasil aposta neste tipo de segmento para ver se sobra um dinheirinho para manter suas respectivas estruturas por aqui. Todos os seus parcos funcionários, do presidente à faxineira, rezam toda noite para que o formato seja popularizado o mais rápido possível. O mesmo acontece com os artistas, mas todos eles sonham em ser MUITO bem remunerados por faixas isoladas, o que os desobrigaria de gravar álbuns inteiros.

Outro problema é que os artistas recebem algo que nem pode ser considerado como “esmola” ou “migalhas” – R$ 0,001 a cada reprodução -, mas para quem não ganhava absolutamente nada com a pirataria, já é alguma coisa. Ou não? Vai valer a pena esperar a vida inteira para receber uns poucos ‘caraminguás’? Melhor continuar apostando nos shows, pessoal…

De minha parte, continuo comprando CDs e LPs, admirando a arte gráfica das capas, lendo as letras, aquela coisa de velho. Vou acompanhar as “tendências do mercado” de streaming como um velho pescador observa um grupo de turistas que nunca viu um peixe vivo comprando varas e carretilhas em um supermercado: com tédio, resignação e curiosidade em saber onde vai dar tudo aquilo…

 

8 respostas

  1. Também não vejo o streaming como uma solução viável. Ok para o vídeo houve o fenômeno Netflix, o público assimilou e se acostumou a pagar um valor relativamente baixo para assistir a filmes e séries. Mas não vejo o mesmo acontecendo com música porque todo mundo já está habituado a não pagar nada, é como se não valesse a pena (e dependendo do gosto da pessoa não vale mesmo, pagar nem que sejam 2 reais por mês para entupir os ouvidos com lixo é dose). E mesmo para quem é aficionado por música um Spotify não é o ideal pois apesar de ter muito conteúdo ainda falta muita coisa (assim como o Netflix também não tem TUDO). Talvez a Era das gravações em estúdio esteja realmente chegando ao fim, ganhando uma sobrevida como mero pretexto para a real fonte viável de renda que você apontou em seu texto, os shows.

  2. Muito bom texto, Régis .Comparo os consumidores de música de streaming, com adolescentes famintos por fast-food, parecendo cães gulosos, engolindo suas comidas sem saboreá-las, enquanto ” velhos” como eu e você, que compram Discos e Cd’s, podemos ser comparados à pessoass que apreciam, além do sabor do alimento, seu aroma e toda experiência envolvida na refeição. Abraços .

  3. “De minha parte, continuo comprando CDs e LPs, admirando a arte gráfica das capas, lendo as letras, aquela coisa de velho.” Faço minhas as suas palavras Régis. Gosto de levar meus CDs ou DVDs do momento e curtir entre um trajeto e outro de carro ou em casa mesmo com uma bela cerveja artesanal. Até uso o Spotify (versão gratuita) para uma ocasião ou outra, mas pagar streaming jamais.

  4. Tem suas vantagens e desvantagens… A maior vantagem é que o streaming é ecologicamente correto, enquanto produtos como Cds , LPs, que geralmente vem em embalagens, não são… CD no Brasil ainda é muito caro, não são todas as pessoas que possuem condições de comprar!

  5. O pior de tudo é que, apesar de todos os percalços que o mercado de CDs sofreu na época dos CDs piratas, o valor dessas mídias nunca baixou o suficiente para serem acessíveis. Ainda hoje o preço de um CD é muito caro, apesar de ser considerado um produto não muito atraente para o público atual.

  6. Muito bom texto Régis!
    Assim como você, eu também sou colecionador, a diferença é que os meus álbuns eu compro tudo da Google Play Música, pois hoje em dia é muito difícil encontrar cd e vinyl aqui no Brasil infelizmente.
    Atualmente eu tenho 470 álbuns, do hard rock ao black metal oitentista, além de algumas bandas de grunge. Pois eu prefiro comprar, ao invés de ser assinante da Spotify.

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