Eu conheci seu trabalho no meio dos anos 80, quando caiu em minhas mãos o álbum Luis Vagner, lançado originalmente em 1976. Foi um êxtase ouvir aquela incrível mistura de rock com samba. E até hoje estou atrás dos dois álbuns anteriores, Simples (1974) e Coisas e Lousas (1975), e do posterior, Fusão das Raças, de 1979! Uma hora eu os encontrarei…

Gaúcho de Bagé, Luis Vagner se tornou conhecido da minha geração justamente pela alcunha de “guitarreiro” – uma das melhores faixas daquele álbum de 1976 – e por ter sido um dos grandes criadores do “samba-rock” com altas doses de reggae, juntamente com Bebeto e Jorge Ben ao lado do Trio Mocotó. Sua importância era tão grande que o próprio bem compôs “Luis Vagner Guitarreiro” em homenagem a ele, gravada em seu álbum Bem-Vinda Amizade, lançado em 1981, cuja turnê teve o homenageado na tradicional Banda do Zé Pretinho como baixista.

Durante a Jovem Guarda, além de ter suas próprias bandas – Os Brasas e Os Jetsons, ambas com o baixista Franco Scornavacca, que anos depois se tornou o pai dos caras do KLB e empresário do Zezé Di Camargo & Luciano -, acompanhou os artistas que iam aos programas de TV da Tupi e compôs com seu parceiro Tom Gomes um monte de músicas para um punhado de gente – como a ótima “Sílvia 20 Horas Domingo”, para Ronnie Von; “A Moça do Karmanguia Vermelho” para Os Caçulas; “Pantera” para Lady Zu – e era admirado por todos que compareciam aos seus shows nas boates d e São Paulo, onde exibia sua destreza como guitarrista de soul e rhythm n’ blues tocando – com guitarras especialmente fabricadas para ele por luthiers da época – e cantando um repertório americano de fina categoria. Foi essa experiência que levou Luis a gravar com vários artistas: Eduardo Araújo, Deno & Dino, Cely Campello, Demétrius, Sérgio Reis e quase todo o cast da Odeon.

Em 1970, com o fim dos Brasas, Luis foi para o Rio de Janeiro, lançou dois compactos que ninguém deu bola e se tornou produtor da Continental e RCA Victor em LPs de Rosinha de Valença, Os Diagonais e até Rosemary. Chegou a ter uma banda Raul Seixas – antes de ele estourar com “Ouro de Tolo” – e Leno, mas o projeto durou apenas o suficiente para fazer um único show, perdido na memória de seus integrantes e provavelmente ainda vívido na memória de quem presenciou.

Sua veia como compositor de sucessos voltou a aflorar quando três de suas obras estouraram nacionalmente: “Vou Pular Neste Carnaval” com Eliana Pittman (1972), “Camisa 10” com Luiz Américo (1974) e “Espelho Mágico” com Silvio Brito (1975). Outro enorme sucesso foi “Como?”, inspirada pela paixão por uma linda “chacrete”, Glória Maria Aguiar, a “Índia Poti”, gravada pelo cantor pernambucano Paulo Diniz em 1974.

Dono de otimismo contagiante por conta de sua imersão nos ensinamentos budistas e “rastafarianos”, ele foi embora do Brasil em 1989 depois de perder um de seus melhores amigos, o cantor/percussionista/ compositor paulistano Branca Di Neve. Conseguiu logo de cara participar do Festival de Jazz de Viena com músicos brasileiros que foram com ele, na mesma edição do evento com B.B. King, Albert King e Herbie Hancock. Quando voltou ao Brasil tempos depois, continuou lançando discos que passaram despercebidos tanto dos críticos como do público por problemas de distribuição. Uma pena.

Fiquei sabendo que ele morreu ontem, aos 73 anos, vitimado pelas sequelas de dois AVCs, logo depois de ter lançado no ano passado seu último disco com canções inéditas, Samba, Rock, Reggae, Ritmos em Blues & Outras Milongas Mais. Que tristeza…

Se você quer entender o meu entusiasmo pela obra dele, basta clicar abaixo e ouvir na íntegra o LP que me cativou: