O que matou Karen Carpenter pode te matar também!

karen carpenter

Pegando o mote da paixão que uma das mais queridas associadas do meu Grupo Secreto no Facebook, Sonia Maria Bonfiglioli, sempre faz questão de exaltar lá pelos Carpenters e, principalmente, pela saudosa Karen Carpenter, resolvi escrever a respeito de um tema terrível dentro do show business: a ditadura do corpo perfeito.

Para quem não se lembra, décadas atrás todo mundo que adorava a dupla formada por Karen e seu irmão Richard – eu incluso – ficou pasmo com a notícia da morte dela. Era impossível aceitar naqueles tempos que alguém, cantora magnífica e baterista talentosa de uma das mais bem sucedidas duplas do universo pop mundial, tivesse morrido por causa de algo denominado “anorexia nervosa”. Foi exatamente o caso dela que fez com que essa doença de natureza psiquiátrica se tornasse conhecida por todos nós. Eu jamais poderia imaginar – e ainda não imagino – o grau de sofrimento, dor e tristeza dela, que a levou a morrer com apenas 32 anos e pesando 35kg.

O que levou Karen a desenvolver essa doença? Foi algum tipo de “gatilho”, se é que houve algum? A imprensa americana da época pegava no pé dela em relação aos seus quadris? Foi a maluquice controladora que havia na família dela? Foi a pressão causada pela absurda agenda de compromissos, shows, gravações de discos, especiais de TVs? Até hoje eu não sei, mas sei que muita gente famosa depois dela veio a público dizer que passou horrores com o mesmo problema: Demi Lovato Alanis Morissette, Geri Halliwell (ex-Spice Girls) a atriz Christina Ricci. Aqui no Brasil, Cássia Kiss e Isabella Fiorentino fizeram a mesma coisa, pelo que me lembro no exato momento em que escrevo estas mal traçadas linhas. E como esquecer a quantidade de gente que metia o pau na Adele por ela ser… gorda? Um absurdo total!

Vou arriscar um palpite a respeito do que pode causar esse tipo de problema, o tal “gatilho”: para mim, é a absurda pressão que existe em TODOS NÓS – sim, isso mesmo, todo mundo, famoso ou não – para obedecermos a certos padrões estéticos ditados pela mídia. Faço uma ideia da enorme gama de estragos que esse tipo de “ditadura” causa na cabeça da molecada, de quem é jovem e mesmo adultos nos dias de hoje. Não me venham com o papinho “as pessoas fazem exercícios para ter vida saudável” porque ninguém dá bola para quantidade de colesterol, a não ser aqueles que foram alertados pelos médicos de que vão morrer se não reduzirem essa bagaça. Chega de hipocrisia! Todo mundo pensa em ficar “magrinho”, com a “barriguinha chapada”, com “corpinho em cima” para impressionar o mundo ao seu redor, principalmente em termos de “safári sexual”! É por isso que toda hora surgem estapafúrdias e perigosíssimas “receitas milagrosas para emagrecer”, que só gente de miolo mole segue sem questionar.

Pegue o exemplo do mercado fitness para quem se julga “elite”. Como de uns anos para cá, antes da pandemia, a população teve acesso a moda, bens de consumo e viagens, que se tornaram um pouco mais acessíveis à classe média no Brasil, essa turma esnobe e pseudoendinheirada tratou de se diferenciar da “ralé” criando suas próprias musas fitness, seguidas por milhões de retardadas a ponto de se tornarem “celebridades” para débeis mentais.

É por isso que a cada dia que passa surgem mais e mais pessoas desafiando essa corrente imbecil, com um discurso de positividade em relação ao corpo, com menos ódio e rejeição e mais amor próprio. Lembro certa vez que a atriz Samara Felippo postou foto de sua barriga ao natural e foi celebrada e criticada ao mesmo tempo por ter atitude que seria impensável há alguns anos, quando atrizes e modelos tinham que manter um padrão único de beleza. É preciso mostrar de verdade que não existe uma só possibilidade de corpo e não é preciso seguir um só modelo ou se submeter a “fabriquinha de shape sarado”.

Ainda há muito a se conquistar em uma terra em que mulheres “fora dos padrões de magreza” continuem a ser humilhadas e massacradas diariamente somente por existirem, principalmente se tiverem a “ousadia” de aparecer de biquíni ou lingerie. Tudo passa pela valorização da autoestima, que nada tem a ver com a “beleza estética” e sim com cair fora de um relacionamento abusivo, se rebelar contra assédio moral no trabalho, entender e reconhecer seu próprio talento, sem “autossabotagens”, adquirir autonomia e autoconfiança em todos os âmbitos de sua vida. Exatamente o que Karen Carpenter nunca teve, como bem lembrou a blogueira Flávia Durante, cujo texto publicado anos atrás me inspirou a escrever a respeito disso hoje. Obrigado, Flávia e Sonia!

Pense nisso…

15 respostas

  1. Grande Regis, MBLife aqui! Saudações de SC. Concordo que estamos atravessando tempos sombrios no que tange à saúde psíquica (e, obviamente, física) das pessoas, independe da geração (e seus famigerados rótulos), ainda mais quando o assunto diz respeito à combinação desastrosa “saúde + estética + tendências”. Temos mídias sociais, toda uma indústria (da moda aos fármacos) e profissionais da área da saúde que não colaboram nem um pouco com a sanidade mental social… Mas, sem demais delongas, te sugiro assistir um filme lançado em 89 pela emissora CBS chamado “ The Karen Carpenter Story” (infelizmente não saiu por aqui esse “made for tv”) que conta com detalhes o drama da querida artista. A própria mãe dela boicotou o roteirista da obra, pois não concordava com os fatos narrados que associavam o distúrbio alimentar da filha com negligências e imprudências da própria família. Na época, passou batido e a mídia não deu ênfase à carência afetiva de Karen por sua mãe Agnes. Em um livro do autor Randy Smith, ele relata com mais detalhes as atitudes controladoras e estressantes de Agnes. O distúrbio, segundo Randy, começou por volta de 73 quando Karen ficou impactada com suas fotografias de adolescente, da época em que era gordinha. Agnes “batia de frente” com o empresário Sherwin Bash, q achava q Karen estava esquelética. Em diversas passagens, a mãe da artista sempre a prejudicou física e psicologicamente, ora sendo negligente (um amigo da família sugeriu uma dieta de recuperação que havia lido no Reader’s Digest, mas Agnes, mais uma vez, boicotou Karen e o impediu de mostrar para ela!). Dizem q o tiro de misericórdia foi qdo Agnes praticamente obrigou Karen a casar: ela queria cancelar a cerimônia matrimonial quando descobriu que seu cônjuge havia omitido o fato de ter feito vasectomia (o sonho da artista era de ser mãe!). Enfim, uma triste história com um final trágico que mostra que, há sim muita pressão profissional e social por um “físico ideal”, principalmente no meio artístico, mas há disfunções familiares e educacionais que corroboram para potencializar a vulnerabilidade das pessoas aos efeitos nefastos dessas pressões!! Grande abraço

      1. Grande Regis, assisti esse filme através da plataforma de streaming NIGHT FLIGHT PLUS (nightflightplus.com). Não sei se ainda está disponível por lá, mas é um site de stream mto interessante para quem curte cultura pop e obscura dos anos 70 e 80. Muitos documentários raros de bandas punk, new wave, além de programas de tv da época e filmes feitos para a tv! Grande abraço

  2. Boa tarde! Texto ótimo, concordo com você. Vou falar por mim, quando você é nova e engorda está grávida, se emagrece está doente. A própria família interfere e muitas vezes causa dúvidas, porque falam muitas vezes sem que a gente queria saber a opinião delas, isso sem contar comentários maldosos de pessoas do nosso convívio. Ainda tem outro fator que depois de uma certa idade, nosso corpo não é o mesmo, e isso também acaba virando motivo de piadinhas desagradáveis, sem contar que a maioria dos homens, preferem desfilar a tira colo com mulheres troféus, que tenham corpo escultural. Existem outros que pensam diferente, mas infelizmente é uma minoria. Tem dia que me olho no espelho e fico bem, mas nem todo dia acordo bem. Um simples comentário pode levar a um desfecho muito desagradável, e algumas vezes pode ser fatal. Até hoje escuto as músicas dela, foi uma pena o que houve com ela, mas de alguma forma pode servir de alerta. Espero que em algum momento as coisas possam melhorar.

  3. Excelente texto sobre uma cantora maravilhosa, para dizer o mínimo.
    Podia ter feito muito mais sucesso, inclusive em carreira solo, se não fosse frágil, tivesse autoconfiança e autonomia.
    Como a ascensão do punk rock na segunda metade da década de 70, eles perderam um pouco o rumo e os álbuns foram
    perdendo sabor, diminuindo em hits, apesar de meia dúzia serem simplesmente inesquecíveis e grudar no cérebro como
    “There’s a Kind of Hush”, por exemplo. Faltou a eles um ótimo empresário que pudesse orientá-los quanto ao rumo para
    que pudessem inclusive ganhar outros ouvintes, além daqueles para músicas suaves e românticas, como eram conhecidos.
    Gosto de ver artistas se reinventando, lançando novidades marcantes, estou certo que eles ainda lançariam grandes hits,
    mas o sonho acabou, infelizmente.
    A trilha sonora de um comercial de tv se tornar uma música espetacular como “We’ve Only Just Begun” é algo notável, surpreendente, Richard Carpenter tinha dom para melodia fora do comum e a banda funcionava numa harmonia incomum.
    Cada integrante trocando fraseados inesquecíveis. Depois que comecei ouvir essa banda, conhecer cada álbum, me encantar
    como a voz, o charme, o talento na bateria de Karen Carpenter e assistir a vários shows, se tornaram atemporais, para mim.
    Obrigado Regis por se lembrar de uma moça tão linda quanto sensível, mas no sentido na fragilidade, infelizmente.
    Poderia por favor fazer um comentário sobre os grandes álbuns deles via youtube? Aguardo mais que ansioso!

    1. Bom dia.
      Sabe Regis, sempre fui muito negativo – considerando ser realista – e mamãe que não está mais comigo, desde 21/05, me chamava “Zé da Broca”. O livro indicado “Livro dos Insultos” deu muito trabalho para minha preguiça, mas me identifiquei demais como vários pontos de vista do autor. Já tentei suicídio duas vezes com comprimidos para dormir, mas fui salvo por ela e vivemos tempos onde esse índice é muito grande graças à angústia e falta de perspectivas no futuro que muitas pessoas têm.
      A coisa que mais gosto na vida é música e meu programa favorito é acompanhar suas postagens ou no youtube, ou ler seus textos aqui no blog. Inclusive, tenho minha cachaça única que foram entregar no serviço. Perguntado sobre quem indicou, ou como soube dela, disse que acompanho seu youtube e fiquei motivado a conhecer. Desejo o maior sucesso à você, que cada vez mais seguidores sejam conquistados e música de qualidade não morra jamais, o que tenho imenso medo, pois onde busco paqueras, tinder, o mau gosto (sertanejo, axé, pagode e pseudos gêneros feitos por famosos superficiais) é predominante e me revolta profundamente. Para mim, é difícil encontrar roqueiras, ou alguém com o mínimo bom gosto. Velhos tempos quando eu ia na galeria do rock dar um rolê, fazer rolos, encontrar pessoas, tomar uma breja, ou até mesmo quando ia a shows e saia quase surdo.
      Sua opção por não ter ninguém, muito menos filhos, para mim, serve como grande opção e estímulo.
      Quisera que o mundo fosse equilibrado, não devastassem natureza, não extinguissem espécies,
      mas tudo caminha para a direção oposta, onde apenas o ser “humano” tem valor.
      Desejo à você prosperidade e sucesso sempre.

        1. Bom dia Regis, tudo bem?
          Dia 22 de Junho, o Álbum “A Song for You” dos Carpenters completa 50 anos e, entre os 6 primeiros, é excelente, parece coletânea de tão bom com a faixa título, “Top of the World”, “Hurting Each Other”, “Goodbye to Love”, “I Won’t Last a Day Without You”, etc. Estou na maior expectativa quanto ao que iria dizer sobre o segundo álbum deles, “Close to You”, e a influência no primeiro e preferido álbum do Queen, o primeiro que abre com o melhor riff deles para mim, “Keep Yourself Alive”, e cada faixa seguinte é espetacular.
          Comprei para experimentar o Bourbon Jim Beam, gostei muito, mas não é tão bom quanto a Cachaça Única.
          Será que haveria a possibilidade de colocar aqui a opção excluir comentário por favor?
          Em seu último blog, escrevi vários textos sem referência ao que você escreveu.

          1. Oi, Renato.
            O A Song for You é um discaço mesmo. Vou pensar em sua sugestão.
            Sim, a Cachaça Única é insuperável.
            Fique tranquilo. Se algo me incomodar, eu mesmo excluo.
            Att,

  4. Muito bom Régis. Todos os anos vemos casos absurdos de mulheres lindas que em nome dessa ditadura, se submetem a procedimentos cirúrgicos em açougueiros travestidos de médicos para alcançarem por meios duvidosos, o que naturalmente é impossível. Conheço uma dupla, de mãe e filha, que se submeteram a procedimentos estéticos e as duas têm o mesmo formato de “beleza” pré-moldada. Não sei o que é mais absurdo, a mãe parecer uma adolescente ou a filha parecer uma adulta, não tendo alcançado sequer a maioridade. Casos bizarros como esse, acabam descaracterizando não apenas o físico mas também o psicológico, e contribuindo para a construção de uma sociedade imbecilizada e cada dia mais uniforme, nivelando por baixo o perfil de maturidade e auto aceitação. Triste fato!

  5. Belo texto!!!! Lembro que na época da morte dela foi um tremendo choque!!!! Uma mulher bonita,com uma voz angelical,não dava para acreditar. Essa doença talvez seja similar a depressão, vai te matando aos poucos. E muito triste ver uma pessoa definhando do jeito que foi. Karen. Resta apenas a saudade e suas lindas interpretações.

  6. Régis, muito bom o texto e muito obrigado a colega Sonia pela ideia do texto sobre a grande Karen Carpenter, e é só comparar as duas fotos para ver o quanto ela era linda na foto da esquerda e não precisava ter chegado ao ponto que chegou na foto da direita…

    E dos trabalhos da dupla, de qual (ou quais) você gosta mais?

  7. Meu Caro amigo, na época desse seu belísssimo texto esqueci de agradecer por citar minha paixão, sim Karen e sua voz sempre estarão em minha vida, pena ter morrido por coisas que nós, mulheres, batalhamos a vida toda, o corpo perfeito.

    abraço fraterno

    Sonia Bonfigloli

  8. Oi Régis, tudo bem?
    Parabéns pelo artigo bem escrito , empático e inteligente.
    Neste momento, ainda não saberia como analisar se a pandemia trouxe um hiato/pausa para a loucura coletiva da indústria da magreza ou se intensificará o mecanismo consumista de fórmulas milagrosas de emagrecimento (poções mágicas de laboratórios oficiais a fabriquetas em porões de sobrados insalubres), que se desdobram em milhares de outras indústrias mais.
    Conhecer a si mesmo ainda é a melhor viagem que podemos fazer para segurar a barra de enfrentar dragões e demais monstros diários que nos aparecem tentando nos fragilizar quando não matarnos: é o peso, é a pele, é a unha, é o corpo, é o dente, é o tamanho dos seios, dos glúteos, do pênis… o carro, a casa, a roupa, o celular, o notebook, os móveis (…) afetando até o lazer.

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