Há muito tempo julgo ser indispensável resgatar alguns discos do passado para alcançar um dos objetivos mais importantes de meu trabalho: mostrar aos seus filhos – sim, eles mesmos! – que a música brasileira em particular não é aquilo que ele ouvia na escola com seus amiguinhos antes que a pandemia botasse todo mundo para dentro de suas próprias casas, Por mais incrível que isso possa parecer, tenho recebido mensagens cada vez mais constantes de pais agradecendo pela iniciativa, pois em tempos de streaming e confinamento social, muito retomaram um antigo hábito: ouvir música juntos, em família.

Se eu tivesse pensando unicamente em obter audiência, jamais escreveria a respeito de Sylvia Telles e de seu espetacular Bossa Balanço Balada, como faço aqui neste exato momento. Poderia abordar qualquer outra coisa mais “moderna”, mas me sinto impelido a mostrar a uma nova geração – e a você também que me lê neste momento – que Sylvia foi a musa do grupo que “inaugurou” a bossa nova no final da década de 50, sendo uma das primeiras a gravar composições de um jovem chamado Antonio Carlos Jobim, acompanhada de um “conjunto bossa nova” quando o termo jamais havia sido ouvido até então.

Com uma voz “fora da curva” para os padrões do rádio na época, Sylvia foi capaz de deixar desconcertados todos os especialistas que tentaram rotular algumas de suas canções – no passado, os discos vinham com o gênero impresso nos selos dos discos, abaixo do título -, pois era impossível dizer, por exemplo, que “Foi a Noite”, parceria entre Jobim e Newton Mendonça que ela gravou em 1956, era um samba, um bolero ou um fox. Não era nada aquilo que era comum naqueles tempos e sim uma antecipação de uma “nova bossa”.

 

Já famosa por conta dos discos gravados pela Odeon – Carícia (1958) e Amor de Gente Moça (1959) -, Sylvia iniciou a aproximação com aquele estranho tipo de som cadenciado quando passou a gravar pela Phillips. No disco Amor em Hi-Fi (1960) ela já tinha gravado um medley com standards americanos – “All the Way/The Boy Next Door/They Can’t Take That Away From Me” – e não teve dúvida em aceitar que a gravadora montasse um time americano de músicos de primeira grandeza na hora de gravar nos Estados Unidos o disco Sylvia Telles USA (1961). Quem recusaria ter o guitarrista Barney Kessel, o pianista Calvin Jackson e a Orquestra de Bill Hitchcock em seu disco? Ninguém em sã consciência.

 

Tudo isso que escrevi serve para contextualizar o prazer que você e sua família terão ao ouvir Bossa Balanço Balada, gravado originalmente em 1963 e que recebeu um caprichado relançamento remasterizado em 2002. Não há como ouvir esse disco – o primeiro lançado pela gravadora Elenco, do seu então marido Aloysio de Oliveira – sem pensar no vanguardismo de Sylvia ao dar um eclético tapa com luva de pelica no lugar-comum musical daquele tempo. Isso fica evidente com a presença de “Ilusão à Toa”, de Johnny Alf, que já havia chamado a atenção anos antes por suas sofisticadíssimas harmonizações. A cantora deu a esse clássico do amor unilateral e desesperançado uma interpretação de cair o queixo e fez o mesmo na faixa que encerra o disco, “Dorme”, composta pelo posteriormente famoso Ronaldo Bôscoli com o primeiro marido dela, o ótimo violonista Candinho.

 

 

Sylvia colocava tanta emoção em suas interpretações que em uma das faixas do disco em questão, “Amor em Paz”, é possível notar pequenos soluços na voz embargada pelo choro registrada na gravação. Tudo reforçado pelos espetaculares e dramáticos arranjos do lendário maestro Lindolfo Gaya, um mestre do uso da tensão mesmo nos temas mais suaves – ouça isso logo na primeira faixa do disco, “Rio”, composta por Roberto Menescal e o já citado Bôscoli -, um contraponto à delicadeza do arranjo do igualmente cultuado Moacir Santos na clássica parceria entre Tom Jobim e Vinícius de Moraes, “Insensatez”.

 

 

 

Depois de lançar mais alguns belos discos pela Elenco, a carreira de Sylvia foi tragicamente abreviada em 1966, quando ela morreu em um acidente de carro. Deixou como legado musical discos brilhantes, dos quais este Bossa Balanço Balada é uma obra-prima.

Experimente reunir a família e fazer uma audição coletiva, prestando atenção a cada detalhe. Garanto que será uma experiência inesquecível…