Não sei onde você mora, muito menos se havia um local no você poderia encontrar todos os tipos de filmes para locação, principalmente aquelas obras primas mais obscuras e mesmo produções mais radicais, conhecidas apenas por meia dúzia de malucos. Aqui em São Paulo havia…

Acredite se quiser: uma pequena rede de locadoras de DVDs resistiu bravamente com a chegada dos tempos de plataformas digitais, Netflix, telefones celulares que substituíram os computadores e outras modernidades que hoje parecem tão presentes nas vidas das pessoas que quase todo mundo acredita que sempre existiram.

Cada loja da 2001 era diferenciada porque tinha um artigo raro hoje em qualquer tipo de estabelecimento: gente que entendia muito bem a respeito de cada produto oferecido. Os funcionários manjavam muito de cinema – era uma condição básica para ser contratado – e tal boa formação cultural fazia com que a gente se sentisse “cúmplice” daquele negócio. Os locais eram encontros de cinéfilos vorazes, daqueles para quem o cinema independente, “de arte”, era a genuína fonte de emulsão cultural que movia este planeta lindo e miserável. Sim, os filmes do estoque da 2001 não eram aqueles disponíveis nos “netflix da vida” nos dias atuais.

A rede 2001 ficou no mercado por longuíssimos 33 anos, uma eternidade para os padrões atuais de contagem temporal de sobrevivência. As duas últimas lojas físicas fecharam em 2015 e fizeram liquidações de seus estoques na época. Eu mesmo fiz uma “rapa” considerável. Prometeram que iriam funcionar apenas como uma “loja virtual” que comercializaria apenas títulos novos. Ou seja, o negócio acabou já no anúncio do que iriam fazer. O mais incrível é que o último prego no caixão só foi batido no final de março passado…

O que a pirataria deixou de destruir foi literalmente esmagada pela popularização dos serviços da Netflix e até mesmo do Now. Junte tudo isto ao estado de abandono em que se encontra o Brasil em termos econômicos e o quadro trágico se completou.

Aposto com você que um negócio como a 2001 só durou tanto porque seus proprietários acreditaram até o fim que havia uma saída, que surgiria alguma opção que poderia oferecer uma nova estratégia dentro dos padrões recentes de comércio. Cometeram um terrível engano ou foram iludidos por um novo público, pasteurizado, que não presta mais atenção a nada, que passa seu tempo escrevendo merda nas redes sociais em vez de sentar em casa em frente à TV e assistir a um bom filme?

Hoje isso não tem mais a menor importância…