Na época, ninguém entendeu nada. Era olhar para a capa e se perguntar “Que porra é essa?” Ali estava ninguém menos que David Bowie, barbado e muito elegante dentro de um terno preto, ao lado de outros três cavalheiros, dos quais não fazíamos ideia de quem eram em um primeiro momento. Em 1989 ainda não havia internet, muito menos Google ou outras maneiras de buscar informações a respeito daquilo. Tempos difíceis para se informar…

Na ficha técnica, dois nomes eram bastante familiares para quem acompanhava a discografia de Iggy Pop: o baixista Tony Sales e seu irmão baterista Hunt, conhecidos por suas participações no lendário Lust for Life (1977). Era garantia de porrada no som, pelo menos. Mas quem era o terceiro sujeito daquele quarteto?  E que “catso” fazia ali o Bowie naquele Tin Machine?

A resposta surgiu nos meses subsequentes ao maio daquele ano. Era a nova banda de Bowie, sem o seu nome em destaque, com os irmãos Sales na cozinha rítmica e um guitarrista até então desconhecido de todos por aqui, o americano Reeves Grabels, ex-integrante de um tal Rubber Rodeo. Teoricamente, Bowie havia se colocado apenas como mais um integrante de um novo grupo. Mais uma esquisitice ou outra grande sacada dele?

Para a grande maioria dos críticos “descolados” da época, foi um erro absurdo; para os fãs, foi apenas uma maneira que ele encontrou para fugir de algum tipo de tédio. Para mim, não foi nada disso. Muito pelo contrário! Eu talvez tenha sido a única pessoa no planeta que ouviu o disco de ponta a ponta de joelhos, adorando cada faixa como se fosse uma junção de pequenos baús cheios de pérolas preciosas dentro de uma enorme arca velha, só que pintada para parecer nova.

Enquanto escrevo este texto, o álbum está rodando ao meu lado, três décadas depois de seu lançamento, e não envelheceu um segundo sequer. Continua tão brilhante e injustiçado como sempre foi. Hoje eu entendo o que motivou Bowie a dar uma guinada tão inesperada na carreira: justamente o tédio que sentiu depois da turnê do álbum Never Let Me Down, a malfadada Glass Spider Tour, superproduzida com aranha de acrílico gigantesca, ‘trocentos’ bailarinos e com peter Frampton na guitarra solo. Bowie estava incrivelmente confuso com seu sucesso nos anos 80, desencadeado pelo estouro estrondoso de Let’s Dance. Por conta de sua personalidade, ele precisava atravessar um campo minado para se reencontrar consigo mesmo. Respirou fundo e foi em frente com seus comparsas.

O disco é uma sucessão de faixas sensacionais, pesadas e distantes de qualquer coisa que Bowie tivesse feito anteriormente. Tudo soava de modo agressivo, sujo, distorcido e intenso, desde o blues rock totalmente influenciado por Led Zeppelin e Stray Cats ao mesmo tempo que ainda hoje é “Heaven’s in Here” até a quase homenagem a Lou Reed e ao seu álbum Sally Cant’ Dance na linda e intensa “Baby Can’t Dance”. No meio do caminho, há pauladas como a anti-racista “Under the Dog”, uma descabelada faixa-título, uma linda balada rocker que estraria faixa em um disco do Robin Trower (“Amazing”) e uma soturna e esquizofrênica pérola, “I Can’t Read”. Para tornar tudo ainda mais saboroso, Bowie tascou uma versão pesada e suingada de “Working Class hero”, de John Lennon, em um brilhante exemplo de como pegar uma canção icônica, virá-la de cabeça para baixo e deixa-la tão interessante quanto a original. Como era possível tanta gente meter o pau em um disco tão brilhante?

Trinta anos depois, a explicação ainda é simples: ninguém queria saber de um “Bowie roqueiro”. Críticos e boa parte do público jamais perdoaram seu ídolo por ter abandonado a sua genialidade icônica e transgressora para se tornar apenas o vocalista despudoradamente “macho” de uma banda, como qualquer um de nós um dia poderíamos ter sido, sem qualquer traço da sua sempre celebrada ambiguidade sexual. Que babacas…