O machismo na indústria musical e na vida diminuiu, mas continua lá, entrincheirado, cercado pelos novos tempos em que as mulheres, merecidamente, alcançaram conquistas até então inimagináveis décadas atrás. A tendência é desaparecer, muito figurão como o nojento Harvey Weinstein vai cair, mas será em longuíssimo prazo. Falta muito ainda, mas se tivermos um mundo de igualdade, respeito e equiparação salarial entre homens, mulheres, transgêneros e o que mais existir, já é um bom começo. Só que não é esse o assunto aqui. Quero escrever a respeito de… Madonna.

No princípio, era apenas a imagem de uma garota que dizia saber o que queria em um universo totalmente dominado por homens babões. Sabia ser bobinha e esperta ao mesmo tempo em “Borderline”, alegre e juvenil em “Holiday”, esperançosa em encontrar seu amor sem baixar a guarda em “Lucky Star”… E sabia também, desde o início, que sexo era uma mercadoria que se vendia fácil – tanto que ainda hoje é assim -, mas Madonna usou as regras do jogo da indústria para passar suas mensagens.

Madonna elevou a autoestima das garotas em todo o planeta em busca da tão sonhada independência? Não tenho dúvidas disso. Nem que para isso tivesse que ser sexy e aparentemente “disponível” para o macaréu do show business. Deve ter feito suas concessões, sabe-se lá quais, para chegar onde chegou quando começou a dar seu recado para todas as garotas em “Express Yourself”. Foi quando decidiu que soltar canções manifestando o direito de ser dona do seu próprio nariz, mesmo nas entrelinhas de seus versos, só teria efeito de a sua postura artística exemplificasse tal pensamento. E assim ela fez e vem fazendo ao longo da carreira.

Madonna soltou canções pop sensacionais. “Like a Virgin”, que Quentin Tarantino diz ser o relato de uma garota que encontra o maior pau que viu até então, que a faz sentir como se fosse uma virgem novamente; “Material Girl” e seu explícito desejo de se aproveitar da grana dos homens; “Into the Groove” e a celebração da felicidade em dançar sozinha em seu quarto; “Human Nature” e sua resposta contra a caretice; “Music” e sua mensagem de desinibição; a deliciosa “Beautiful Stranger” em seu revivalismo psicodélico… Tem um disco inteiro que é simplesmente primoroso em sua discografia, que é Ray of Light. Não é pouca coisa…

Agora, ao comemorar seis décadas de vida, Madonna pode se orgulhar de ter mudado a cabeça de muita gente com suas mensagens de “empoderamento”, mesmo abusando de exemplificar tudo com a sua imagem. Em contrapartida, foi a fonte de inspiração para 90% de pseudoestrelas imitadoras – de Lady Gaga a Miley Cyrus, de Kylie Minogue a Kate Perry, de Britney Spears a Rihanna, de Jennifer Lopez a Nicki Minaj, de Shakira a Kesha -, mas esse é o preço da superexposição midiática.

Com suas canções e sua postura, Madonna mostrou que as mulheres devem se permitir tudo. Tudo mesmo! Inclusive, fantasiar a respeito de submissão sexual a um amante ricaço chegado num sadismo light, como o sucesso do pavoroso livro Cinquenta Tons de Cinza mostrou. Concordo com ela. O corpo da mulher pertence a ela e cada uma faz o que bem entender com ele. Ponto pacífico. Não se discute isso. Deveria ser o “Artigo 1” de qualquer Constituição. Talvez provoque urticárias nas feministas mais radicais justamente por causa disso…