Pode parecer incrível para a molecada dos dias atuais, mas houve uma época no mundo, em um passado não tão distante, que uma determinada informação levava meses para circular entre as principais capitais do mundo. Quando o assunto era “música” então, alguns fatos sequer chegavam onde deveria interessar.

Um dos maiores exemplos disto é a discografia dos Beatles, uma das bandas que mais sofreu com a enorme distância geográfica e, principalmente, comercial entre a Inglaterra e os Estados Unidos na década de 60.

Quando a banda estourou em todo o Reino Unido, os executivos da gravadora EMI, que detinha o passe dos quatro rapazes de Liverpool, logo trataram de licenciar os discos para o mercado americano por intermédio da Capitol. O problema é que isto foi feito não em relação a um álbum como um todo, fechado, e sim canção por canção, para que cada música pudesse ser lançada em compactos diferentes para o mercado americano, facilitando a escolha de determinadas músicas para tocar nas rádios de lá. Isto acabou gerando uma confusão sem precedentes para os colecionadores e para o público em geral.

O que acabou acontecendo foi uma total mutilação de grande parte dos álbuns originais lançados na Inglaterra. De nada adiantaram as inúmeras horas gastas com discussões entre os integrantes do grupo e o lendário produtor George Martin a respeito de qual a melhor ordem de músicas para cada álbum. Os executivos americanos nem quiseram saber. Montaram discos exclusivos para o seu mercado, adulterando completamente as capas e, pior: adulterando a ordem e até mesmo a presença ou não de certas músicas. Ou seja, uma discografia alienígena, com títulos, capas e repertórios integralmente diferentes. Uma confusão do demônio!

Para você ter um a ideia deste tipo de trapaça, saiba que a maravilhosa canção “Please Please Me” só saiu nos Estados Unidos em 1965, dois anos depois de batizar o disco de estreia do quarteto, e ainda assim colocado no meio do repertório do álbum The Early Beatles. E o Revolver então, que saiu com três faixas a menos: “I’m Only Sleeping”, “And Your Bird Can Sing” e “Doctor Robert”? E o Rubber Soul que não tem “Drive My Car”? Doideira, não? Para aumentar ainda mais o caos, no Brasil os lançamentos seguiam a discografia inglesa, mas a gravadora nacional também lançou na época alguns dos discos americanos, o que fez com que milhares de compradores desatentos adquirissem LPs com canções repetidas.

A coisa toda só parou a partir do momento em que a banda lançou o mitológico Sgt. Pepper’s… , pois se tratava de álbum conceitual que de forma alguma poderia ser mutilado. Além do mais, a banda tinha criado o seu próprio selo, Apple, o que garantia uma maior autonomia artística em relação ao lançamento de seus álbuns em outros países.

É exatamente isso que se encontra no box The U.S. Albums, cujos discos foram lançados anos atrás de maneira separadas no Brasil pela Universal, com exceção da versão censurada de Yesterday and Today, que trazia os integrantes da banda vestidos como açougueiros e segurando bonecas decapitadas e suculentos filés de carne crua, e do Beatle’s Story, composto apenas dos áudios de entrevistas, coletivas de imprensa, comentários de canções e outras bobagens. Ou seja, doze CDs em formatos de mini LPs.

Apesar de toda esta confusão, estes ‘biscoitinhos’ são altamente recomendáveis. Não apenas para quem é colecionador de tudo o que a banda lançou, mas principalmente para entender as razões que levaram a garotada americana a também enlouquecer pelos caras com uma sequência de canções completamente diferentes, como se fosse um experimento pré-histórico daquilo que viria no futuro a se chamar “random” nos iPhones da vida. Sem contar o atrativo das capas diferentes, um atrativo a mais para velhinhos como eu…