Lembro bem da ojeriza que Bob Dylan causava nos roqueiros mais radicais na primeira metade dos anos 70. Sei disto porque eu mesmo fui um deles. Moleque que era, eu não conseguia entender porque gostavam tanto de um cara que, aparentemente, cantava com o se estivesse o tempo todo gripado. Demorei muito para sacar que aquilo fazia parte da história de uma longa tradição de trovadores do folk que vinha desde muitos antes do tempo em que meus pais não eram nem namorados.

Meu preconceito em relação a ele e sua música caíram por terra não com “Like a Rolling Stone”, que vim a conhecer somente em 1977. Sim, lembre-se que eram tempos em que não havia internet e toda informação musical que tínhamos naquela época vinha das rádios e TVs, além dos discos que cavávamos nas prateleiras das lojas. Minha resistência a Dylan desmoronou em 1976 quando ouvi “Hurricane”, a faixa de abertura do ótimo Desire, lançado naquele mesmo ano, tocando em quase todas as rádios AM – não havia FM naqueles tempos remotos.

Fiquei tão impressionado com a música que fui à loja e comprei o LP naquela mesma semana, juntamente com o anterior, Blood on the Tracks, lançado um ano antes. O vendedor disse que me daria um desconto bacana se eu levasse os dois. Tratei de aproveitar aquela rara oportunidade com a sensação “o que tenho a perder?”. Voltei para casa, coloquei os dois LPs para tocar um na sequência do outro e não me arrependi: Desire era ótimo, mas Blood on the Tracks era simplesmente sensacional! Minha “cabeça de roqueiro” finalmente entendeu os motivos que levavam os meus amigos mais velhos que moravam na minha rua a idolatrar o cara.

Como sempre fiz ao longo de minha vida toda vez que topava com um som que mexesse com a minha alma, fui atrás do restante da discografia anterior de Dylan, sentindo-me preparado para ouvir tudo com outras referências e já livre do preconceito roqueiro e burro. Depois de adquirir os discos antigos a duras penas, passei desde então a comprar também todos os álbuns que ele lançou a partir daquele fatídico ano de 1976. Todos passaram a fazer sentido para mim – mesmo os mais fracos, como Dylan (1973), Saved (1980) e Shot of Love (1981) -, principalmente Blood on the Tracks, que se tornou o meu favorito dentro da imensa obra discográfica.

Mergulhar dentro desta obra prima não é das tarefas mais fáceis para quem não PENSA a respeito de música. E uma das primeiras coisas que você descobre é que Dylan não é um “cantor” e sim um “poeta que canta”. E sem desafinar, ao contrário do que pregam milhões de pessoas que não têm a menos ideia do significado de “desafinação”, confundindo “voz que não me agrada” com notas do canto dele fora do tom da canção. Um erro primário, obviamente. Bem, a burrice em si é um erro primário, não?

Voltando ao álbum, é uma obra prima que resultou de toda dor e amargura que Dylan sentiu quando seu casamento com sua primeira esposa, Sara, acabou, e também quando a parceria com a The Band – que era o seu grupo de apoio há vários anos – simplesmente se desmantelou. É um retrato musical de uma volta ao seu passado, algo que se percebe logo de cara pela pegada tranquila e eminentemente acústica presente no repertório.

A abertura com “Tangled Up in Blue” era, de certa forma, uma espécie de “cartão de visitas” de uma nova forma de tocar por parte de Dylan, inspirada por Joni Mitchell e seus acordes abertos, o que forneceu a atmosfera de “imensidão do campo” para uma letra incrivelmente amarga. Ele também tentou – e conseguiu – mostrar como a fragilidade do amor pode levar o home ao fundo do poço com uma trinca de canções sensacionais: “Simple Twist of Fate”, “You’re a Big Girl Now” e “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go”.

Em outros momentos, ele se entregou a sentimentos contraditórios. Se reagiu de maneira agressiva contra a causadora de sua desilusão em “Idiot Wind”, repleta de uma amargura explícita, Dylan tentou se recompor no estupendo blues “Meet Me in the Morning”. Em “Shelter From the Storm” aconteceu algo raro: ele assumiu abertamente o lugar de um de seus inúmeros personagens. Já nos quase nove minutos de “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts” ele desconcertou o ouvinte ao transformar uma alegre levada country em moldura para uma letra epicamente dolorida. Quando resolveu encerrar o álbum com “Buckets of Rain”, Dylan enviou um recado explícito a Sara, dizendo que ele sempre estaria pronto para recebê-la de volta. Não deu certo: ele nunca voltou para ele.

Blood on the Tracks também é uma obra prima cercada de mistérios. Os músicos creditados na contracapa do álbum gravaram as músicas em Nova Iorque, mas não aparecem no disco, já que Dylan resolveu posteriormente regravar tudo com músicos de estúdio de Minneapolis. Para você ter uma ideia, existe um livro específico só para desvendar os segredos desse trabalho, A Simple Twist of Fate: Bob Dylan and the M aking of Blood on the Track, escrito pelo jornalista Andy Gill – e não por seu homônimo, que é guitarrista do Gang of Four.

Apesar da revisitação nostálgica presente nestas mal traçadas linhas que você acabou de ler, saiba que Blood on the Tracks é um espelho multifacetado a refletir, de modo incrivelmente poético, sentimentos tão ambíguos quanto a dor, exuberância, solidão, esperança, amargura, crueldade e alívio. Só que tudo é tão disfarçado que a maioria das pessoas não consegue entender o álbum como um trabalho confessional. A riqueza das letras de Dylan escondem inúmeras parábolas e metáforas que nem mesmo seus biógrafos mais atentos conseguem explicar com 100% de certeza.

No fim, o que resta é a constatação de que a aura contemplativa, quando em meio a um monocromatismo amargo presente nas letras, gera um perfeito exemplo de como a dor pode se transformar em música sublime.