Já faz certo tempo que venho recebendo um sem número de pedidos para enviar antigos textos e matérias que escrevi para o Yahoo nos primórdios de meu trabalho para aquele portal. Por conta de algumas mudanças de plataformas, vários daqueles materiais acabaram se perdendo e não são mais encontrados na internet. Quando o são, normalmente estão bastante “mutilados”.

Sendo assim, vou aproveitar este momento para trazer à baila algumas das coisas mais requisitadas que escrevi ao longo daqueles tempos. Quem já leu vai ter a oportunidade de acompanhar os textos novamente com a inclusão de vídeos, algo que não havia na edição original; quem não leu vai tomar contato com um material que estava perdido, mas que agora foi resgatado com o auxílio e a autorização do próprio Yahoo  para sua republicação.

A “campeã” de pedidos é uma das primeiras coisas que escrevi para o portal: “Para gostar do VERDADEIRO funk”. Para bom entendedor, meia palavra basta, né? Bem, a primeira parte da matéria aqui está. Relembrem ou a utilizem como um pequeno guia para enveredar pelo maravilhoso universo deste gênero que teve a sua denominação erroneamente empregada para designar esta porcaria de “funk carioca” que insiste em fazer sangrar os nossos ouvidos…

Tudo começou por causa da ótima receptividade do resgate de um texto que escrevi aqui no Yahoo há 248 anos a respeito de um bom caminho para você começar a gostar de blues, com uma lista de discos essenciais para se apaixonar pelo gênero — esta é outra matéria que vou reeditar aqui em breve. No caso aqui do “VERDADEIRO funk” — e não daquela coisa ridícula que vem do Rio de Janeiro e que o sr. DJ Marlboro fez o favor de batizar como “funk“, para desgosto de todas as pessoas que sabem o que é realmente este gênero maravilhoso -, primeiro você tem que entender que o tal “funk carioca” não passa de uma verdadeira profusão de músicas ridículas, com letras idem, e que é apenas uma variação grosseira do “Miami bass sound“, que fez a fama de grupos picaretas como o 2 Live Crew.

Para quem não conhece, o esquema é simples: selecionei alguns discos para quem quer começar a tomar contato com o gênero, com um pequeno texto para dar uma “ilustrada” e vídeos que ilustram o som que você vai encontrar em cada um deles, é claro. Importante: dividi a matéria original em partes para facilitar a leitura e a visualização dos vídeos.

Ah, só um detalhe: muitos dos artistas abaixo mantiveram pés no funk e também no soul. Por isso, optei por selecionar discos em que predominam o primeiro, o que justifica a presença de algumas coletâneas na lista, que concentram o melhor que certos artistas fizeram dentro dessa seara musical. E não esqueça: aqui não estão os “melhores discos de todos os tempos” e sim aqueles que vão facilitar a paixão para quem é ‘novato’. Deu para entender, né? Saca só…

 

JAMES BROWN

JAMES BROWN
JB40: 40th Anniversary Collection
Confesso que fiquei meio relutante em indicar uma coletânea no caso de James Brown, mas dada a extensa – e bota “extensa” nisso! – discografia do homem que criou o funk e o soul – sim, o cara foi um gênio de tal magnitude que criou não apenas um, mas dois gêneros!!! – e por realmente desejar que você, que está lendo estas linhas neste exato momento, mergulhe fundo no universo sonoro do “padrinho”, decidi deixar meus pudores de lado.

Neste CD duplo, você tem realmente aquilo que de melhor o cara fez na carreira, desde funk de rachar o assoalho de qualquer residência da galáxia até lindas baladas soul, que provocariam lágrimas de esguicho (obrigado, Nelson Rodrigues!) nos mais sanguinários ditadores da história. Aqui não há destaques: todas as 40 faixas são essenciais!

 

funkadelic

FUNKADELIC
One Nation Under a Groove
Liderado pelo loucaço e genial George Clinton, este grupo foi uma das usinas mais incansáveis na arte de transformar o funk em uma forma de arte musical sem precedentes. Em One Nation… há uma nítida influência de Jimi Hendrix, o que fez com que a mistura com o rock propiciasse ao som do grupo um “molho” até então inédito, exemplificado em grau máximo nos mais de seis minutos do manifesto musical “Who Says a Funk Band Can’t Play Rock?!”.

Além disso, as letras engajadamente políticas versam sobre três dos assuntos mais importantes na segunda metade dos anos 70: sexo, transformações sociais e novas linguagens musicais — vide a faixa-título. Tudo embalado por linhas de baixo insinuantes, guitarras suingadas e distorcidas, e bateria contagiante.

 

earth wind and fire

EARTH, WIND & FIRE

Open Our Eyes
Logo no começo, antes mesmo de gravar seu primeiro LP em 1969, o grupo também flertava com uma forte veia jazzística, mas logo sacou que aquilo que faziam melhor eram cacetadas funky da melhor qualidade.Com arranjos elaborados e canções fascinantes em termos rítmicos — vide “Mighty Mighty” -, a banda liderada por Maurice White alternava momentos sacolejantes com belas baladas, mas era inegável que o suingue do grupo transcendia qualquer tipo de julgamento sob o ponto de vista comercial.

Kool & the Gang

KOOL & THE GANG
Wild and Peaceful
Eles começaram como um grupo de jazz na segunda metade dos anos 60, mas na virada da década seguinte descambaram para o mais puro funk, descabeladamente dançante. As linhas de baixo de Robert “Kool” Bell traduziam em notas toda a sacanagem que poderia haver em uma dança de salão.Se você conseguir ouvir faixas como “Funky Stuff” e “Jungle Boogie” sem sentir um comichão nas pernas e nos pés, pode procurar um legista para que ele assine o seu atestado de óbito. Você morreu e ainda não sabe…

 

SLY AND THE FAMILY STONE
Fresh
Assim como o Funkadelic citado na “parte 1”, aqui também havia outro líder malucaço — no caso, Sly Stone -, que capitaneava a celebração de um discurso libertário nas letras por meio de uma maravilhosa união sonora entre a doçura do soul com a urgência do funk. Apesar de ter lançado discos maravilhosos — como There’s a Riot Goin’ OnStand e Life -, foi neste álbum que o funk reinou soberano, mesmo com grooves mais lentos, mas que eram um convite irresistível a balançarmos o esqueleto.

A grande sacada aqui foi o uso de harmonias e melodias quase inusitadas, muito distantes daquilo que tocava nas rádios na época – o maior exemplo disso está na ótima “If You Want Me to Stay”, regravada décadas depois pelo Red Hot Chili Peppers no álbum Freaky Styley, não por acaso produzido por… George Clinton!

Ouça abaixo alguns exemplos extraídos desses discos espetaculares: