Confesso que temi pelo pior quando a vi no ano passado cantando deitada em um divã em um show ao lado do grupo Fundo de Quintal. As dores na coluna cervical eram fortes, mas não suficientes para impedi-la de demonstrar respeito ao público e uma dignidade cada vez mais rara no show business. Mesmo com a saúde tremendamente debilitada desde 2009, ela não se entregava…

Dona de uma carreira com mais de meio século de existência, Beth não recebeu o título de “Madrinha do Samba” à toa: ela realmente foi uma das poucas a segurar o estandarte do samba legítimo desde os tempos em que esse nefasto “pagode mela cueca/molha calcinha” se tornou a trilha sonora de pseudogaranhões e periguetes com furor uterino. Beth se recusava a aceitar que seu amado samba fosse confundido com músicas horríveis com letras perfeitas para quem tem alpiste no lugar do cérebro.

Pode perguntar a Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão: sem a música e a postura de Beth, os três ainda estariam batucando em caixinhas de fósforo em troca de cerveja em bares imundos. Foi ela que deu luz e a voz a esse trio que aceitou as armas que ela sempre propôs para lutar contra a diluição do gênero.

Desde que gravou o seu primeiro compacto em 1965, “Por Quem Morreu de Amor”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e dois anos depois reapareceu ao lado do Conjunto 3-D, liderado pelo lendário pianista Antonio Adolfo, o álbum Muito na Onda, Beth já dava pistas da cantora especial que seria quando seu álbum de estreia foi lançado em 1969 e a música “Andança” se transformou em um hino reverenciado até hoje.

 

 

 

Daquela época em diante, ela virou sinônimo de samba sempre que ouvíamos canções memoráveis como “1.800 Colinas”, “Saco de Feijão”, “Olho por Olho”, “Coisinha do Pai”, “Firme e Forte”, “Vou Festejar” e suas maravilhosas interpretações de “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho, e principalmente “As Rosas Não Falam”, de Cartola. Em todas as dezenas de álbuns que gravou, ela jamais deixou de exibir as marcas dessa luta inglória contra a estupidez musical brasileira.

 

 

Beth morreu anteontem, aos 72 anos. Estava internada desde o início de janeiro. Agora vai finalmente descansar…