Parte do LEGÍTIMO samba foi embora com Beth Carvalho

Parte do LEGÍTIMO samba foi embora com Beth Carvalho

Confesso que temi pelo pior quando a vi no ano passado cantando deitada em um divã em um show ao lado do grupo Fundo de Quintal. As dores na coluna cervical eram fortes, mas não suficientes para impedi-la de demonstrar respeito ao público e uma dignidade cada vez mais rara no show business. Mesmo com a saúde tremendamente debilitada desde 2009, ela não se entregava…

Dona de uma carreira com mais de meio século de existência, Beth não recebeu o título de “Madrinha do Samba” à toa: ela realmente foi uma das poucas a segurar o estandarte do samba legítimo desde os tempos em que esse nefasto “pagode mela cueca/molha calcinha” se tornou a trilha sonora de pseudogaranhões e periguetes com furor uterino. Beth se recusava a aceitar que seu amado samba fosse confundido com músicas horríveis com letras perfeitas para quem tem alpiste no lugar do cérebro.

Pode perguntar a Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão: sem a música e a postura de Beth, os três ainda estariam batucando em caixinhas de fósforo em troca de cerveja em bares imundos. Foi ela que deu luz e a voz a esse trio que aceitou as armas que ela sempre propôs para lutar contra a diluição do gênero.

Desde que gravou o seu primeiro compacto em 1965, “Por Quem Morreu de Amor”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e dois anos depois reapareceu ao lado do Conjunto 3-D, liderado pelo lendário pianista Antonio Adolfo, o álbum Muito na Onda, Beth já dava pistas da cantora especial que seria quando seu álbum de estreia foi lançado em 1969 e a música “Andança” se transformou em um hino reverenciado até hoje.

https://www.youtube.com/watch?v=PCDYFAUgvdg

 

 

 

Daquela época em diante, ela virou sinônimo de samba sempre que ouvíamos canções memoráveis como “1.800 Colinas”, “Saco de Feijão”, “Olho por Olho”, “Coisinha do Pai”, “Firme e Forte”, “Vou Festejar” e suas maravilhosas interpretações de “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho, e principalmente “As Rosas Não Falam”, de Cartola. Em todas as dezenas de álbuns que gravou, ela jamais deixou de exibir as marcas dessa luta inglória contra a estupidez musical brasileira.

https://www.youtube.com/watch?v=_Tyb3obDp8c

 

https://www.youtube.com/watch?v=JX1Wt-dMJW4

 

Beth morreu anteontem, aos 72 anos. Estava internada desde o início de janeiro. Agora vai finalmente descansar…

 

 

4 respostas

  1. Régis,q beleza de texto,eu ,meu filho q a conheceu amamos a Beth q empunhou a bandeira do samba autêntico,vc tem razão ,com ela vai esse ritmo original tão bem cantado por Beth Carvalho.

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