Seu senso melódico é algo que ainda assombra até mesmo os mais céticos em relação a sua carreira pós-Beatles. Sua genuína simpatia ainda é capaz de desconcertar a mais ridícula das subcelebridades que povoam os mais imbecilizantes reality shows do planeta. A excelência de sua carreira musical e de sua discografia ainda está vários andares acima dos reles artistas que ainda acreditam na música como forma de arte.

Não, não vou tecer elogios monótonos e ‘clichezentos’ a respeito da importância de Paul McCartney para a música do planeta e, talvez, da galáxia. Também não vou escrever detalhes de sua biografia que todo mundo já está careca de saber.

Para celebrar o fato de que o inglês boa-praça está mais uma vez no Brasil, trago aqui uma coleção de pérolas de sua carreira pós-Beatles que pouca gente conhece. São canções lindíssimas e incrivelmente bacanas que, sabe-se lá por qual motivo, não receberam a mesma adulação endereçada a outros clássicos de Paul, como aconteceu nos casos de “Band on the Run”, “Jet”, “My Love” e tantas outras.

Como todas as canções que cito aqui têm seus respectivos vídeos, tomara que tudo isto sirva de incentivo para você sair do esquema “coletânea” e ir atrás dos ótimos discos do cara.

“Monkberry Moon Delight”
Do único álbum creditado ao lado de sua mulher, Linda — Ram (1971) -, essa canção tem melodias e harmonias sensacionais. Os vocais rasgados de Paul enchem a música de uma energia contagiante, dando a dica de que seu espírito havia encontrado pela primeira vez sua expressão mais fiel em relação a sua fama e depressão pós-Beatles. Quem a ouve nos dias de hoje saca que sua vibração permanece viva e cresce até com mais força.

 

“That Would Be Something”
Do disco que marcou a sua estreia em carreira solo — McCartney (1970), no qual Paul cantou e tocou todos os instrumentos — o grande hit foi a linda “Maybe I’m Amazed”, mas nele estão outras preciosidades, como esta canção, que mostrava o grande arranjador que Paul sempre foi. Construída em camadas e tendo como acompanhamento rítmico um prato de bateria quebrado, um surdo e a própria voz de Paul, é uma daquelas músicas que precisa ser ouvida com fones de ouvido para que se perceba a sua genialidade.

 

“Coming Up”
Uma das canções mais deliciosamente bobas e sacolejantes de todos os tempos! É um oásis de alegria e espontaneidade dentro de um dos mais detestados álbuns de Paul, McCartney II, no qual ele cismou que era um integrante do Kraftwerk — se duvidar, ouça “Temporary Secretary” – e gravou um monte de bobagens eletrônicas. Preste atenção ao clipe de “Coming Up” e tente descobrir quem são os personagens representados, todos encarnados pelo próprio Paul. Dica: são músicos razoavelmente famosos…

 

 

“Dear Friend”
Presente no primeiro disco que Paul gravou com seu grupo Wings, Wild Life (1971), a canção é uma emocionante tentativa de se reconciliar com John Lennon, que o havia atacado anteriormente na virulenta “How Do You Sleep”?, incluída no álbum Imagine, lançado poucos meses antes. Ouça a música pensando em um bom amigo com quem você brigou e tente segurar as lágrimas.

 

“BIG BARN BED”
Com uma letra tão ridícula quanto esta, seria impossível uma canção se sustentar. Seria. Porque nas mãos de Paul, este troço virou uma música inacreditavelmente grudenta – incluída no ótimo e subestimadíssimo Red Rose Speedway, de 1973 -, daquelas que é impossível não sair cantarolando por meses depois de ouvi-la. Se você conseguir não fazer isso, meus parabéns: você é um vegetal ambulante.

 

“Transpiritual Stomp”

Quase ninguém sabe que o velho Macca tem um projeto eletrônico – The Fireman – com ninguém menos que Youth, o baixista/produtor que é integrante do Killing Joke e também do The Orb. Esse tema é do primeiro álbum, Strawberry Oceans Ships Forest, de 1993 – ele lançou mais dois posteriormente, Rushes (1998) e Electric Arguments (2008) – e ele é uma viagem sonora muito legal pelo universo do “ambient techno”. Ouça com bons fones de ouvido: