Paul McCartney revitaliza seu “som velho” no ótimo “Egypt Station”

Qualquer pessoa sensata e com um mínimo de conhecimento musical tem Paul McCartney como um de seus ídolos. Nem se discute isso. Ele faz parte de uma linhagem de músicos dotados de uma concepção musical incrustada em suas respectivas almas que impedem a acomodação em qualquer nível artístico. Assim eram Frank Zappa e Miles Davis, só para citar dois exemplos radicais desse tipo de postura.

Acostumado a fazer shows apenas em grandes estádios, Paul poderia muito bem deitar sobre os louros de sua vitória como artista, mas o velho ex-beatle parece fugir disso de modo tão visceral quanto divertido. Para ‘piorar’, sua vitalidade é um tapa na cara de pseudoartistinhas com a mesma idade de seus filhos e que já se sentem entediados/acomodados na hora de gravar seus discos de merda e até mesmo quando precisam sair em turnês cada vez mais dirigidas em “piloto automático”.

Quanto ao afastamento de qualquer sinal de aposentadoria, ele não apenas trata de reforçar tal postura como ainda o faz de maneira absolutamente deliciosa, como percebemos em cada faixa de Egypt Station, seu 18º álbum de estúdio em uma carreira solo iniciada em 1970 com o subestimado McCartney, lançado na mesma época em que os Beatles davam seus últimos suspiros de existência. De lá para cá, ele não errou nunca, nem mesmo em seus álbuns mais fracos, como Pipes of Peace (1983), Give My Regards to Broad Street (1984) e Press to Play (1986), nos quais dava para pinçar boas canções no meio de outras medíocres.

Paul revelou em entrevista recente que o disco funciona como uma viagem de trem, em que cada canção simboliza uma estação durante o trajeto. Faz sentido que ele tenha feito um show-surpresa na maior delas, a Grand Central Station, em Nova Iorque, na semana passada. O álbum começa efetivamente com Paul criando um clima de tristeza e incerteza na linda “I Don’t Know”, seguido de uma reviravolta de astral na sacolejante “Come on to Me”, com seu instrumental encorpado e timbres muito bem escolhidos. É a partir dela que sacamos que ele deve ter gravado a grande maioria dos instrumentos que se ouve no disco, incluindo a bateria, algo nitidamente explícito também na ótima “Dominoes”, que tem umas pequenas experimentações sônicas em sua porção final.

https://www.youtube.com/watch?v=UmjHla9-4HU

 

“Happy With You” e “Hand in Hand” soam como um recado direto para sua atual esposa, Nancy Shevell, em que a poesia sempre certeira e simples em sua construção obtém um resultado não menos que brilhante. Em “Who Cares”, Paul constrói aquele típico rock and roll safado – no melhor sentido do termo, claro! – que é uma de suas marcas registradas desde sempre.

https://www.youtube.com/watch?v=aAdriTD4tFM

 

“Confidante” e seus violões encorpados guiam a letra confessional de Paul é um daqueles temas que grudam no cérebro como chiclete em um muro de tijolos. O mesmo vale para “Do It Now” e “Despite Repeated Warnings”, nas quais ele usa o piano como fio condutor para contar pequenas histórias a respeito de uma experiência passada com alguém de quem gostou muito, embora esta última apresente mudanças quase radicais a partir de sua metade final, como se tudo fosse um tema épico – algo que ele mesmo construiu no passado com “Live and Let Die” -, uma concepção que se repete na faixa final, “Hunt You Down/Naked/C-Link”, com três temas aparentemente diferentes entre si encadeados em um só.

https://www.youtube.com/watch?v=Jl2Z4T9Cn8g

https://www.youtube.com/watch?v=3AG6BQJ4mbM

https://www.youtube.com/watch?v=FFzOjOp3SUk

 

Uma pequena surpresa está em “Back in Brazil”, na qual Paul buscou retratar a sua impressão a respeito da gente com uma sonoridade que tem referência clara nas versões remix que fizeram de “Soul Bossa Nova”, de Quincy Jones, mas com uma timbragem mais sutil e igualmente moderna.

 

“Caesar Rock” tem vários truques para enganar os ouvintes mais afoitos, desde seu falso início com a bateria e colagens sonoras até sons ao contrário e vocalização claramente inspirada no estilo de Roger Daltrey. É o momento mais experimental do disco, que de certa forma faz lembrar o que ele fez em McCartney II (1980), embora de modo bem menos transgressor.

https://www.youtube.com/watch?v=M7qOkbruGdg

 

Para não dizer que tudo é perfeito no disco, Paul pecou na capa horrenda – fruto de sua própria falta de inspiração e incompetência como pintor em 1988, quando pintou a tela que deu origem à imagem estética do álbum – e em duas canções destoantes dentro do repertório. “Fuh You” e “People Want Peace” são duas claras tentativas de Paul em alcançar um tipo de público mais jovem e sensível, que se emociona quase às lágrimas quando ouve Imagine Dragons e Arcade Fire, que não gosta de futebol porque é “muito violento” e que anda com níveis de testosterona meio abaixo do normal. A pretensa grandiosidade sônica da primeira se mostra um equívoco dentro da concepção do álbum como um todo, enquanto a segunda exibe uma simplicidade poética bem contrastante em relação ao seu arranjo intencionalmente rebuscado, como coros e violinos pontuando uma levada rítmica quase tribal.

https://www.youtube.com/watch?v=t1WjIDQRDUc

 

Ressalvas à parte, Egypt Station vai certamente aproximar Paul McCartney ainda mais de seu público por conta de canções que expõem sua vitória inquestionável contra o desafio que assombra qualquer artista veterano, que é a busca por um público jovem fazendo “som de velho”.

 

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