Há uma febre hoje no meio artístico e ela pode ser resumida em duas palavras: “reverência injusta”. Existe uma desesperada pressa em valorizar apenas o que é mais moderno, todo tipo de negócio musical é tratado e soltado nas redes sociais como se fosse a mais recente salvação da sonoridade mundial, mesmo que os perfis artísticos sejam de última categoria. Sob a alcunha de “famosos”, um monte de gente sem talento é alçada a patamares absurdos de fama, vaidade, egocentrismo e sem a menor consistência artística.

Escrevo tudo isso porque houve um tempo em que a parceria musical era tão importante que muitos músicos talentosos optavam por permanecer sempre em segundo plano, sem jamais buscar os principais holofotes para si mesmos. E um desses músicos – dos mais talentosos, diga-se de passagem – morreu sábado passado, vitimado por um ataque cardíaco.

Jamais foi revelada qual era a ambição de Paul Raymond em termos musicais. A quem seguia a sua carreira, como o tio aqui, a impressão é que ele jamais buscou os holofotes mais fortes, tanto em cima do palco como no ambiente fechado dos estúdios. Desde os tempos em que começou a tocar jazz na primeira metade dos anos 60 e se tornou razoavelmente conhecido no underground londrino como talentoso tecladista/guitarrista do grupo Plastic Penny, ao lado do baterista Nigel Olsson – que pouco tempo depois foi recrutado por Elton John e toca com ele até hoje – e do guitarrista Mick Grabham, que passou grande parte da década seguinte integrando o Procol Harum, Raymond buscava a contribuição para um time, não a posição de estrela. Foi por isso que, sucessivamente, aceitou substituir a talentosa pianista Christine McVie quando ela saiu do Chicken Shack para tentar uma carreira solo e, posteriormente, ser contratada para integrar o Fleetwood Mac; quando foi contratado para tocar com o Savoy Brown.

Confesso que comecei a prestar atenção nele quando ele passou a integrar uma de minhas bandas favoritas dos anos 70, o UFO, que tinha em suas fileiras o mitológico guitarrista Michael Schenker. Raymond fez um trabalho tão bom que Schenker não teve dúvidas ao chamá-lo para integrar em 1981 o seu poderoso MSG ao lado do não menos lendário baterista Cozy Powell. Sempre em segundo plano, mas fazendo um trabalho importantíssimo de teclados e guitarra-base, Raymond foi o “operário” que todo astro quer ter ao seu lado.

De certa forma, o UFO nunca saiu da vida dele, mesmo quando o ex-baixista do grupo, o carismático Pete Way, o chamou em 1983 para integrar o seu Waysted, em 1983. E assim foi nas idas e vindas que fez com o UFO nas décadas seguintes, até que morreu aos 73 anos, justamente no meio da turnê de despedida da banda que tanto adorava.

Ouça a “playlist” que fiz em meu perfil – registadeu – no Spotify, na qual eu selecionei as canções que ele compôs para as bandas em que foi integrante e perceba como ele foi um ótimo compositor e instrumentista.