Eu o encontrava sempre em dois ambientes: lojas de discos e shows. Nossas conversas eram sempre pontuadas por risadas, farta distribuição de farpas contra os vários ‘malas’ que habitam o universo do jornalismo musical nacional, críticas contundentes conta as centenas de pseudoartistas esnobes e desprovidos de talento que povoam o planeta e, principalmente, muita troca de informação. Muito mais da parte dele, já que Paulo Cavalcanti foi um dos jornalistas mais generosos na distribuição de seu conhecimento musical enciclopédico.

Ele era fanático por muitas bandas e artistas, mas os Beach Boys pareciam ocupar um lugar de destaque em suas inúmeras preferências. Certa vez, em uma conversa que tivemos, disse a ele – nem lembro o motivo – que também gostava muito da banda e que tinha todos os álbuns da discografia oficial dos caras. Impassível, ele respondeu “é pouco, tem que ter os compactos, as caixas com faixas não lançadas, os outtakes…” Esse era o Paulo que todos os jornalistas da área musical aprenderam a gostar e a admirar.

Sempre generoso, sem jamais ter qualquer sinal de egoísmo profissional, Paulo frequentemente chamava colegas e amigos para escreverem onde quer que ele estivesse trabalhando. Pesquisador incansável, era um daqueles arqueologista musicais que dedicava sua vida a esmiuçar todos os detalhes que faziam a conexão entre a música e nossa forma de viver. Seus textos saborosos e informativos em revistas como Bizz – posteriormente Showbizz -, Shopping Music e Rolling Stone, nas quais colocou seu vastíssimo conhecimento musical a serviço de leitores que muitas vezes não mereciam tal dádiva, sempre traziam pequenos lampejos do bom humor que esbanjava em conversas ao lado de seus pares que tive a imensa honra de participar.

As histórias de sua passagem pelo jornal extinto jornal Notícias Populares estão entre as mais engraçadas que qualquer pessoa ligada ao Jornalismo profissional tenha ouvido, com destaque para o “Bolo Cucamonga” – uma estranha e improvisada receita criada por ele para tapar buraco em uma das edições do jornal que, estranhamente, não tinha o fermento como um de seus ingredientes, o que levou a um tsunami de telefonemas de leitores indignados para a redação por conta das assadeiras literalmente tostadas – e o episódio em que foi obrigado a criar uma partida de futebol entre imitadores de Elvis Presley e “covers” do Raul Seixas, com resultados simplesmente hilários. Isso sem contar o seu personagem no extinto Orkut, “Finas Fake”, que caçoava de maneira brilhantemente hilária de um jornalista metido a junkie bastante conhecido – e evitado por todos – no meio musical, com seus “coturnos gorgonzólicos”, “napas farinhentas” e uma série de sacadas simplesmente brilhantes.

Paulo morreu ontem, aos 56 anos, vitimado por problemas cardíacos. Todos aqueles que o conheceram estão muito tristes e, ao mesmo tempo, honrados por ter a chance de ter convivido e trocado ideias com uma mente brilhante.