Posso viver mais de cem anos e ainda assim não conseguirei entender por quais motivos certos álbuns absolutamente brilhantes passam despercebidos pelas pessoas, notadamente no Brasil, terra em que “atenção” para ter se transformado apenas em mais uma palavra a constar no dicionário.

De Billie Holiday e centenas de brilhantes cantoras de jazz a até mesmo grandes nomes do pop como Diana Ross e a finada Amy Winehouse, passando por milhares de banda de heavy metal e de qualquer outro gênero e estilo que você imaginar, quase ninguém escapou da indiferença recheada de preguiça mental que está tão em voga no período conturbado em que vivemos. Afinal, as coisas nunca foram fáceis para ninguém no processo de criação de tantas obras primas e o descaso com certos discos seja a ser criminoso.

Fiquei pensando nisso depois de ouvir um álbum razoavelmente “recente” – de 2006, para ser mais preciso – dentro da enorme discografia daquele que fez fama desde o final dos anos 60 cantando canções muito mais que sentimentais, e sim verdadeiros clássicos da música mundial em todos os tempos. Um cara dotado de tamanha criatividade na hora de compor melodias imortais que só rivaliza com Paul McCartney nesse quesito. Sim, eu me refiro a Elton John e seu The Captain and the Kid.

Quando o álbum foi lançado, ninguém aqui no Brasil deu a menor bola para o fato de que ele havia voltado a trabalhar com seu eterno parceiro, o letrista Bernie Taupin, de quem havia se separado há décadas. Se você assistiu ao filme Rocketman e ao vídeo em que falo a respeito dele – caso não tenha visto, assista aqui – sabe da importância fundamental que ele teve na carreira de Elton. Não só isso. O disco passou “batido”, como se fosse apenas mais um disco na carreira do polêmico cantor/pianista. Tremendo erro.

Depois de tanto tempo, Elton se tornou quase uma unanimidade. Nem mesmo os péssimos discos que lançou durante a década de 80 macularam a sua fama. Ele pode falar o que quiser e sempre será ouvido quase impunemente, mesmo que sejam comentários sarcásticos, irônicos, debochados e quase ácidos contra colegas de profissão e até mesmo a própria seleção de futebol da Inglaterra.

Foi talvez por estar cansado dessa “babação de ovo” que ele tenha resolvido dar uma guinada em sua discografia em 2001 com o extraordinário Songs From the West, um álbum em que voltou a gravar com uma formação básica de piano/baixo/guitarra/bateria sem a pomposidade de suas produções anteriores, como se desejasse voltar ao seu brilhantismo musical nos anos 70. Deu continuidade a isso no bom Peachtree Road, de 2004, até chegar ao disco a respeito do qual quero escrever neste texto.

Reouvir The Captain and the Kid treze anos depois de seu lançamento original deixou em mim a sensação de final de uma trilogia, mesmo conhecendo de antemão o que ele fez no disco seguinte, o igualmente ótimo Diving Board, de 2013. Essa impressão é realçada pela enorme confiança que ele demonstra ao voltar a trabalhar com Taupin, como se estivesse tocando seu lendário piano suspenso por uma perna em uma corda bamba. Com uma produção igualmente despojada de qualquer tipo de excesso, o disco ainda hoje soa quase como uma demo estupidamente bem gravada com enorme qualidade e com letras quase estonteantes em seu lirismo poético. Também fica claro que o álbum é uma espécie de “continuação” – e das melhores! – de seu mitológico Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, de 1975.

Ao abrir o disco com a cortante “Postcards From Richard Nixon” com aquele maravilhoso som de piano cru e rústico que só ele consegue tirar do instrumento, Elton diz a todos que toda a história do disco será contada a partir do momento em que ele e Bernie desembarcaram nos Estados Unidos em 1970, no meio de toda a crise americana gerada pelo pesadelo da guerra no Vietnã e pelo escândalo de “Watergate”. Isso significa que The Captain and the Kid é um “disco conceitual”? Longe disso, mas está muito claro em cada faixa que os pontos de vista poéticos vão prestar conta com o passado, glorificando o que deu certo e fazendo mea culpa em relação ao que deu errado para a dupla desde aqueles tempos.

 

Não dá para ignorar que “Just Like Noah’s Ark” é “prima” de “Brown Sugar”, dos Rolling Stones, e muito menos que a balada “Wouldn’t Have You Any Other Way (NYC)” é uma ode a tudo de bom que a chamada “capital do mundo” representa. Da mesma forma, a linda “Tinderbox” e sua letra a retratar poeticamente toda a pressão que Elton e Taupin sofreram para manter sua “máquina de ganhar dinheiro” funcionando funcionam ainda hoje como uma maneira sublime de o cantor/pianista não tinha perdido a mão na arte de criar melodias e harmonias sublimes no mesmo nível com que as criava nos anos 70.

 

 

 

Se em “Blues Never Fade Away” a tristeza pungente e dinâmica ao mesmo tempo ao abordar as vítimas fatais da AIDS transforma uma balada em quase um manifesto, a tocante “The Bridge” faz com que sua bela letra exemplifique bem a passagem dos anos e a maturidade para quem se embriagou com a fama no passado, um assunto do qual Elton e Taupin podem abordar com total autoridade.

 

 

Treze anos depois de seu lançamento, as dez faixas de The Captain and the Kid soam como se todas tivessem sido gravadas na semana passada. Se o que escrevi neste texto não o convencer a ouvir o álbum na íntegra, aí então o problema é todo seu…