Por que todo mundo tem medo de criticar Elza Soares?

Ela lançou recentemente outro disco pavoroso, Deus É Mulher, com onze músicas simplesmente horríveis com a já batida formula que vem permeando seus mais recentes trabalhos: botar uma banda “isssshhhhpppéeeeerrrrrrrta” para tocar um som ‘moderninho indie descolado’ para servir de textura sonora para um festival de semitonações por parte dela. Isso vale tanto para os shows quanto para o disco anterior, o igualmente péssimo A Mulher do Fim do Mundo, de 2015. Só que não se ouve um único pio contra. Parece que há uma lei que diz: é proibido criticar Elza Soares.

Tudo o que ela faz é “maravilhoso”: quando canta, só se ouve e lê coisas do tipo “a voz divina da diva”; os arranjos das canções são esplêndidos; as letras engajadas são “lacradoras”; a qualidade de gravação é “deslumbrante”…  São mentiras tão descaradas quanto inaceitáveis. Nos shows então, chega a ser insuportável ouvir a plateia gritando adjetivos baba-ovos para ela, que ouve tudo sentada em uma espécie de trono que a deixa com pinta de personagem de bar do Star Wars.

Que Elza é uma mulher guerreira, não há dúvida. Passar por todos os ‘perrengues’ e sofrimentos que ela viveu desde que resolveu botar o vozeirão para fora de casa nos anos 50 e ainda continuar se apresentando realmente não é para qualquer artista. Agora, querer dar a ela hoje em dia a mesma ovação genuína que recebeu quando gravou discos antológicos – como Elza Soares, baterista: Wilson das Neves (1968) e Elza Pede Passagem (1972) – e tornou sua interpretação de “Se Acaso Você Chegasse” um clássico indiscutível e ignorar o quanto a sua voz está castigada a ponto de conseguir mais acertar o tom das músicas já é uma sandice de quem tenta convencer a gente de que existe uma realidade paralela.

É óbvio que tem gente ganhando muito dinheiro em cima da atual carreira dela. Chega a ser desumano pensar que a colocaram para fazer shows quase ininterruptos durante dois anos e meio com a turnê do álbum anterior. Até entendo que Elza queira morrer fazendo o que mais gosta, mas para tudo há um limite. E quem trabalha com ela e para ela parece não perceber isso.

Elza tem cantado tão mal que até mesmo quando a colocam para mandar um vocal a capella – como no início de “O Que Não se Cala”, faixa que abre o disco mais recente -, ela consegue semitonar sozinha! Até mesmo as fracas letras presentes no disco são ‘elogiadas’ apenas por seu posicionamento ‘lacrador’, jamais pela qualidade poética.

A grande verdade é que todo o repertório é levado pronto, para que Elza escolha aquelas que se sinta mais à vontade em botar a sua voz e seu discurso ‘lacrador’. Isso se é ela mesma quem escolhe, o que tenho lá minhas dúvidas… Não é possível que ela, em sã consciência, tenha escolhido um troço completamente sem suingue como “Eu Quero Comer Você” – que alguns colegas meus de imprensa chamaram de “frevo insinuante e sexual”, assim como a canção “Exu nas Escolas” foi rotulada como “samba punk”, o que só pode ser alguma gozação ou piada interna – para encaixar sua voz cansada e desconectada do tom.

Quem morre de medo de criticar o que ela canta no momento não quer desagradar à “patrulha dos justiceiros lacradores”, uma turma bastante numerosa espalhada pelas redes sociais que está sempre pronta para massacrar quem pense diferente do “politicamente aceitável”, uma massa de ‘energia’ que emana de qualquer pessoa, independente da orientação sexual, que resvala muito mais no fascismo de ideias e atitudes de confronto.

Lamento informar, mas não sou cúmplice dessa ‘papagaiada’…

16 respostas

  1. Pronto! Era isso que eu queria ouvir! No dia que ela “cantou” com a Pitty no Fantástico, falei para a minha esposa: Por que ninguém tem coragem de falar que já deu para a Elza Soares? Que a voz dela está tão horrível que chega a incomodar o ouvido?

  2. Regis, eu concordo integralmente contigo e obrigado por escrever. Sou fã da história da Elza (emocionante!), tenho muitos discos dos anos 1960 e 1970 e acho sensacionais, sobretudo os dois que você postou. Você pode falar melhor que eu sobre toda a fase sambalanço dela, que é incrível, e os discos de samba na Tapecar, que são perfeitos e absurdamente esquecidos, inclusive por toda a galera baba-ovo da Elza, que desconhece mesmo toda a excelência da carreira dela. Ou seja, mais uma vez, a causa se torna maior que qualquer fato… Não precisa mais minimamente cantar no tom correto… basta lacrar…

    1. Regis Tadeu te admiro pra caramba , sigo vc no YouTube, e agora estou te seguindo aqui . Mais descordou de vc
      Confesso que eu tinha um certo preconceito com o trabalho da Elza soares , nunca tinha parado pra ouvir um trabalho se quer dela
      Mais comecei a acompanhar o trabalho dela no “DEUS É MULHER ” e agora no “PLANETA FOME” me encantei com esses dois trabalhos
      E tem mais , na minha humilde opinião planeta fome foi o melhor álbum de 2019 na música Brasileira
      Quanto a “LACRAÇÃO” também acho que estão forçando um pouco a barra pra cima dela

  3. Ainda bem que alguém teve coragem de falar o que pensa sobre essa senhora, que na realidade já deixou de ser cantora faz muito tempo. Outrora uma excelente voz, hoje beira a vergonha alheia quando se apresenta na TV, sendo apenas um arremedo de si mesma, Elza hoje só mostra as marcas de quem realmente foi uma guerreira, mas que se ainda hoje insiste em gravar discos ou se apresentar ao vivo, é porque existe um grupo de gente que ainda consegue espremer algum lucro dela, através de uma audiência de baba-ovos que não conseguem enfim reconhecer que a voz dela já descansa em paz… há muito tempo!

  4. Caro ,Régis .No caso da Elza Soares , não lhe parece que existem alguns “abutres” do dito showbiz, que se aproveitam da vontade dela de se manter nos palcos ?

  5. Ouvir gravações dela nos anos 60 , qdo ela parecia uma força da natureza, transbordava carisma e foi uma das melhores cantoras do seu tempo e seus terriveis últimos trabalhos e maneira irritante de cantar é terrível. E sobre a “crítica musical” de hj, salvo cada vez mais raras exceções, me fez lembrar seu último vídeo. Do fim das “bandas clássicas “. Onde iria um pouco mais além, junto cabou a “crítica” tbm !

    1. O disco foi assim considerado pelo editor de artes da publicação, Jon Pareles, e a tal “eleição” se resumiu a opinião de outros dois críticos. Isso de modo algum significa que o “New York Times elegeu”… Sua observação é tipicamente brasileira: lê a notícia, interpreta como quer e se distancia da realidade. Preste atenção da próxima vez e raciocine um pouco.

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