Tenho que confessar que não tenho mais qualquer vontade espontânea em assistir a mais uma edição de uma das mais patéticas premiações da TV brasileira: o Prêmio Multishow, um festival constrangedor de “vergonhas alheias” como há muito se vê por aqui.

Mesmo que dezenas de leitores tenham escrito pedindo um texto a respeito da premiação de ontem, que marcou o 25º aniversário dessa porcaria, não estava com a menor disposição para perder preciosos minutos de minha vida. Resolvi fazer uso da tecnologia digital da TV a cabo e botei o evento para gravar, por via das dúvidas. Quem sabe aconteceria algo de interessante e que eu pudesse comentar, né?

Resolvi assistir a gravação hoje pela manhã e constatei o que venho dizendo há muito tempo entre o meu círculo de amizades: a TV brasileira continua a lavar com cândida e sabão em pó a música nacional. Qualquer vertente musical que aparecesse ali seria mostrada completamente diluída, para o bem e para o mal. Reparei até que a turma “sertanojo” praticamente desapareceu do show. Deve ter batido vergonha até mesmo em quem nunca teve vergonha em se associar a quem quer que seja…

O esquema “separatista” continua o mesmo: poltronas confortáveis para a plateia com artistas, profissionais do show e ‘trocentas’ subcelebridades tão importantes quanto um parafuso, enquanto que para uns 150 fãs retardados o lugar era um fosso perto do palco. Castigo justo para quem se submete a exibir sua falta de vergonha na cara ao gritar histericamente por quem quer que aparecesse para as câmeras.

A bizarrice começou a partir do primeiro segundo de transmissão. Assistir Anitta assassinar “sucessos do Multishow” – porcarias dos repertórios de Jorge Vercillo, Sandy & Junior, Fat Family, Rouge e Simone & Simaria, entre outros – foi um castigo merecido para quem saiu de casa e foi até o local do evento. O ápice foi a “descida alada” de Pablo Vittar no palco. Se queria ser um arremedo de Beyocé, a drag queen parecia mesmo um pelicano tentando pousar com uma asa quebrada.

 

O evento inteiro foi dominado vozes esganiçadas, tentativas canhestras de humor, perguntas cretinas, respostas desinteressantes… Houve até momento de “beijo técnico armado” entre Anitta e um sujeito chamado Leandro Martins, de um tal grupo Atitude 67. Valia qualquer coisa para driblar os inúmeros problemas técnicos ocorridos durante a transmissão.

 

É claro que rolaram instantes de “posicionamento político” contra alvos explícitos por parte de alguns. Com transmissão ao vivo por um dos inúmeros canais do Império Global, era tentador fazer uma média com o público. Nada que ultrapassasse uma alfinetada no Bolsonaro e a lembrança da vereadora assassinada Marielle Franco com seu nome costurado em um roupão de uma das integrantes do Rouge. Muito pouco para quem quer realmente ver gente se manifestando de maneira genuína.

Claro que também não faltaram os improvisos de Tatá Werneck, que até poderiam ser mais engraçados caso ele fizesse mais consultas com uma fonoaudióloga.

O evento continua “imperdível”, só que pelos motivos mais errados do mundo. Quem ganhou e quem perdeu? Para mim, isso não tem o menor interesse, ainda mais quando grande parte da premiação é ditada pelos “votos populares”, um tipo de armação já muito conhecida.

Mais uma vez a constatação é óbvia: o Prêmio Multishow continua patrocinando e tentando enaltecer alguns dos momentos mais baixos da história musical da TV brasileira, tão agradáveis quanto um cadáver de pastor-alemão abandonado na beira de uma estrada, com premiações tão animadas quanto a entrega de talões de IPTU em uma reunião de condomínio. Se estivesse assistindo lá no Nepal, o Dalai Lama teria quebrado a TV com um machado…

Ao final da gravação, desliguei a TV e fiquei pensando no quanto estou cansado e revoltado com esse “bundamolismo” reinante em todas as áreas musicais do nosso País. Até quando teremos essa inaceitável celebração de gente desafinada e sem talento reunida embaixo de um mesmo teto? Ou será que ela reflete exatamente o que é o Brasil nos dias de hoje?

Pense nisso…