Jamais tive algum prazer quando me empenhei a ouvir os discos de Chitãozinho & Xororó. Mesmo quando comecei a ter um tímido interessante pela música sertaneja, minhas atenções sempre se voltaram para duplas que tinham um apelo instrumental e poético mais rústico e genuíno, como Pena Branca & Xavantinho, Ronaldo Viola & João Carvalho e tantas outras duplas mais “roots”. Ao mesmo tempo, não dá para negar que a trajetória dos dois irmãos é um capítulo bem interessante da música brasileira desde que a dupla lançou seu primeiro álbum, Galopeira, em 1970. “Interessante” no sentido de entender o que levou a dupla – e quase todos os seus colegas contemporâneos – a abandonar as raízes verdadeiramente sertanejas e adentrar a um universo romântico piegas, primário e sem qualquer traço poético.

Foi quando suas canções deixaram de retratar a nobreza poética da vida no campo e tentaram acompanhar o romantismo débil mental que se instalou no Brasil a partir do momento em que o governo Collor passou a usar os artistas em proveito próprio em termos de marketing com as famosas “serestas na Casa da Dinda”. É triste, mas a tragédia poderia ter sido evitada se as pessoas começassem a perceber o processo de emburrecimento coletivo que se instalou no Brasil a partir dos anos 80 e que certamente afetou a maneira de se ouvir e, principalmente, entender a poesia que sempre marcou a música brasileira.

Fiz questão de escrever isso para que você entenda bem qual foi o grau de minha positiva surpresa quando ouvi pela primeira vez o álbum Tom do Sertão, no qual a dupla abordou apenas canções de Tom Jobim e até recriou uma foto de Tom e Vinícius de Moraes à beira de um riacho, como você pode ver abaixo:

Tom & Vinicius

 

Hoje, não apenas tenho que admitir que os irmãos finalmente haviam mandado muito bem, mas também que mesmo anos depois de seu lançamento original, em 2015, o disco em questão não perdeu nada de seu surpreendente brilho.

Reouvi o disco hoje pela manhã e mantenho a mesma opinião que tive anos atrás: como se fossem páginas de um livro de memórias, a dupla conseguiu a proeza de trazer cada canção do maestro para o interior de seu universo mais rústico e verdadeiro em relação às suas influências, sempre mantendo uma atitude respeitosa em relação às harmonias e melodias originais, mas ousando na abordagem sonora. Os dois irmãos acabaram por (re)elaborar um tipo de som que resgata aquilo que tivemos que denominar como “música sertaneja de raiz” para diferenciá-la destes embustes descerebrados protagonizados por duplas e pseudoartistas que nunca montaram em um cavalo na vida. A bem vinda energia injetada em “Águas de Março” é o melhor exemplo para surpreender você logo de cara:

 

Sempre tive especial apreço por quem mexe em canções dos outros desta forma mais “personalista”, mas não deixei de me espantar com a ousadia de transformar “Chega de Saudade” – uma das mais famosas parcerias entre Jobim e Vinícius de Moraes – em um country rock brejeiro acentuado por um alegre banjo. Ou em trazer “Chovendo na Roseira” para uma sonoridade típica do rock rural que se fazia nos anos 70, um dos pontos altos deste álbum.

 

 

Outros ótimos acertos foram a delicadeza rural incutida em “Caminho de Pedra”, “Modinha” e “Estrada Branca”, e a imagem bucólica e pastoral que permeia “A Chuva Caiu” e “Correnteza”. Há até uma surpreendente tensão na abordagem de “Eu Sei que Vou Te Amar”.

 

 

 

Em algumas passagens do disco é possível vislumbrar alguns equívocos, como o a profusão de desnecessários vibratos na voz de Xororó e o excessivo polimento dado à produção acabou diminuindo o impacto de alguns novos arranjos, como a excessiva presença orquestral em “Se é Por Falta de Adeus”, mas nada que atrapalhe as minhas considerações finais a respeito do disco que continua uma ótima surpresa!