Vivemos momentos bem ruins na chamada “música pop”. A cada dia, surgem novos nomes, sejam meninos/meninas sem qualquer talento, mulheres insinuantes e rebolativas a disfarçar suas canções horríveis e gente veterana se submetendo às regras de um mercado que não existe mais. Foi exatamente por ter tal constatação em mente que resolvi hoje escrever a respeito daquilo que está mais distante deste universo fútil e descartável: o blues. Sim, o velho e bom gênero que não envelhece, mesmo com suas variações que visam atender às exigências das novas gerações.

Conheço pouquíssimas pessoas que não gostam de blues. Até mesmo gente que nunca foi chegada no gênero vez por outra se surpreende com algumas de minhas intervenções a respeito disto, seja em texto, vídeo ou o que mais houver. Você não precisa ser necessariamente músico para sentir-se seduzido pela simplicidade ou, por que não dizer, pela destreza instrumental daqueles que optaram por modernizar os fundamentos deste universo.

Quem manja de música e sabe tocar algum instrumento com seriedade não consegue menosprezar os legítimos lamentos dos autênticos bluesmen, mesmo aqueles que sempre pautaram suas canções em notas óbvias tocadas na velha e tradicional batida 4/4. Até mesmo os jazzistas mais renomados reconhecem a importância e a genialidade de lendas como John Lee Hooker e Muddy Waters, que sempre privilegiaram o feeling em detrimento da perfeita execução técnica.

Semana passado passei o tempo todo ouvindo no meu carro ou no conforto do meu lar um disco que há muito eu não ouvia. E ele me causou uma sensação tão boa durante a audição que pensei que seria bacana dividi-la com vocês, meus caros leitores que não me abandonam nunca. Fiquem à vontade para mostrar à sua esposa, aos seus filhos, aos seus amigos, compartilhando-os nas redes sociais ou onde quer que você queira. Trata-se de música da melhor qualidade. E isso não tem preço…

A Tribute to Hound Dog Taylor é um sensacional CD em homenagem a um dos mais sensacionais bluesmen de todos os tempos, com a participação de figuras luminares do gênero revisitando suas canções de modo brilhante. Infelizmente já falecidos, três veteranos simplesmente arrasaram em suas escolhas. O grande Son Seals deu a “Sadie” uma abordagem contagiante, assim como fez o velho Magic Slim em “Freddie’s Blues” e o espevitado Luther Allison, esmerilhando no slide, justamente na primeira música que Taylor gravou na carreira, a impagável “Give Back My Wig” (“Devolve a Minha Peruca”):

 

 

 

Os guitarristas mais novos e ainda vivos não ficaram atrás em termos de qualidade. Um de meus favoritos, o estupendo Warren Haynes, deu um tempo nas atividades dos Allman Brothers, pegou sua própria banda, o espetacular Gov’t Mule, e deu uma tremenda incrementada em “Gonna Send You Back to Georgia”. Ficou tão legal no disco que até hoje os caras tocam a canção em seus shows. Veja abaixo a junção que eles fizeram com “Come on in My Kitchen”, do lendário Robert Johnson:

 

Outros resolveram extrapolar anda mais. Vernon Reid, do Living Colour, travou um interessantíssimo ‘duelo’ com outro ótimo guitarrista, Alvin Youngblood, em uma estonteante versão acústica de “It’s Alright”, enquanto que o injustamente pouco conhecido – aqui no Brasil, claro – Sonny Landreth fez uma viagem delirante em uma reedição instrumental de “Taylor’s Rock”:

 

 

Sem contar que no disco há outras ótimas interpretações do ensandecido George Thorogood (“I Just Can’t Make It”), do gaiato Elvin Bishop (“Let’s Get Funky”), do esquisito e ótimo Dave Hole (“Hawaiian Boogie”) e muitos outros.

 

 

 

Não são poucas as pessoas que dizem que devo aproveitar a minha exposição pública para recomendar “música boa”. Bem, eu sempre faço isso. Como agora…